“333” e “Máquina do Tempo”: os álbuns de Matuê que passaram do bilhão fazem aniversário nesta semana

Cearense é o único nome do trap com dois projetos na casa do bilhão de execuções; "Máquina do Tempo" soma 1,3 bilhão de plays e 1.039 dias no Top 200 do Spotify
333 e Máquina do Tempo

Quinze metros de altura no Vale do Anhangabaú, no centro de São Paulo, e um cara parado lá em cima, em silêncio, durante três horas e 33 minutos. Quando aquele tempo acabou, “333” já estava no ar. A cena é de 2024 e volta à conversa porque o disco completa dois anos nesta quarta-feira (9). Um dia depois, na quinta (10), “Máquina do Tempo” chega aos seis.

As duas datas caem na mesma semana e carregam um dado que nenhum outro artista do trap brasileiro conseguiu repetir: Matuê é o único da cena com dois projetos que ultrapassaram a marca de um bilhão de execuções. Não é um número de estreia, daqueles que explodem em 24 horas e desabam no mês seguinte. É acúmulo, catálogo, gente voltando a ouvir anos depois.

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A encenação antes da música

Vale reparar em como os dois discos chegaram ao público, porque o método diz tanto quanto o resultado nos gráficos. Em 2020, o cearense passou oito meses fora das redes sociais. Sem post, sem teaser, sem contagem regressiva. O que veio depois foi uma transmissão de um minuto no Instagram, captada por drone, mostrando o rapper no topo de um prédio em São Paulo. A fachada estava pintada, e aquela pintura era a primeira aparição da identidade visual de “Máquina do Tempo”.

Quatro anos depois, a lógica mudou de tema. A estrutura no Anhangabaú não era só palco: Matuê colocou em cena a dualidade de estar no topo aos olhos dos fãs e, ao mesmo tempo, se sentir exposto e vulnerável diante de todo mundo. Ficou calado o tempo inteiro. Três horas e 33 minutos, o número que batiza o álbum. Quando desceu, o segundo disco de estúdio da carreira já rodava nas plataformas.

Os dois lançamentos apostaram na mesma ideia de amarrar a música ao movimento da rua, ao espaço urbano, à cidade como parte da capa. Isso não é detalhe de marketing. É uma decisão estética que os álbuns de Matuê incorporaram desde o começo e que boa parte da cena passou a copiar depois, com resultados bem menos consistentes.

Os números das estreias

“Máquina do Tempo” já nasceu quebrando coisa. Foram 4,6 milhões de execuções nas primeiras 24 horas, o que na época significou o recorde de melhor estreia da história do Spotify Brasil. O desempenho se espalhou pelas faixas de um jeito raro: cinco músicas entraram entre as dez mais ouvidas do país e as sete canções do disco ocuparam o Top 15 inteiro. A faixa-título assumiu o #1, seguida por “777-666” (#3), “Cogulândia” (#4), “Antes” (#6), “É Sal” (#7), “Gorila Roxo” (#8) e “Vem Chapar” (#14).

Fora do Brasil, três músicas apareceram simultaneamente no chart global da plataforma: “Máquina do Tempo” (#114), “777-666” (#153) e “Cogulândia” (#188). Em Portugal, a tracklist completa entrou no Top 200.

“333” pegou essa régua e levantou. Lançado de forma independente pela 30PRAUM, o álbum somou mais de 16 milhões de execuções nas primeiras 24 horas no ar. Todas as 12 faixas chegaram ao Top 50 do Spotify, com “Crack com Mussilon” liderando: mais de 1,45 milhão de streams em um dia, recorde para o trap brasileiro à época. Logo atrás vinham “Imagina esse Cenário” com Veigh (#2), “4Tal” com Teto (#3) e “1993” (#4). “Isso É Sério”, com Brandão085, apareceu em #6.

Um artista independente, sem estrutura de major, colocando doze músicas de uma vez nas cinquenta mais ouvidas de um país de 200 milhões de habitantes. Isso não acontece por acaso nem por algoritmo generoso. Acontece quando existe base construída single a single, show a show, ao longo de anos.

O que os dois discos ainda fazem hoje

Seis anos depois, “Máquina do Tempo” não virou peça de museu. O projeto está no 30º lugar do ranking semanal de Top Álbuns do Spotify Brasil e acumula 1,3 bilhão de plays desde o lançamento. A faixa-título ocupa a 47ª posição do Top 50 de músicas da plataforma e já somou 1.039 dias no Top 200. Mais de mil dias entre as duzentas músicas mais ouvidas do país separa hit de padrão de consumo.

“333” caminha pelo mesmo trilho, com dois anos de estrada. O disco está no 25º lugar do Top Álbuns da semana e recebeu certificação de Diamante da Pro-Música Brasil. Todas as faixas do projeto foram certificadas individualmente, o que estabeleceu o recorde de faixas diamante em um álbum de rap no Brasil. “Crack com Mussilon” chegou a Diamante Triplo, “Imagina Esse Cenário” e “Isso É Sério” a Diamante Duplo, e “04AM” e “Like This!” fecharam com Platina Triplo e Platina Duplo, respectivamente.

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Certificação, no Brasil, tem um valor específico: ela mede o que atravessou o nicho. Um álbum de trap com onze faixas certificadas em nível diamante quer dizer que aquele som virou pauta de rádio de carro, de churrasco, de fone de ouvido em transporte público. Saiu da bolha, e saiu inteiro, sem depender de uma única música carro-chefe para carregar o projeto nas costas.

Dois discos, uma métrica

É aí que o dado do bilhão em dobro fica interessante. Chegar a esse volume com um projeto é possível para vários artistas grandes da geração. Chegar duas vezes exige que o primeiro trabalho continue sendo ouvido enquanto o segundo cresce, sem que um canibalize o outro. Os álbuns de Matuê conseguiram isso ocupando espaços diferentes: “Máquina do Tempo” com sete faixas e a linguagem que ele vinha lapidando nos singles; “333” com doze e uma pegada mais experimental e reflexiva, que ampliou o que caberia dentro do nome dele.

Há um efeito colateral bonito nessa história. Boa parte dos artistas da nova geração do trap nacional se apresenta hoje com uma referência clara ao que aconteceu em 2020 e em 2024, seja na produção, na forma de anunciar um disco ou na ideia de que rollout também é obra. Os discos de Matuê viraram parâmetro de comparação para quem chega, e parâmetro é uma coisa mais dura de sustentar do que recorde.

Na semana em que os dois álbuns de Matuê fazem aniversário, eles estão disputando espaço no mesmo ranking semanal do Spotify Brasil: 25º e 30º lugar. Seis anos e dois anos de lançamento, um ao lado do outro com o que saiu na sexta passada. Quem vier depois, incluindo o próprio autor, vai ter que passar por eles.

Números de Maquina do tempo e 333 de Matuê

MÁQUINA DO TEMPO — Spotify Brasil Charts (à época do lançamento)

  • #1 — Máquina do Tempo
  • #3 — 777-666
  • #4 — Cogulândia
  • #6 — ANTES
  • #7 — É SAL
  • #8 — GORILA ROXO
  • #14 — VEM CHAPAR

MÁQUINA DO TEMPO — Spotify Global Charts (à época do lançamento)

  • #114 — Máquina do Tempo
  • #153 — 777-666
  • #188 — Cogulândia

333 — Spotify Charts (à época do lançamento)

  • #1. Crack com Mussilon
  • #2. Imagina esse Cenário (feat. Veigh)
  • #3. 4Tal (feat. Teto)
  • #4. 1993
  • #6. Isso É Sério (feat. Brandão085)
  • #7. 333
  • #9. O Som
  • #10. Maria
  • #12. Castlevania
  • #13. V de Vilão
  • #14. 04AM
  • #23. Like This

333 — Certificações (Pro-Música Brasil)

  • “Crack com Mussilon” – Diamante Triplo
  • “Imagina Esse Cenário” – Diamante Duplo
  • “Isso É Sério” – Diamante Duplo
  • “1993” – Diamante
  • “4Tal” – Diamante
  • “O Som” – Diamante
  • “04AM” – Platina Triplo
  • “Castlevania” – Diamante
  • “V de Vilão” – Diamante
  • “Maria” – Diamante
  • “333” – Diamante
  • “Like This!” – Platina Duplo

O RESUMO DA CENA

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NARDONI

NARDONI

Carioca que não gosta de praia, apreciador de café e água com gáix, criador da RAP MÍDIA.

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