“Ruas Vazias 2”, novo álbum de Shawlin, chega nesta quinta-feira (10) a todas as plataformas digitais com participações de Raflow, Xamã e Hélio Bentes. O disco sai acompanhado do clipe de “Vida” e de uma audição no Rio de Janeiro no mesmo dia. O primeiro single, “Zum”, com Raflow e produção de J Cardim, saiu no começo de setembro com videoclipe.
A conta que interessa aqui é a do calendário. O Ruas Vazias original é de 2007. São quase duas décadas entre um disco e outro, e no meio delas cabe praticamente tudo o que aconteceu com o rap brasileiro: a saída da lógica de gravadora, a chegada do streaming, a explosão do trap e a virada do rap carioca em produto de massa. Shawlin atravessou esse período inteiro sem sair de cena e sem repetir a mesma fórmula duas vezes.
O primeiro Ruas Vazias e o rap que se virava sozinho
O disco de 2007 foi lançado na Lapa e trazia Sam the Kid na faixa “Amigos”, num momento em que o rap independente brasileiro ainda estava inventando como existir sem gravadora. Shawlin vinha do Quinto Andar, grupo de Niterói que colocava as próprias músicas na internet para quem quisesse baixar, numa época em que isso não era estratégia de marketing e sim a única distribuição disponível.
Ele foi o primeiro rapper brasileiro a ter site próprio. Hoje o dado soa como curiosidade, mas na prática significava manter servidor, tráfego e público sem intermediário nenhum, anos antes de qualquer plataforma resolver isso para o artista. É esse contexto que “Ruas Vazias” carrega: um disco de rua feito por quem construiu a própria estrutura de circulação.
Orquestra Simbólica, Cachorro Magro e a mania de não se repetir
O que veio depois foi um artista que nunca ficou parado no mesmo lugar. Orquestra Simbólica, de 2012, foi construído sobre arquivos restaurados de música clássica russa que ele mesmo garimpou, com Black Alien, Luiz Melodia e Juju Gomes entre as participações. No ano seguinte, o projeto virou apresentação ao vivo regida e arranjada por Arthur Verocai, com vinte músicos em cena, no Sesc Pinheiros.
Em 2013 nasceu o Cachorro Magro, alter ego mais agressivo que estreou em “Late Igual Cachorro” e assinou “BANG”, com Tropkillaz, anos antes do trap virar o gênero mais ouvido do país. Sobre isso, Shawlin não faz cerimônia ao se colocar como pai de geral, e manda conferir as datas de lançamento. É uma provocação que ele pode se dar ao luxo de fazer porque o argumento está no calendário, não na entrevista.
As duas fases no mesmo disco
“Ruas Vazias 2” traz essas duas fases dentro do mesmo trabalho. O álbum é assinado como Shawlin, com algumas faixas que lembram o Cachorro Magro no meio do caminho. Não é um disco de nostalgia nem uma tentativa de refazer o de 2007. É o encontro do rapper que construiu a base com o que veio depois dele, sem escolher um lado.
Nas participações, a lógica é a mesma. Raflow, da zona oeste do Rio e do coletivo Distrito 23, representa a geração que chegou décadas depois. Xamã aparece em “Irmãos Metralha”, faixa que ganha clipe em outubro. E Hélio Bentes fecha um reencontro: os dois já dividiram “Acreditando no Bem”, produção do Time Forte, ao lado de Marcelo D2, Black Alien, Filipe Ret e Start.
Uma sequência rara no rap brasileiro
Sequência de disco clássico costuma ser uma aposta ruim. O primeiro trabalho já ocupou o lugar que ocupava na memória de quem ouviu, e o segundo entra devendo antes de tocar a primeira faixa. A diferença, no caso de Shawlin, é que ele não passou esses anos vivendo do primeiro Ruas Vazias. Passou construindo projetos que quase não conversam entre si, de orquestra a trap, e voltando para o nome só agora.
Conrado Vieira começou aos 15 anos, em 1999, com “Aliança”, na coletânea Zoeira Hip Hop. De lá para cá foram o Quinto Andar, cinco álbuns solo entre os dois nomes que ele usa e uma passagem pelo documentário O Som do Tempo, sobre a expansão do rap carioca.
“Ruas Vazias 2” chega menos como retorno e mais como acerto de contas com a própria discografia, feito por alguém que já provou não precisar de saudade para continuar relevante.




