Brô MC’s e Katú Mirim no EQUILIBRIVM II: rap indígena fecha o novo álbum de Anitta

Faixa 'OKE' reúne Brô MC's e a ativista Katú Mirim no encerramento do EQUILIBRIVM II, lançado em julho de 2026
Brô MC's e Katú Mirim no EQUILIBRIVM II: rap indígena fecha o novo álbum de Anitta

Quando o nome de Anitta aparece num projeto, a expectativa natural é de pop calculado, colaborações internacionais e movimento nas plataformas globais. O que o EQUILIBRIVM II entrega na última faixa é outra coisa: o rap indígena ocupando o espaço mais estratégico de um álbum mainstream, a posição de fechamento. A música que fica reverberando depois que tudo acabou chama “OKE” e tem Brô MC’s e Katú Mirim no centro.

O disco foi lançado na quinta-feira, 23 de julho de 2026, como sequência do projeto que Anitta havia lançado em abril. Se a estrutura de álbum diz alguma coisa sobre intenção, colocar o rap indígena no encerramento não é acaso: é posicionamento.

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O que é “OKE” e o que ela constrói sonoramente

A produção da faixa é assinada por Carlos do Complexo e Papatinho, dois nomes que conhecem o terreno da música urbana brasileira sem precisar de apresentação. O beat acomoda funk, hip-hop e eletrônico numa mesma estrutura, mas o elemento que ancora tudo é o sample do ponto de umbanda “Cabocla de Pena”. Não é ornamento: é estrutura. O ponto de umbanda ali dentro transforma “OKE” num cruzamento entre ancestralidade e contemporaneidade que poucas produções da cena conseguem sustentar sem soar forçado.

A letra nomeia etnias: Pataxó, Tikuna, Terena, Yanomami, Kayapó, Guajajara, Guarani-Kaiowá. São povos com histórias, territórios e lutas específicas, não uma lista decorativa. O verso “Nada na mata me mata” sintetiza uma postura de resistência que percorre toda a faixa. O projeto audiovisual acompanhou essa linha e contou com a participação de representantes de diversas etnias durante as filmagens.

Brô MC’s: dezoito anos antes desse momento

O Brô MC’s foi fundado em 2009, em Dourados, Mato Grosso do Sul, por jovens das aldeias Jaguapiru e Bororó. Hoje o coletivo tem Bruno Veron, Clemerson Batista, Kelvin Mbaretê, Jhonis e CH MC na formação, rimando em português e em Guarani. São o primeiro grupo de rap indígena do Brasil, e essa posição de pioneiro foi construída no longo prazo: shows em aldeias, festivais independentes, construção de público sem o atalho de grandes parcerias.

Em 2024, eles subiram num palco do festival Global Citizen em Nova York ao lado de Alok. Agora fecham o álbum de uma das artistas brasileiras mais ouvidas do mundo. O arco não é coincidência: é o resultado de anos de constância numa cena que historicamente não abre espaço para vozes originárias.

A participação representa uma oportunidade de ampliar a presença indígena na música brasileira mainstream.

CH MC, Brô MC’s

Katú Mirim e a pauta que ela carrega além da música

Rapper, cantora, compositora e ativista de ascendência Boe Bororo, Katú Mirim construiu seu nome cruzando o rap com o ativismo. A campanha #ÍndioNãoÉFantasiaque ela criou em 2018, virou referência no debate sobre representação cultural no Brasil. O coletivo Tybyra, que ela fundou, atua especificamente nas pautas LGBTQIAPN+ dentro do contexto indígena, um recorte que ainda encontra resistência dentro e fora da cena.

Sua presença em “OKE” carrega essa bagagem toda. Não é uma feat de adorno.

Este feat representa um chamado para a reconexão com nossas raízes, para a valorização dos saberes ancestrais e para a visibilidade que os povos originários sempre mereceram.

Katú Mirim

O que o EQUILIBRIVM II diz sobre o momento da música urbana nacional

Anitta falou sobre os bastidores do disco descrevendo um ambiente de troca, com o álbum composto e produzido no estúdio de sua casa em ambiente de leveza e criatividade, repleto de artistas que admira. Esse tipo de declaração costuma ser protocolar em releases de divulgação. O que torna essa diferente é que o produto final de “OKE” tem a cara de uma construção coletiva real: o sample de umbanda, a produção de Carlos do Complexo e Papatinho, as letras de Brô MC’s e Katú Mirim, o projeto visual com representantes de etnias diversas. Não é uma faixa montada à distância.

O EQUILIBRIVM II chega num momento em que o rap indígena acumula visibilidade fora dos circuitos alternativos, mas ainda enfrenta o desafio de transformar visibilidade em impacto real: mais distribuição, mais presença em festivais grandes, mais acesso a estrutura de produção e divulgação. Uma faixa num projeto de escala global como este não resolve essa equação. Quando alguém chega numa reunião de gravadora com “OKE” no streaming e pergunta por que o rap indígena não tem investimento proporcional ao seu alcance, a resposta fica mais difícil de dar.

O RESUMO DA CENA

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