Emicida é o nome que melhor traduz a passagem do rap brasileiro da esquina para o centro do debate cultural do país. Leandro Roque de Oliveira saiu das batalhas de rima da Zona Norte de São Paulo para ganhar Grammy Latino, escrever livro infantil e lotar o Theatro Municipal.
Nascido em 17 de agosto de 1985 e criado no Jardim Cachoeira, ele construiu uma obra que costura rap, samba, MPB e história afro-brasileira, sem abrir mão da origem periférica que dá o tom das letras.
A trajetória dele é também uma história de empreendedorismo. Ao lado do irmão Evandro Fióti, fundou o Laboratório Fantasma para vender as próprias mixtapes a preços que a quebrada pudesse pagar, e transformou aquilo numa empresa de música, audiovisual e moda.
Hoje, com três álbuns de estúdio, três mixtapes, dois discos ao vivo, dois livros infantis e um documentário na Netflix, Emicida é uma das vozes mais ouvidas do Brasil quando o assunto é cultura negra, ancestralidade e memória.
Emicida do Jardim Cachoeira: a perda do pai e a força de Dona Jacira
Emicida perdeu o pai, Miguel, aos 6 anos. Ele morreu ao tentar separar uma briga, episódio que atravessa a obra do filho de forma recorrente.
A criação ficou com a mãe, Dona Jacira Roque de Oliveira, ao lado do irmão Evandro, o Fióti, e de duas irmãs, numa rotina de aperto financeiro na Zona Norte paulistana. O nome do primeiro disco, sobre morder cachorro por comida, não é figura de linguagem gratuita.
Dona Jacira não ficou nos bastidores. Ela participa de faixas dos discos do filho, como “Crisântemo”, em 2013, e “Mãe”, que abre o álbum de 2015, e virou personagem pública ao longo da carreira dele, presente em entrevistas e no documentário do AmarElo. Ela morreu em julho de 2025, aos 60 anos.
O contato com a música veio cedo, dentro de casa, junto com a percepção de que a rima podia ser sustento e não passatempo. Em 2005 vieram as primeiras gravações caseiras, com “Contraditório Vagabundo” circulando na internet.
Emicida nas batalhas: a Rinha dos MCs e o nome que virou marca
O apelido nasceu nas batalhas de improviso. Ele vencia tanto que os amigos diziam que “matava” os adversários na rima, daí a junção de MC com o sufixo -cida. Depois o próprio artista transformou o nome em acrônimo: “Enquanto Minha Imaginação Compuser Insanidades Domino a Arte”.
Os números da fase ajudam a entender o apelido. Foram onze vitórias consecutivas na batalha da Santa Cruz e doze na Rinha dos MCs, o circuito mais respeitado de São Paulo na época.
As batalhas eram, naquele momento, a principal porta de entrada do rap paulista. Não havia streaming, e a reputação se construía no improviso, diante de plateia. É de lá que vem a habilidade de escrita rápida e de resposta que marca as letras dele até hoje.
Emicida e “Triunfo”: o single que mudou tudo
Em 2008, “Triunfo” apresentou Emicida ao país. Produzida por Felipe Vassão, a faixa passou de dez milhões de visualizações e virou porta de entrada de uma geração inteira no rap nacional.
O verso mais conhecido dela, sobre o cheiro do sonho e o gosto de vitória, virou frase de efeito repetida em pichação, camiseta e legenda de rede social. Foi a música que provou que rap independente podia furar a bolha sem apoio de rádio ou gravadora.
Dez anos depois, o próprio artista comemoraria essa marca com o álbum ao vivo “10 Anos de Triunfo”, lançado em abril de 2018, com 27 faixas registradas em show.
Emicida e o Laboratório Fantasma: mixtape a dois reais
Em 2009, ele e o irmão Fióti fundaram o Laboratório Fantasma, selo criado para lançar o próprio material sem depender de gravadora. A lógica era simples e radical para a época: vender barato, com mixtapes a preços entre dois e quinze reais, para que o público da quebrada conseguisse comprar.
O modelo funcionou. As mixtapes formam a base da obra dele: “Pra Quem Já Mordeu um Cachorro por Comida, Até Que Eu Cheguei Longe” (2009), com 25 faixas, “Emicídio” (2010), com 18, e “Doozicabraba e a Revolução Silenciosa” (2011). Entre elas saiu o EP “Sua Mina Ouve Meu Rap Também”, em janeiro de 2010.
O Laboratório cresceu muito além da música. Virou produtora audiovisual e grife de moda, com desfiles na São Paulo Fashion Week e coleções como “Yasuke”, de 2016, inspirada no samurai negro que serviu no Japão do século 16, além de “Herança” (2017) e “Avuá” (2018).
A empresa se tornou uma das principais referências de afroempreendedorismo do país, e é impossível contar a história de Emicida sem contar a do selo.
Emicida e “O Glorioso Retorno”: o primeiro álbum de estúdio
O primeiro álbum de estúdio veio só em agosto de 2013, com “O Glorioso Retorno de Quem Nunca Esteve Aqui”, de catorze faixas. O título ironiza a própria condição: ele já era conhecido, mas nunca havia lançado um disco oficial.
O repertório mostra a ambição do projeto. Traz “Milionário do Sonho”, com a poeta Elisa Lucinda, “Levanta e Anda”, com Rael, “Zóião”, “Crisântemo”, com Dona Jacira, “Hoje Cedo”, com Pitty, “Trepadeira”, com o sambista Wilson das Neves, “Gueto”, com MC Guimê, e “Samba do Fim do Mundo”, com Fabiana Cozza e Juçara Marçal.
A lista de convidados já anunciava o projeto artístico dele: colocar rap, samba, MPB e poesia falada no mesmo disco, sem hierarquia entre os gêneros. Naquele ano ele venceu o Prêmio APCA de Intérprete do Ano.
Antes disso, em 2011, ele já havia vencido o MTV Video Music Brasil nas categorias Clipe do Ano, com “Então Toma!”, e Artista do Ano, e em 2012 levou Música do Ano com “Dedo na Ferida”.
Emicida e “Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa”
O segundo álbum saiu em agosto de 2015, também com catorze faixas, e é o disco em que ele amplia de vez a paleta sonora, incorporando referências africanas e caribenhas.
O repertório abre com “Mãe”, com Dona Jacira e Anna Tréa, e traz “Amoras”, “Baiana”, com Caetano Veloso, “Passarinhos”, com Vanessa da Mata, “Sodade”, com a cabo-verdiana Neusa Semedo, “Boa Esperança”, “Trabalhadores do Brasil”, com o escritor Marcelino Freire, e “Mandume”, que reúne Drik Barbosa, Amiri, Rico Dalasam, Muzzike e Raphao Alaafin.
Títulos como “Mufete”, prato angolano, “Sodade” e “Madagascar” revelam a viagem geográfica proposta pelo álbum, que atravessa a diáspora africana em vez de se restringir à periferia paulistana.
O disco rendeu a primeira indicação dele ao Grammy Latino, em 2016, na categoria Melhor Álbum de Música Urbana, e o Prêmio Multishow de Melhor Clipe, por “Boa Esperança”. Em 2015 ele também levou o APCA de Artista do Ano.
A faixa “Amoras” ganharia vida própria três anos depois, quando virou o livro infantil de mesmo nome, inspirado na filha mais velha dele.
Emicida e “AmarElo”: o Grammy Latino, a Netflix e o Theatro Municipal
“AmarElo”, lançado em 30 de outubro de 2019, é o trabalho que colocou Emicida em outro patamar. São onze faixas, e a lista de convidados é uma das mais improváveis já reunidas num disco de rap brasileiro.
O álbum abre com “Principia”, com Fabiana Cozza, o Pastor Henrique Vieira e as Pastoras do Rosário, e traz “A Ordem Natural das Coisas”, com Mc Tha, “Pequenas Alegrias da Vida Adulta”, com Marcos Valle e o humorista Thiago Ventura, e “Quem Tem Um Amigo (Tem Tudo)”, que junta Zeca Pagodinho e a japonesa Tokyo Ska Paradise Orchestra.
O ponto alto para muita gente é “Ismália”, com Larissa Luz e Fernanda Montenegro, que recita o poema de Alphonsus de Guimaraens. A faixa-título, “AmarElo”, com Majur e Pabllo Vittar, usa sample de “Sujeito de Sorte”, de Belchior, e virou o maior sucesso do disco. O álbum fecha com “Libre”, ao lado do duo franco-cubano Ibeyi.
O projeto venceu o Grammy Latino de 2020 na categoria Melhor Álbum de Rock ou Música Alternativa em Língua Portuguesa e levou o Prêmio Multishow de Álbum do Ano.
AmarElo virou também documentário. AmarElo: É Tudo Pra Ontem estreou na Netflix em dezembro de 2020, costurando o show que ele fez no Theatro Municipal de São Paulo com a história da população negra brasileira. Antes disso, em abril, saiu o podcast AmarElo: O Filme Invisível, em três episódios.
O registro do show foi lançado em julho de 2021 como “AmarElo (Ao Vivo)”, com vinte faixas. A apresentação no Municipal, casa historicamente ligada à elite paulistana, teve peso simbólico evidente.
Emicida além da música: livros, televisão, cinema e moda
Emicida assinou dois livros infantis: Amoras (setembro de 2018), inspirado na filha mais velha e derivado da faixa do álbum de 2015, e E foi assim que eu e a escuridão ficamos amigas (outubro de 2020).
Na televisão, foi repórter do Manos e Minas, na TV Cultura, entre 2010 e 2012, apresentou o Sangue B na MTV e integrou o time do Papo de Segunda, no GNT, entre 2018 e 2022.
No cinema, participou da trilha sonora de Pantera Negra (2018), compôs para O Menino e o Mundo (2014) e atuou em Medida Provisória (2022), no papel de Berto. Em 2021 comandou a série documental O Enigma da Energia Escura, no GNT e no Globoplay, e fez residência artística na Universidade de Coimbra, em Portugal.
Ele também se tornou voz frequente no debate público. Recentemente alertou sobre o impacto das bets na cultura brasileira e participou do álbum “Cumulonimbus”, de Rashid, ao lado de Projota e Luedji Luna.
Emicida e o fim da parceria com Fióti
Em março de 2025, Emicida anunciou o fim da parceria profissional com o irmão Fióti, encerrando mais de quinze anos de trabalho conjunto à frente do Laboratório Fantasma.
O comunicado, publicado no Instagram com os comentários desativados, não citou desentendimento pessoal entre os dois. Fióti foi peça central da carreira do irmão, tendo participado da produção de AmarElo e da série O Enigma da Energia Escura.
Meses depois, em julho, veio a morte de Dona Jacira. Foi um ano de rupturas para uma trajetória que sempre teve a família como núcleo, incluindo a reunião com Rashid e Projota no Podpah, encontro de três nomes que definiram o rap paulista dos anos 2010.
Emicida e “Racional Vol. 2”: o disco do luto
Em dezembro de 2025 saiu “Emicida Racional Vol. 2: Mesmas Cores e Mesmos Valores”, com dez faixas. O disco chegou cinco meses depois da morte da mãe, e a estrutura dele reflete isso de forma direta.
O álbum abre com “Bom dia né gente? (ou saudade em modo maior)”, que traz a voz de Dona Jacira ao lado do pianista Amaro Freitas e de Henrique Albino. Na sequência vêm “Mesmas Cores & Mesmos Valores”, “O que nóiz faz com essa dor?”, “Finado Neguim memo?” e “A coisa mais esperançosa e mais dilacerante são a mesma”.
A segunda metade traz “A mema praça”, que reúne Rashid e Projota, “Quanto vale o show memo?”, com Cassiano, “Compreender tudo, é perdoar tudo”, gravada com a filha Estela, “Us memo preto zica” e a faixa de encerramento, “(outro) A próxima mensagem que você precisa está exatamente onde você está agora”.
É o trabalho mais introspectivo da carreira dele. Ao colocar a voz da mãe na abertura e a da filha perto do fim, o disco costura três gerações da mesma família, e transforma perda pessoal em obra pública sem apelar para o óbvio.
Emicida vida pessoal e legado
Emicida é casado com a apresentadora Marina Santa Helena. Ele tem duas filhas: Estela, nascida em 2010, e Teresa, nascida em 2018. A primeira inspirou diretamente o livro Amoras e participa do álbum de 2025.
A carreira dele acumula quatro indicações ao Grammy Latino, com uma vitória, além de prêmios do Multishow, da APCA, do MTV Video Music Brasil e um Leão de Bronze no Festival de Cannes, na categoria de mídia, pelo projeto “Silêncio”.
Mais do que a estante de troféus, o que define o lugar dele é a ponte que construiu. Emicida foi um dos primeiros rappers brasileiros a dividir faixa com Caetano Veloso e Fernanda Montenegro sem que isso soasse concessão, e a fazer isso mantendo o controle do próprio catálogo por meio de um selo independente.
Emicida nome completo
Leandro Roque de Oliveira
Emicida data de nascimento
Emicida nasceu em 17 de Agosto de 1985
Emicida Signo
Signo de Leão
Emicida Idade
Emicida tem 41 anos de idade.
Emicida Álbuns











