Duane “Keffe D” Davis foi condenado nesta segunda-feira, dia 31 de Agosto, por orquestrar o assassinato de Tupac Shakur, baleado em Las Vegas em setembro de 1996. O júri deliberou por três horas e voltou com o veredicto de culpado por homicídio com uso de arma letal, com intenção de promover e auxiliar uma organização criminosa. Quase três décadas depois do crime que chocou o hip-hop mundial, a condenação de Keffe D pelo assassinato de Tupac é a primeira que a Justiça americana consegue emplacar nesse caso.
Davis tem 63 anos e é a única pessoa que chegou formalmente ao banco dos réus por essa morte. Os promotores nunca afirmaram que ele puxou o gatilho. A tese da acusação foi outra: ele planejou tudo, saiu à caça de Tupac e de Marion “Suge” Knight naquela noite, e entregou a arma a um dos homens sentados no banco traseiro do Cadillac branco de onde os tiros foram disparados. Segundo a lei de Nevada, isso é suficiente para responder por homicídio.
O que levou ao banco dos réus décadas depois
O caso ficou paralisado por anos. As próprias palavras de Davis reativaram a investigação. Em 2018, ele deu entrevistas a diversos veículos de mídia e, em 2019, publicou um livro de memórias intitulado “Compton Street Legend”onde descreveu com detalhes o que aconteceu naquela noite. Disse que estava no banco do passageiro da frente e que havia passado a arma para um dos homens no banco de trás. A polícia usou essas declarações como ponto de partida para reabrir o inquérito.
O julgamento durou semanas. Ao todo, 24 testemunhas de acusação e três de defesa subiram ao púlpito ao longo de nove dias. O júri era composto por 16 jurados, quatro deles suplentes.
O vice-procurador distrital Binu Palal argumentou nas alegações finais que Davis tinha um motivo claro: Tupac e Suge Knight haviam espancado o sobrinho de Davis horas antes do tiroteio. A partir daí, segundo a acusação, Davis foi atrás de vingança. Palal reconheceu que os relatos de Davis mudaram ao longo dos anos, mas insistiu que um detalhe nunca variou.
“Os fatos essenciais permanecem. Os fatos materiais permanecem.”
Binu Palal, vice-procurador distrital
A defesa, representada por Michael Sanft, foi direto ao ponto mais fraco do caso da acusação: a ausência de evidências físicas independentes. Nenhuma imagem de câmera de segurança, nenhum registro telefônico, nada que colocasse Davis em Las Vegas naquela noite além das próprias declarações dele. Sanft desafiou o júri a identificar uma prova sequer que não viesse da boca do próprio réu. O júri não concordou com essa leitura.
A família, o tribunal e o peso de um veredicto
Quando o veredicto foi lido, familiares de Tupac estavam presentes no tribunal. Não houve reação audível, mas Sekyiwa “Set” Shakur, irmã do rapper, pareceu chorar baixinho. Décadas de espera por alguma resposta da Justiça culminavam naquele momento: uma resposta que chega tarde demais para muita gente, mas que ainda assim carrega peso.
Davis ainda não sabe qual será sua sentença. A audiência está marcada para 13 de outubro, quando a juíza Carli Kierny pode aplicar prisão perpétua sem possibilidade de liberdade condicional. Até lá, ele permanece sob custódia, sem direito a fiança.
Um ponto relevante que ficou de fora do julgamento: a hipótese de incluir um agravante por envolvimento de gangues foi descartada pelos promotores por “questões logísticas relacionadas a testemunhas”, segundo Palal. Em um caso que já carrega tantos buracos, mais um capítulo que não será totalmente esclarecido.
O que ainda fica sem resposta
A condenação de Keffe D pelo assassinato de Tupac resolve uma parte da história. Só uma parte. Os outros três homens que estavam no Cadillac com Davis já morreram, e nenhum deles chegou a ser julgado. O nome de quem efetivamente puxou o gatilho continua fora dos autos, e provavelmente assim vai ficar.
No livro “Compton Street Legend”, Davis também escreveu que por anos foi apontado como suspeito pela morte de Christopher Wallace, o Notorious B.I.G. assassinado em Los Angeles em março de 1997. A teoria de que Wallace foi morto em retaliação ao assassinato de Tupac circula há décadas entre investigadores e pesquisadores da cena, mas o caso segue sem solução. A condenação desta segunda-feira não toca nessa questão.
Tupac completaria 53 anos de morte no dia 13 de setembro, exatamente duas semanas depois do veredicto. A sentença de Davis está marcada para o mesmo mês. O fato é que o rap perdeu um dos seus no auge, com 25 anos, antes que qualquer tribunal tivesse a chance de agir. Quantas outras histórias como essa nunca chegaram sequer ao banco dos réus?





