Xamã lança álbum Flerte com afrobeat, amapiano e participações de LUDMILLA e L7NNON

Projeto chega com oito faixas inéditas e a faixa-foco 'Meu Sonho é Tu', que resgata memórias da juventude do rapper carioca

Quem acompanha Xamã de perto sabe que ele nunca foi artista de ficar parado numa caixa. Desde os tempos de “Malvadão 3” até as experimentações mais recentes, o rapper carioca sempre operou numa zona onde o rap serve como ponto de partida, não de chegada. O álbum Flerte do Xamã lançado nas plataformas digitais em 27 de agosto, é a expressão mais direta desse movimento: oito faixas inéditas que passeiam por afrobeat, amapiano, dancehall, house music e ritmos latinos sem pedir licença pra nenhum gênero.

O projeto não chegou do nada. Os singles “Tá de Parabéns” e “Moça” lançados antes do álbum, já avisavam o que vinha. Mas ouvir o conjunto é outra experiência: a coerência entre as faixas mostra que essa virada sonora não foi por impulso, e sim uma escolha bem calculada de um artista que está no jogo há tempo suficiente pra saber a diferença entre explorar e se perder.

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A faixa-foco e o coração do projeto

“Meu Sonho é Tu” é a aposta central do álbum, e entende-se o porquê. Produzida e composta em parceria com Márcio Arantes, a faixa carrega uma atmosfera tropical construída sobre afrobeat, metais e percussões que têm peso sem perder leveza. Arantes assina também os instrumentos e divide os vocais de apoio com Ramon Calixto, o que dá à música um acabamento mais orgânico do que o comum em produções voltadas para o digital.

Na letra, Xamã abre as próprias gavetas de memória. Aparecem as feiras de Campo Grande e Acari, o bairro de Sepetiba no Rio de Janeiro, as dificuldades financeiras da juventude. Esses referenciais geográficos e afetivos se misturam à narrativa de um flerte que puxa o tom para algo mais romântico. Nostalgia e sedução: essa combinação é o que dá à faixa uma textura que vai além do simples bate-cabeça na pista.

Xamã já usara a própria trajetória como matéria-prima em discos como “Zodíaco” e “Fragmentado” onde essa autobiografia atravessa as letras com naturalidade. O que muda em “Flerte” é o invólucro sonoro: os beats agora trazem uma influência africana e caribenha muito mais pronunciada, e isso abre o alcance da obra sem diluir a identidade do artista.

As parcerias e o que cada uma entrega

“Moça” com LUDMILLA, é um dos pontos altos do tracklist. A faixa combina afrobeat, amapiano, dancehall e house numa narrativa descontraída sobre um encontro inesperado. A escolha da parceira não é aleatória: LUDMILLA carrega essa mesma fluência entre gêneros há anos, e as duas referências se encontram aqui sem atrito.

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“Tá de Parabéns” com L7NNON, foi o primeiro sinal público dessa nova direção. A influência latina entra para fazer a faixa funcionar na pista, e a química entre os dois rappers já tinha se mostrado sólida em outros contextos. L7NNON entende como transitar entre o rap e formatos mais dançantes sem soar deslocado, então a escolha faz sentido editorial.

O álbum ainda traz “Nova Sagitariana” releitura de “Sagitário” com Amabbi e NP; “Você Tirou Meu Ar” novamente com Amabbi e NP; “Bagunçou Minha Sexta” com Márcio Arantes; e “Chá de” com Nomad, Amabbi e NP. A recorrência de Amabbi e NP ao longo do projeto indica uma parceria criativa consistente, não apenas preenchimento de lineup.

“Like a Michael” e a releitura que revela a escuta

Entre as faixas, “Like a Michael” merece atenção separada. A música é uma releitura de “Mancha Roxa” de Max de Castro, e o título faz referência direta a Michael Jackson, artista citado entre as influências de Xamã. Revisitar uma composição de Max de Castro (figura central da música popular urbana brasileira com raízes no samba e na bossa) num contexto de afrobeat e referências jacksonianas revela uma escuta ampla e uma disposição para fazer conexões que muita gente evitaria por medo de não fechar.

Esse tipo de movimento não é novo na trajetória do rapper. Ao longo da carreira, Xamã acumulou colaborações com Milton Nascimento, Criolo, Liniker e Marília Mendonça, nomes que cobrem espectros musicais completamente distintos. Quem consegue circular nesse universo sem perder consistência própria é porque tem mais do que versatilidade: tem ponto de vista.

O que o álbum Flerte do Xamã representa na cena

O rap brasileiro vive um momento em que a fronteira entre os gêneros virou território de disputa e de oportunidade ao mesmo tempo. Artistas que cruzam para o funk, o pagode ou o forró muitas vezes são taxados de comerciais. Xamã escolhe um caminho diferente: afrobeat e amapiano têm credibilidade de cena, conexão com uma diáspora africana que o rap sempre reconheceu, e ao mesmo tempo um apelo de pista que abre portas para públicos que talvez nunca tivessem chegado ao disco por outro caminho.

A produção dividida entre Ramon Calixto, $amuka e Márcio Arantes garante uma base técnica que segura o experimento. O álbum soa coeso, e coesão num projeto de oito faixas com tantas referências sonoras é conquista real.

“Flerte” se soma a uma discografia que inclui “Pecado Capital” “O Iluminado” “Zodíaco” e “Fragmentado”. Cada um marcou uma fase distinta. A qualidade da execução é evidente, mas a pergunta real é: se esse álbum for só uma excursão sonora, entra para o catálogo como uma curva interessante. Se for o começo de uma nova fase, o próximo projeto vai precisar entregar ainda mais profundidade nessa direção, porque o público que esse som atrai vai cobrar.

O RESUMO DA CENA

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NARDONI

NARDONI

Carioca que não gosta de praia, apreciador de café e água com gáix, criador da RAP MÍDIA.

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