Tupac Shakur morreu em 13 de setembro de 1996, às 16h03, no University Medical Center of Southern Nevada, em Las Vegas. Tinha 25 anos e estava internado havia seis dias, desde que foi atingido por quatro tiros dentro de um carro parado num semáforo perto da Strip. A morte de Tupac completa 30 anos neste domingo, e pela primeira vez a data chega com alguém condenado pelo crime: em 31 de agosto, um júri de Las Vegas considerou Duane “Keffe D” Davis culpado por homicídio em primeiro grau.
O veredito encerrou uma espera de quase três décadas, mas a história que levou até ele começa muito antes daquela noite em Las Vegas. Ela começa no Harlem, numa família de militantes políticos, e passa por uma carreira curta em que o sucesso nos discos e no cinema andou lado a lado com os problemas na Justiça.
O caso em resumo
- Tupac foi baleado em 7 de setembro de 1996, em Las Vegas, e morreu seis dias depois, aos 25 anos.
- Os tiros partiram de um Cadillac branco que emparelhou com o BMW dirigido por Suge Knight, dono da Death Row Records.
- O caso passou 27 anos sem nenhum acusado, até a prisão de Duane “Keffe D” Davis, em setembro de 2023.
- Davis foi condenado por homicídio em primeiro grau em 31 de agosto de 2026. A sentença está marcada para 13 de outubro.
Quem foi Tupac Shakur
Tupac nasceu em 16 de junho de 1971, no East Harlem, em Nova York, registrado como Lesane Parish Crooks. Ainda bebê, recebeu o nome Tupac Amaru Shakur, uma homenagem a Túpac Amaru II, líder indígena que comandou uma revolta contra a Coroa espanhola no Peru do século 18. Quem escolheu foi a mãe, Afeni Shakur, e a escolha dizia muito sobre o ambiente em que o menino ia crescer.
Afeni era militante dos Panteras Negras e passou boa parte da gravidez presa, acusada junto com outros membros do partido no processo que ficou conhecido como Panther 21. Ela fez a própria defesa no tribunal e foi absolvida em maio de 1971, cerca de um mês antes de o filho nascer. Nos anos seguintes, a família viveu com pouco dinheiro e mudou de endereço várias vezes entre Nova York e Baltimore, uma instabilidade que Tupac mais tarde levaria para as letras.
Foi no meio dessas mudanças que ele descobriu o palco. Aos 12 anos, entrou para um grupo de teatro do Harlem e interpretou o personagem Travis numa montagem de “A Raisin in the Sun” apresentada no Apollo Theater. Já em Baltimore, conseguiu uma vaga na Baltimore School for the Arts, onde estudou atuação, poesia, jazz e balé. Os estudos foram interrompidos em 1988, quando a família se mudou outra vez, agora para Marin City, na Califórnia.
Do Digital Underground ao primeiro disco solo
Marin City fica na região da Baía de São Francisco, a mesma de Oakland, e foi por essa cena que Tupac chegou à música profissional. Ele começou no Digital Underground como roadie e dançarino, até ganhar espaço no microfone em “Same Song”, faixa que o grupo lançou em 1991. No fim daquele mesmo ano saiu 2Pacalypse Now, o primeiro álbum solo.
O disco levava para o rap os assuntos que ele ouvia em casa desde criança: violência policial, racismo e a rotina de jovens negros e pobres nos Estados Unidos. A repercussão foi muito além do público de rap. Em 1992, depois que a defesa de um jovem acusado de matar um policial no Texas atribuiu o crime à influência do álbum, o vice-presidente americano Dan Quayle declarou que aquele disco não tinha lugar na sociedade.
A polêmica aumentou a curiosidade em torno de Tupac, e o segundo álbum chegou nesse embalo. Strictly 4 My N.I.G.G.A.Z., de 1993, trouxe “I Get Around” e “Keep Ya Head Up”, música dedicada a Latasha Harlins, adolescente negra de 15 anos morta com um tiro pela dona de uma loja em Los Angeles, em 1991. Na faixa, ele se dirige às mulheres negras e às mães que criavam os filhos sozinhas, tema que voltaria com ainda mais força dois anos depois.
Enquanto os discos vendiam, o cinema também abriu espaço para ele. Tupac interpretou Bishop em “Juice” (1992), contracenou com Janet Jackson em “Poetic Justice” (1993) e esteve no elenco de “Above the Rim” (1994). Em pouco mais de três anos, o dançarino de apoio do Digital Underground passou a protagonizar filmes de Hollywood e a ter um disco de platina, e a exposição trouxe junto uma sequência de problemas com a polícia e a Justiça.
Os tiros de 1994 e a prisão
Os primeiros casos apareceram ainda em 1993. Em outubro daquele ano, Tupac foi preso em Atlanta depois de uma troca de tiros com dois policiais de folga, e as acusações contra ele acabaram retiradas.
O episódio mais grave veio um ano depois, em 30 de novembro de 1994. Tupac chegou ao Quad Studios, em Manhattan, para uma gravação e foi rendido por assaltantes no saguão do prédio. Foi atingido por cinco tiros e teve as joias roubadas, mas sobreviveu.
Nos meses seguintes, ele passou a dizer publicamente que pessoas ligadas à Bad Boy Records, gravadora de Sean Combs e de The Notorious B.I.G., sabiam da emboscada. Os dois sempre negaram qualquer envolvimento. As acusações, mesmo assim, romperam a amizade entre Tupac e Biggie e deram início à rivalidade entre o rap da Costa Leste e o da Costa Oeste.
Os tiros também coincidiram com o fim de um processo que corria desde o ano anterior. No dia seguinte ao ataque, Tupac foi condenado por abuso sexual, acusação que sempre negou. Em fevereiro de 1995, recebeu pena de um ano e meio a quatro anos e meio de prisão e foi levado para a Clinton Correctional Facility, no norte do estado de Nova York.
Foi dessa cela que Tupac escreveu uma das cartas mais comentadas da vida pessoal dele, endereçada a Madonna. Os dois tiveram um relacionamento discreto em 1994, que nunca foi assumido em público. Na carta, escrita em janeiro de 1995, Tupac encerra a relação e explica o motivo: para ela, ser vista com um homem negro não traria prejuízo à carreira, mas ele sentia que namorar uma mulher branca decepcionaria parte do público que tinha construído a imagem dele. O rapper também conta que se magoou com uma entrevista em que Madonna disse, em tom de brincadeira, que estava ali para “reabilitar” rappers e jogadores de basquete.
O conteúdo só se tornou público mais de 20 anos depois. Em 2017, a carta apareceu num lote de objetos pessoais de Madonna que Darlene Lutz, ex-amiga e consultora da cantora, levou à casa de leilões Gotta Have Rock and Roll. Madonna foi à Justiça, chamou o material de íntimo e conseguiu suspender a venda naquele ano, mas perdeu a disputa num tribunal de Manhattan porque tinha assinado, em 2004, um acordo que liberava Lutz de reclamações futuras. A carta voltou a ser leiloada em julho de 2019.

Me Against the World: número 1 com Tupac preso
Um mês depois da prisão, em março de 1995, chegou às lojas Me Against the World. O álbum estreou no primeiro lugar da Billboard 200 e fez de Tupac o primeiro artista a ter um disco no topo da parada americana enquanto cumpria pena.
O disco também era o mais pessoal que ele tinha gravado até então. É nele que está “Dear Mama”, carta aberta a Afeni que fala do vício da mãe em crack, da ausência do pai e das brigas em casa sem deixar de agradecer pelo esforço dela. Em 2010, a Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos incluiu a música no National Recording Registry, e ela se tornou apenas a terceira gravação de hip-hop do acervo.
Do lado de fora, as vendas iam bem, mas a liberdade dependia de uma fiança alta enquanto o recurso era julgado. Quem pagou foi Marion “Suge” Knight, dono da Death Row Records. Em outubro de 1995, Tupac deixou a prisão depois de um depósito de US$ 1,4 milhão e, em troca, assinou contrato com a gravadora de Los Angeles.
All Eyez on Me e a rivalidade entre as costas
A parceria com a Death Row rendeu o primeiro disco em apenas quatro meses. All Eyez on Me saiu em 13 de fevereiro de 1996 como álbum duplo, com “California Love” ao lado de Dr. Dre e Roger Troutman, “How Do U Want It” e “2 of Amerikaz Most Wanted”, dividida com Snoop Dogg. O trabalho recebeu certificação de Diamante da RIAA e segue entre os álbuns de rap mais vendidos da história.
Estar na Death Row também colocou Tupac no centro da disputa com a Bad Boy, que tinha começado depois dos tiros de 1994. Em junho de 1996, ele lançou “Hit ‘Em Up”, faixa com ataques diretos a Biggie e a pessoas próximas dele. A briga já tinha saído das músicas e chegado a entrevistas e premiações quando Tupac viajou para Las Vegas, em setembro.
Como foi a morte de Tupac em Las Vegas

Em 7 de setembro de 1996, Tupac assistiu no MGM Grand à luta em que Mike Tyson derrotou Bruce Seldon ainda no primeiro assalto. Na saída, as câmeras de segurança do hotel registraram o rapper e integrantes da comitiva da Death Row, entre eles Suge Knight, agredindo Orlando Anderson no saguão. Anderson fazia parte dos South Side Compton Crips, gangue rival dos Mob Piru, grupo próximo da gravadora.
Segundo a tese que anos depois levaria Keffe D à condenação, a resposta à agressão veio poucas horas depois. Por volta das 23h15, Tupac estava no banco do passageiro do BMW 750 preto dirigido por Knight, parado num semáforo no cruzamento da Flamingo Road com a Koval Lane. Um Cadillac branco emparelhou pela direita e um dos ocupantes abriu fogo. Tupac foi atingido por quatro tiros, enquanto Knight teve apenas um ferimento leve na cabeça. O carro em que Tupac foi baleado passou por vários donos desde então e chegou a ser anunciado por US$ 1,75 milhão no começo deste ano.
Tupac chegou com vida ao University Medical Center of Southern Nevada. Passou por cirurgias, foi mantido em coma induzido e resistiu por seis dias, até morrer na tarde de 13 de setembro. Menos de dois meses depois, a Death Row lançou The Don Killuminati: The 7 Day Theory, disco gravado antes do atentado e assinado com o pseudônimo Makaveli.
Seis meses depois, em 9 de março de 1997, The Notorious B.I.G. também foi morto a tiros dentro de um carro, em Los Angeles. As duas investigações travaram, e os dois crimes passaram décadas sem ninguém no banco dos réus.
Quem matou Tupac: 27 anos sem acusado
Sem prisões, o nome que mais circulou durante esse período foi o de Orlando Anderson, o homem agredido no MGM Grand. Ele negou envolvimento, nunca foi indiciado e morreu em maio de 1998, num tiroteio em Compton sem relação com o caso. A falta de respostas oficiais abriu espaço para teorias de todo tipo, inclusive a de que Tupac teria forjado a própria morte.
A pista que acabaria levando a um réu estava na própria família de Anderson. Duane Keith Davis, conhecido como Keffe D, é tio dele e foi uma das lideranças dos South Side Compton Crips. Em 2008, Davis falou sobre aquela noite com investigadores. Anos depois, repetiu a história em entrevistas e no livro de memórias “Compton Street Legend”, de 2019, em que se colocava dentro do Cadillac e dizia ter passado a arma para o banco de trás, de onde partiram os disparos.
Ao contar essa versão em público, Davis deu à polícia de Las Vegas a base que faltava para retomar o caso. Em julho de 2023, os investigadores fizeram buscas na casa dele, em Henderson, e em 29 de setembro daquele ano ele foi preso e indiciado por um grande júri. Davis se declarou inocente, o julgamento foi adiado mais de uma vez e a seleção dos jurados só começou em 10 de agosto de 2026.
A condenação de Keffe D em 2026

No tribunal, a promotoria não tentou provar que Davis puxou o gatilho. A acusação sustentou que ele organizou a vingança pela surra no sobrinho, saiu atrás de Tupac e de Suge Knight e entregou a arma usada no ataque. Pela lei de Nevada, esse papel já basta para uma condenação por homicídio.
A defesa atacou justamente a origem dessas provas. Quase tudo o que ligava Davis ao crime vinha das palavras dele mesmo, da conversa com investigadores em 2008 ao livro publicado em 2019, e os advogados argumentaram que não havia nenhuma evidência independente para confirmar esses relatos.
O júri ouviu 24 testemunhas da acusação e três da defesa e levou menos de três horas para decidir entre as duas versões. Em 31 de agosto, Davis, de 63 anos, foi considerado culpado por homicídio em primeiro grau com uso de arma letal, como noticiaram a NPR e a CNN. Sekyiwa Shakur, irmã de Tupac, acompanhou a leitura do veredito dentro da sala.
A sentença está marcada para 13 de outubro, e a pena pode chegar à prisão perpétua sem possibilidade de liberdade condicional. Davis segue preso e já disse que vai recorrer. Como ele é a única pessoa formalmente acusada pela morte de Tupac, a Justiça ainda não apontou oficialmente quem atirou naquela noite.
O legado de Tupac, 30 anos depois
Enquanto a investigação seguia parada, os lançamentos póstumos continuaram. Em 1998, a coletânea Greatest Hits apresentou “Changes”, faixa construída sobre “The Way It Is”, de Bruce Hornsby, em que ele fala de violência policial, de guerra às drogas e de um país que, na visão dele, não estava pronto para um presidente negro. A música rendeu uma indicação póstuma ao Grammy.
O reconhecimento das instituições veio depois. Em 7 de abril de 2017, Tupac entrou para o Rock and Roll Hall of Fame como o primeiro artista solo de hip-hop a receber a honra, apresentado na cerimônia por Snoop Dogg. Em 2023, ganhou uma estrela na Calçada da Fama de Hollywood.
A influência dele aparece com mais clareza em quem veio depois. Kendrick Lamar, que tinha 9 anos quando Tupac morreu, fechou “To Pimp a Butterfly”, de 2015, com uma conversa imaginária com o rapper, montada a partir de trechos de uma entrevista que Tupac deu em 1994. Com essa faixa, a voz de Tupac entrou no disco que venceu o Grammy de melhor álbum de rap em 2016, quase 20 anos depois do atentado.
Trinta anos depois da morte de Tupac, o caso finalmente tem um condenado, mas ainda não chegou ao fim. O próximo passo é a audiência de 13 de outubro, em que a juíza Carli Kierny vai definir a pena de Keffe D, e a RAP MÍDIA acompanha a decisão.
Linha do tempo de Tupac Shakur
- 16 de junhoNasce no East Harlem, em Nova York, registrado como Lesane Parish Crooks
- EstreiaAparece no microfone em “Same Song”, do Digital Underground, e lança o primeiro disco solo, 2Pacalypse Now
- Segundo álbumStrictly 4 My N.I.G.G.A.Z. traz “Keep Ya Head Up” e “I Get Around”
- 30 de novembroLeva cinco tiros durante um assalto no Quad Studios, em Nova York
- Prisão e topo da paradaPreso em fevereiro, lidera a Billboard 200 com Me Against the World e sai em outubro com fiança paga pela Death Row
- 13 de fevereiroLança All Eyez on Me, álbum duplo que recebeu certificação de Diamante
- 13 de setembroMorre aos 25 anos, seis dias depois de ser baleado em Las Vegas
- 9 de marçoThe Notorious B.I.G. é morto a tiros em Los Angeles
- MaioOrlando Anderson, o homem agredido no MGM Grand, morre num tiroteio em Compton
- 7 de abrilTupac entra para o Rock and Roll Hall of Fame
- 29 de setembroDuane “Keffe D” Davis é preso e indiciado em Las Vegas
- 31 de agostoDavis é condenado por homicídio em primeiro grau. A sentença sai em 13 de outubro
Perguntas frequentes sobre a morte de Tupac
Quando e onde Tupac morreu?
Tupac Shakur morreu em 13 de setembro de 1996, às 16h03, no University Medical Center of Southern Nevada, em Las Vegas. Ele tinha 25 anos e estava internado desde 7 de setembro, quando foi atingido por quatro tiros disparados de um Cadillac branco contra o carro em que estava com Suge Knight.
Quem matou Tupac?
Duane “Keffe D” Davis foi condenado em 31 de agosto de 2026 por homicídio em primeiro grau, acusado de organizar o ataque e fornecer a arma. A promotoria não afirma que ele atirou. Davis é a única pessoa formalmente acusada pelo crime e já disse que vai recorrer da condenação.
Quando sai a sentença de Keffe D?
A audiência de sentença de Duane “Keffe D” Davis está marcada para 13 de outubro de 2026, em Las Vegas. Condenado por homicídio em primeiro grau com uso de arma letal, ele pode receber prisão perpétua sem direito a liberdade condicional e continua preso até a decisão.
Qual era o nome verdadeiro de Tupac?
Tupac foi registrado como Lesane Parish Crooks, em 16 de junho de 1971, em Nova York. Ainda bebê, passou a se chamar Tupac Amaru Shakur, nome escolhido pela mãe, Afeni Shakur, em homenagem a Túpac Amaru II, líder indígena de uma revolta contra os espanhóis no Peru.
Qual é o álbum mais vendido de Tupac?
All Eyez on Me, lançado em 13 de fevereiro de 1996, é o álbum mais vendido de Tupac. O disco duplo, o primeiro dele pela Death Row Records, traz “California Love” e “How Do U Want It” e recebeu certificação de Diamante da RIAA, a associação da indústria fonográfica americana.





