Quase duas décadas de carreira e Projota escolhe olhar para trás antes de avançar. “Velho Rei”, novo single lançado nesta sexta-feira, 21 de agosto de 2026, nas plataformas digitais, é exatamente o que o título promete: um encontro do artista que ele é hoje com o MC que ele foi nas primeiras rimas da Zona Norte de São Paulo. A faixa tem produção de DJ Caique, um dos nomes mais sólidos dentro do rap nacional, com coprodução de Tayob J, produtor português e multi-instrumentista, e chega como a segunda prévia do novo álbum de Projota, previsto para sair ainda em 2026.
O single não chegou sozinho. Com ele veio um videoclipe gravado inteiramente em preto e branco, percorrendo locações que têm peso histórico na trajetória do rapper. Som e imagem funcionam juntos, mais como um documento do que como um lançamento comum.
O que “Velho Rei” soa, e por que isso importa
A faixa retoma uma linguagem que Projota não usava com tanta clareza desde “Muita Luz” e “Foco, Força e Fé”, projetos que o apresentaram a uma geração inteira de ouvintes. A rima volta ao centro da narrativa. A interpretação é densa, pessoal, carregada de crítica social, poesia e relato autobiográfico. Essa mistura atravessou diferentes fases da carreira do rapper.
Não é nostalgia pelo prazer de revisitar. A construção de “Velho Rei” deixa claro que o objetivo é reencontrar uma linguagem que ainda faz parte da identidade do artista, não reproduzir o passado. DJ Caique, na produção, entrega um beat que carrega referências clássicas do rap nacional sem soar datado. Tayob J acrescenta elementos contemporâneos que criam equilíbrio entre o que o rap brasileiro foi e o que ele é hoje.
Essa música mexe demais comigo. Ela surgiu num daqueles momentos em que você está de mal com o mundo. Ela me lembra raps que fiz quando era muito mais novo e conversa diretamente com meus ouvintes que me conheceram há 15 anos ou mais.
Projota
O rapper foi além e definiu a composição como terapia, capaz de traduzir sentimentos acumulados ao longo dos últimos anos. “Eu realmente consigo entender quando vejo as pessoas me dizendo: ‘Eu quero aquele Projota que conheci em Muita Luz’. Acredito que eles vão sentir essa energia presente em ‘Velho Rei'”, completou.
São Paulo como personagem
O videoclipe de “Projota Velho Rei” faz algo que poucos clipes de rap brasileiro se dispõem a fazer com essa seriedade: transforma a cidade em arquivo. Gravado em preto e branco com linguagem documental, o filme percorre espaços que têm significado real na formação artística do rapper.
O Metrô Santa Cruz aparece como ponto de passagem obrigatório. Para quem acompanhava a cena paulista nos anos 2000, aquele espaço significa batalhas, conexões, o início de muitas histórias. Projota retorna também à escadaria onde gravou o videoclipe de “Muita Luz” e à rua que foi cenário de “Mais do que Pegadas”. As locações não são decoração: são parte da narrativa.
Há algo de corajoso nisso. Voltar fisicamente aos lugares onde a história começou, deixar a câmera registrar sem filtro e transformar esse material em clipe oficial exige disposição que vai além do cálculo de marketing. O resultado é um filme que dialoga diretamente com quem estava lá quando tudo começou e consegue explicar para quem chegou depois de onde veio esse artista.
O segundo capítulo de um álbum que ainda não tem nome
“Velho Rei” é a segunda música apresentada como prévia do próximo álbum. A primeira foi “Bem Brasil”, faixa com proposta bem diferente: celebração da diversidade cultural e da pluralidade da mulher brasileira. Os dois singles já esboçam a amplitude do projeto. Um olha para fora, para o país e suas contradições. O outro olha para dentro, para a trajetória pessoal e o que dela ainda resiste.
Projota acumula músicas como “Ela Só Quer Paz”, “Muleque de Vila”, “Oh Meu Deus”, “Linda” e “A Rezadeira”, além de bilhões de reproduções nas plataformas de streaming. Essa escala coloca o artista numa posição que poucos rappers brasileiros ocupam: relevante tanto dentro quanto fora da cena. O risco de perder contato com a raiz, porém, é real. “Velho Rei” funciona como resposta a essa tensão.
O que o álbum de 2026 será ao todo ainda não está definido. Se as duas primeiras prévias são pistas, o projeto carrega ambições opostas que precisam se encontrar em algum ponto. Quando esse encontro acontecer, será interessante ver se a força autobiográfica de “Velho Rei” consegue coexistir com a abertura popular que uma faixa como “Bem Brasil” propõe. Essa tensão vai definir o peso do novo álbum.





