Toda temporada de Grammy Latino tem essa fase que passa longe do público geral, mas movimenta a cena por dentro: artistas e gravadoras submetem trabalhos para a apreciação dos votantes da Academia, na campanha chamada “Para sua consideração”. É burocrático, é discreto, mas é onde as indicações começam a se desenhar antes do anúncio oficial. Filipe Ret entrou nessa disputa com dois projetos na mão.
O rapper carioca submeteu o EP “NUME, Epílogo” e o single “Rap da Lealdade” à primeira fase de votação, na tentativa de garantir uma vaga entre os indicados que serão revelados em setembro. Os dois trabalhos representam momentos distintos da carreira recente de Ret: um fecha um ciclo, o outro aposta em resgate de raiz.
“NUME, Epílogo” saiu em julho de 2025 pela Som Livre em parceria com a Vivaz Produções, com produção de Prod.MTS e Johnny Monteiro. O projeto marcou o encerramento da era NUME, fase que colocou Ret em diálogo direto com nomes centrais do rap nacional. A lista de participações no EP inclui BK’, Sain, Orochi, Alee, Daniel Shadow, Mãolee e Maru2D, um recorte que atravessa gerações e vertentes distintas dentro do gênero.
Um EP de fechamento e uma faixa que olha para trás
Fechar uma era com colaborações desse peso não é gesto pequeno. Ret escolheu se despedir da fase NUME cercado de vozes que representam momentos diferentes do rap brasileiro. BK’ traz consistência, Orochi vem com pegada mais recente. É a assinatura de quem quis marcar o fim de um ciclo com companhia, não sozinho.
“Rap da Lealdade”, lançada em janeiro de 2026 via Som Livre e Nadamal, caminha para outro lugar. A faixa resgata a sonoridade do rap consciente carioca e remete à cultura dos bailes dos anos 1990, um território que Ret conhece bem e que ajuda a explicar boa parte da identidade sonora que ele construiu ao longo da carreira. A produção é de MT$, e a música ganhou clipe no YouTube, reforçando a aposta em um lançamento com peso de statement dentro da própria trajetória do artista.
Submeter um trabalho para a fase “Para sua consideração” não garante nada. É apenas isso: uma apresentação formal aos membros votantes, dentro das regras que a própria Academia Latina da Gravação estabelece. A instituição permite esse tipo de comunicado, mas com restrições rígidas. Fica vetada a divulgação de dados de contato dos votantes, contagem de votos ou qualquer manobra que se pareça com troca de favores.
Votantes não devem ser influenciados por amizades, lealdade a empresas, preferências regionais ou números de vendagem.
Diretriz oficial da Academia Latina da Gravação
A organização também deixa claro que o descumprimento das regras pode custar caro. Segundo o regulamento, a violação de qualquer diretriz de conduta pode resultar na desqualificação da inscrição. Isso torna esse tipo de campanha um exercício de equilíbrio: apresentar o trabalho sem parecer que está pedindo voto.
A primeira etapa de avaliação roda entre agosto e outubro, período em que os votantes analisam o volume de submissões antes de fechar a lista que vira anúncio oficial dos concorrentes. É um funil longo, e boa parte dos nomes que entram nessa fase nunca chega à indicação final. Mas entrar na disputa já é, por si, um movimento estratégico de posicionamento dentro do mercado latino.
A indicação de 2023 como ponto de referência
Ret já sabe como é sentir esse gosto. Em 2023, ele levou uma indicação ao Grammy Latino na categoria Melhor Interpretação Urbana em Língua Portuguesa, por “Good Vibe”, parceria com Caio Luccas produzida por Dallass. Foi a prova de que o trabalho do rapper carioca tem lugar dentro de um circuito que historicamente prioriza pop latino e reggaeton, com o rap brasileiro disputando espaço centímetro a centímetro.
É esse histórico que dá peso à nova tentativa. Não se trata de um artista testando terreno pela primeira vez, mas de alguém que já passou pelo processo e sabe o tamanho do funil entre submissão e indicação real. A escolha de apostar em dois trabalhos com propostas tão diferentes, um EP coletivo que fecha ciclo e um single solo que resgata raiz, mostra uma leitura clara de que a Academia pode reagir a registros distintos dentro da mesma carreira.
O rap brasileiro segue tentando furar a bolha do Grammy Latino, categoria que ainda trata o gênero como convidado e não como presença consolidada dentro da premiação. Cada indicação conquistada por um nome nacional funciona como argumento a mais nessa disputa por espaço. É dentro dessa engrenagem, ainda pequena, que a submissão de Ret ganha sentido. O resultado sai em setembro: o EP que fecha uma era e a faixa que resgata os anos 1990 ou não atravessam o funil da Academia. Até lá, o que existe é aposta declarada, feita dentro das regras e sem garantia nenhuma no bolso.





