Tem gente que conta a história de vencer escrevendo em diário. Martt colocou a dele em uma faixa. “FAVELADO” novo single do artista capixaba radicado em Londres, é um relato direto sobre o caminho que ele traçou desde as favelas do Espírito Santo até a China, passando por perdas, recomeços e conquistas que ele mesmo admite que não imaginava possíveis. A própria trajetória já é o argumento.
Natural de Vitória, Martt construiu uma carreira de forma quase completamente independente. Sem equipe tradicional, sem estrutura de label por trás, ele foi acumulando funções à medida que a necessidade apareceu: produtor, diretor, videomaker, modelo. O percurso não foi escolha estética, foi necessidade transformada em habilidade. E é exatamente essa camada que “FAVELADO” carrega: a consciência de que cada conquista foi tirada do nada com as próprias mãos.
Da favela de Vitória para o mundo
A música dialoga diretamente com a biografia do artista. Crescer nas favelas do Espírito Santo e depois ter de reconstruir a vida inteira em outro continente são dois movimentos radicalmente diferentes, mas Martt os experimentou em sequência. Pouco depois de se mudar para o Reino Unido, enfrentou a morte da mãe. Uma das situações mais difíceis que qualquer pessoa pode viver, e ele atravessou isso em um ambiente novo, sem a rede de suporte de sempre, num idioma que ainda estava aprendendo a habitar.
Esse tipo de contexto não aparece no currículo. Aparece na música. Quando o artista coloca na letra que foi até a China partindo de uma realidade que não prometia nem passagem de ônibus, não é hipérbole: é o registro de uma distância real, geográfica e simbólica, que ele efetivamente percorreu. A China está como prova, não como recurso poético.
Ao longo da trajetória, Martt trabalhou com marcas como Arsenal, Nike, Lacoste, Adidas e Dr. Martens. São nomes que aparecem em campanhas globais, em looks de editorial, em territórios onde artistas brasileiros independentes raramente chegam. Ele chegou sem precisar apagar de onde veio para fazer isso.
Independência como método, não como discurso
O que diferencia Martt de muitos artistas que cantam sobre vencer é que a independência dele não é tema, é método. Ele não fala de autossuficiência enquanto tem uma estrutura invisível fazendo o trabalho pesado. Ele aprendeu a filmar porque precisava de clipe. Aprendeu a produzir porque precisava de beat. Aprendeu a dirigir porque precisava de uma visão estética que traduzisse exatamente o que queria comunicar. Cada função acumulada tem uma história de necessidade atrás.
Isso tem peso no rap, especialmente no rap brasileiro produzido fora do Brasil. Existe uma camada de pressão extra que artistas da diáspora carregam: provar que o talento não ficou na origem, que a mudança de território não diluiu a identidade. “FAVELADO” responde a essa pressão de frente. O título não é pedido de desculpa nem nostalgia romantizada. É declaração de ponto de partida.
A cena de rap brasileiro produzida fora do país ainda é um território relativamente inexplorado editorialmente. Artistas sérios criando em Londres, em Lisboa, em outras cidades europeias recebem cobertura fragmentada no Brasil. Martt entra nesse espaço com uma proposta clara: não apagar a origem capixaba, não fingir que Londres é o ponto zero, e usar a distância como material criativo em vez de obstáculo.




