Quem acompanhou o Xamã da era Fragmentado sabe exatamente o que esperar de um projeto com 25 faixas, Milton Nascimento no crédito e poesia saindo pelos poros. O que talvez não esperasse era o rapper de volta com afrobeat, amapiano e Ludmilla na composição. Pois é: Xamã e Ludmilla em “Moça” é isso que chegou às plataformas na última quinta-feira (16), e o que a faixa anuncia vai muito além de uma colaboração.
A música é apresentada pela dupla como um diálogo cômico: Xamã interpreta um homem abordando uma mulher na rua, que o confunde com ladrão. Ludmilla assume a voz da personagem e responde à abordagem. O formato não é novo para os dois, que já haviam trabalhado com essa dinâmica de conversa em outras parcerias, mas aqui ganha um balanço de pista que coloca a faixa num território completamente diferente do rap introspectivo que o artista explorava antes. A produção é de Márcio Arantes, e o resultado é um single construído para funcionar em ambiente aberto, com volume alto.
A virada de rota que “Moça” confirma
“Moça” é o segundo single que Xamã solta como prévia do próximo álbum, ainda sem título ou data definidos. O primeiro foi “Tá de Parabéns”, lançado em março com L7nnon, que já sinalizava essa guinada para ritmos mais dançantes. Mas é a parceria com Ludmilla que deixa a mudança de direção mais evidente: o rapper entra numa estética com influências africanas, caribenhas e latinas ao mesmo tempo, misturando dancehall e house no mesmo caldeirão.
O contraste com Fragmentado não poderia ser mais deliberado. O álbum anterior era uma declaração de identidade complexa: boom bap, MPB, referências literárias, participações de Adriana Calcanhotto e Milton Nascimento. Era um projeto que não piscava para o mainstream, que se permitia ser difícil. A fase atual aposta em outro registro. Há quem veja nessa transição uma concessão, mas há outra leitura possível: um artista que já provou que sabe construir camadas agora experimenta o que acontece quando decide fazer o corpo mover.
O peso da parceria com Ludmilla
A história entre Xamã e Ludmilla começou em 2021, em “Deixa de Onda” com Dennis, e ganhou outro capítulo com o R&B “Gato Siamês”, que Ludmilla chegou a incluir no projeto Lud Session. Não se trata, portanto, de uma parceria de oportunidade. Tem percurso, tem química construída ao longo do tempo, e o fato de Ludmilla assinar também a composição de “Moça” revela o nível de envolvimento dela no resultado final.
O reencontro dos dois nos palcos acontece em 23 de julho, quando Xamã participa do show “Fragmentos: A Experiência”, de Ludmilla, no Rio de Janeiro. A escolha do nome do evento, por sinal, não deixa de ter uma ironia interessante para quem conhece o álbum que Xamã está deixando para trás.
Primeiro lançamento pela Universal e o que isso representa
“Moça” também marca o início de uma nova fase contratual: é o primeiro lançamento de Xamã pela Universal Music Brasil. Entrar numa major depois de construir trajetória com a identidade que ele construiu não é um movimento neutro, e a cena costuma observar com atenção quando um artista faz essa transição. O que chama atenção aqui é que a mudança de sonoridade e a mudança de gravadora chegam juntas. Pode ser coincidência ou pode ser estratégia muito bem amarrada.
O próximo álbum, antecipado por Xamã e Ludmilla em “Moça” e por “Tá de Parabéns”, ainda não tem nome nem data. Com duas faixas no ar apontando para o mesmo lugar, a pergunta que fica não é sobre o que o projeto vai ser, e sim até onde o rapper está disposto a ir nessa direção. Se o álbum sustentar a coerência que esses singles sugerem, será uma obra radicalmente diferente de tudo que Xamã fez antes. E isso é exatamente onde reside a tensão do projeto.





