Tem projetos que existem para mostrar quem o artista é. E tem projetos que existem para mostrar o que o artista carrega. “Estilhaços & Cicatrizes (2º Ato)” novo EP de TOKIODK lançado pela Warner Music Brasil, pertence claramente à segunda categoria. São seis faixas construídas sobre amor que ficou para trás, sobre a dificuldade real de esquecer alguém e sobre o que sobra depois que uma relação se encerra. É o tipo de material que um artista só consegue fazer quando decide parar de se proteger.
O projeto chega como continuidade direta de “INFRAÇÕES (1º ATO)” que abriu a trilogia apresentando a origem e a identidade de TOKIODK. Se o primeiro ato respondia quem ele é, “Estilhaços & Cicatrizes (2º Ato)” parte de uma pergunta mais incômoda: o que existe por trás de tudo isso? A resposta não vem em forma de manifesto. Vem em etapas, de trás para frente, revisitando experiências que moldaram o artista de formas que ele talvez prefira não lembrar.
A máscara como passagem, não como esconderijo
A figura visual que organiza o projeto é uma máscara brilhante, o alter ego que acompanha TOKIODK desde antes. Só que aqui ela muda de função. Não é barreira. No contexto deste segundo ato, a máscara opera como uma espécie de câmara de descompressão: o personagem existe para que o artista consiga se aproximar de sentimentos que, sem essa mediação, talvez continuassem enterrados. Há algo de paradoxal nisso que funciona muito bem. Rap e trap frequentemente operam exatamente nessa lógica: o personagem diz o que o homem não consegue.
A abertura do EP deixa isso claro desde o primeiro minuto. A “Intro” coloca TOKIODK numa sessão de terapia, frente à sua psicóloga, estabelecendo o tom antes mesmo de a música começar de verdade. É uma escolha narrativa que poucas vezes aparece com essa clareza no rap nacional. Não é ornamento: é estrutura. O projeto se constrói a partir daí como se cada faixa fosse uma sessão e cada feat uma testemunha diferente do processo.
Seis faixas, seis estágios
“Elevador” com participação de Jenni traduz o estado emocional dos altos e baixos que marcam qualquer relação chegando ao fim sem que os dois lados ainda tenham admitido isso. “Meu Amor É Seu” coloca a memória no centro, aquela sensação específica de um sentimento que ainda existe mas já não tem para onde ir.
“Pode Me Ligar” ao lado de Carla Sol carrega o conflito entre o desejo de manter contato e a clareza de que isso não deveria mais existir. É o tipo de tensão que qualquer pessoa que já ficou olhando pro celular sem apertar o botão vai reconhecer imediatamente. Depois vem “Ciclo Encerrado” que representa a tentativa de transformar ruptura em maturidade: a narrativa não romantiza a dor, coloca ela como algo que precisa ser atravessado.
O momento mais pesado do projeto é “Preciso Te Esquecer”com Vulgo FK. Aqui, esquecer deixa de ser uma consequência passiva e vira uma decisão ativa: cortar caminhos, parar de buscar, deixar de alimentar aquilo que já não pertence ao presente. A presença de Vulgo FK nessa faixa específica faz sentido. Ele traz um peso vocal e lírico que combina com esse momento da narrativa.
O encerramento e o que ainda falta
O EP fecha com “Gênio Indomável”feat com Anchietx. Depois de todo o território emocional percorrido, a faixa funciona como uma passagem: não uma resolução limpa, mas um ponto de saída depois de ter encarado tudo que precisava ser encarado. É um encerramento que não promete cura, o que é honesto.
“Estilhaços & Cicatrizes (2º Ato)” entrega o que se espera de um projeto que se propõe a ser o capítulo mais íntimo de uma trilogia: vulnerabilidade construída com intenção, não exposta ao acaso. TOKIODK não está simplesmente sendo transparente por ser transparente. Há uma arquitetura narrativa por trás, que passa pela terapia na abertura, percorre o luto afetivo faixa por faixa e chega ao encerramento sem resolver tudo, porque algumas coisas não têm resolução.
Com a trilogia ainda aberta e o terceiro ato por vir, fica a pergunta: o que TOKIODK ainda tem guardado que não coube nesses dois primeiros capítulos?




