Mostrando seu lado mais maduro, Major RD lança o seu novo álbum “ALFA”

Major RD lança o disco “ALFA” , alcançando um momento de amadurecimento lírico com participação de MV Bill, KL Jay, BK’, Djonga, Slipmami e mais.

“O Soldado encontrou o Major”. Cabe num verso e resolve duas gerações do rap carioca de uma vez. A frase é de MV Bill e aparece na faixa-título de ALFA novo álbum de Major RD, que já está nas plataformas digitais pela Warner Music com 13 faixas e participações de MV Bill, KL Jay, BK’, Djonga, MC Cabelinho, Slipmami, Ryu The Runner e Chefin.

Nascido em Campo Grande, zona oeste do Rio, Major RD construiu sua trajetória num lugar incomum do rap nacional: o encontro da rima com a pancada do rock brasileiro, guitarra e bateria na frente, mosh pit se abrindo no meio da plateia durante os shows. O disco parte de uma definição que ele mesmo dá ao título: “líderes dominantes através de grande carisma e vocação”. É a passagem do sonho de menino para a conta que o homem adulto tem que pagar.

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A abertura não é hino de arena. É “Cartas para Majur”, faixa intimista dedicada à filha, que estabelece o tom de tudo o que vem depois. Só na segunda música, a faixa-título, o projeto sobe de escala com MV Bill e KL Jay dividindo o mesmo espaço. Um dos autores de “Soldado do Morro” ao lado de um dos responsáveis pela sonoridade dos Racionais MC’s, num disco de um artista que ainda está na casa dos primeiros álbuns. Não é feat de calendário, é escolha de linhagem.

“Aquele hino dele que ele tem em forma de rap, ‘Soldado do Morro’. E quando nós dois nos encontramos para fazer uma faixa juntos, ele passa o bastão com um simples verso. Para mim é muita responsabilidade e eu fico feliz. MV Bill é meu professor tanto no rap quanto na vida. Aprendi muita coisa com o artista na adolescência. É uma responsabilidade que eu tenho que matar no peito e ficar com ela para mim.”

Major RD

Quem acompanha a discografia entende de onde vem essa conversa. “Troféu”, de 2021, era o registro de um jovem negro em ascensão, ainda mirando o que queria alcançar. Dois anos depois, “Ascensão do Cisne Negro” o colocou de vez entre os nomes que importam na cena. Hoje ele soma cerca de 2 milhões de ouvintes mensais só no Spotify, com um público que não é de passagem: aparece no show, canta a letra inteira, se joga no meio da roda.

Guitarra, bateria e um sample de Cartola

As 13 faixas de ALFA, transitam entre boombap, rock e trap sem pedir licença para nenhum dos três. “Apetite por Ratos” e “Eloy Casagrande”, terceira e quarta do alinhamento, são as que assumem de forma mais explícita a identidade instrumental do projeto, com guitarra e bateria puxando o peso.

“O rock caminha comigo lado a lado. É um ritmo que toca 24 horas no meu fone de ouvido e a partir disso, vou enriquecendo as minhas referências sonoras e até mesmo estéticas.”

Major RD

Depois de “Tempo para Nada”, o disco chama BK’ para “Karatê”, encontro de dois caras que empurraram o rap para dentro do mainstream sem abrir mão do que escreviam. Em “Campo de Golf”, Djonga e MC Cabelinho aparecem juntos, combinação que por si só mostra o quanto as fronteiras entre rap, trap e o que veio do baile se dissolveram nos últimos ciclos da música brasileira. E logo na sequência vem talvez o momento mais ousado da tracklist. “Rir para Não Chorar” usa um sample de Cartola como base para um desabafo. Colocar o samba no meio de um álbum de guitarra distorcida é uma decisão de quem sabe exatamente onde está pisando.

“Lei do Ex” mantém a intensidade e “Foden”, com Slipmami, dá um respiro no meio das reflexões mais pesadas. Na reta final, Ryu The Runner entra em “Rimo igual Pac 2”, releitura de um som que o público já conhece, agora construída como sátira aos episódios mais recentes da carreira de Major. O encerramento fica com “Desconforto” e a bônus “Rétrica”, que traz Chefin e a segunda aparição de MC Cabelinho no projeto.

A santa na capa

A imagem que abre o disco é tão declarativa quanto a música. Na capa, Major RD se apresenta como Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil. Não é provocação gratuita nem estética de choque calculada para render print no Twitter. A explicação está na história de casa.

“A minha conexão é íntima e familiar. Fui criado em um ambiente católico, cercado por mulheres e sempre muito próximo da Santa, já que minha mãe é ministra da Eucaristia”, conta o rapper. Vestir Aparecida é homenagem à fé popular brasileira e às mulheres que sustentaram sua caminhada. Dentro da lógica do álbum, a santa também marca a virada que ele descreve: sair do lugar de quem corre atrás e assumir o de quem protege, abre caminho e responde pelos seus.

O peso de receber o bastão

Existe uma diferença entre convidar nomes grandes e ser aceito por eles. Reunir MV Bill, KL Jay, BK’ e Djonga num mesmo trabalho e ainda dividir espaço com Slipmami, Chefin, Ryu The Runner e Cabelinho é montar uma mesa em que velha e nova escola se sentam sem hierarquia de gentileza. Esse tipo de disco costuma cobrar caro: se a caneta não acompanha, o feat expõe. Aqui o movimento é outro, o de um artista que chegou preparado para a conversa.

O que ALFA novo álbum de Major RD, deixa mais claro é a mudança de posição de quem escreve. Não é mais o garoto de “Troféu” pedindo passagem. É alguém que abre o próprio disco escrevendo para a filha, ouve um veterano dizer que o soldado encontrou o major e trata isso como responsabilidade, não como troféu de vitrine.

Falta a parte que nenhum feat resolve: o palco. As rodas de mosh pit que viraram assinatura dos shows de Major RD vão receber essas 13 faixas em outra chave, com a bênção gravada de quem construiu o rap brasileiro antes dele. E quando “Alfa” tocar ao vivo, com aquele verso de MV Bill saindo da caixa de som, o público vai entender que liderança no rap não se anuncia em release. Ela se herda, se carrega e se cobra.

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NARDONI

NARDONI

Carioca que não gosta de praia, apreciador de café e água com gáix, criador da RAP MÍDIA.

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