Predella abriu o jogo. Em uma sequência de stories publicados no Instagram, o rapper e integrante do Costa Gold falou com uma franqueza que poucas vezes aparece de forma tão direta nas redes sociais de um artista com o seu histórico na cena: está passando por um momento difícil, na vida pessoal, na carreira e com a família. E não está pedindo passagem com isso.
Como parte dessa fase, o artista anunciou um leilão de objetos que carregam peso real na trajetória do rap brasileiro. Não são relíquias de prateleira: são os Certificados de Platina de “UAU!”os Certificados de Platina Dupla, a placa de Álbum de Ouro de “AUGE”a placa de 1 milhão de inscritos do canal do Costa Gold, o Disco de Ouro de “Das Arábia”entre outros itens que marcaram capítulos inteiros da sua história. Tudo posto à venda para resolver a situação financeira.
“Só eu sei o que eu tô passando na minha vida, na minha carreira e com a minha família, e podia tá indo fazer um milhão de merdas, mas não, tô dando a cara a tapa sem vaidade e trabalhando.”
Predella
A frase carrega um dado importante sobre o personagem. Predella não está jogando para a narrativa de superação fácil que circula por aí toda semana no feed. A escolha de colocar as próprias conquistas em leilão, ao invés de buscar saída mais discreta, revela o grau de pressão que ele está enfrentando. E também a honestidade com que decidiu lidar com isso em público.

O peso dos itens que estão sendo vendidos
Quem acompanha o rap nacional de perto sabe o que representa cada um desses objetos. O Disco de Ouro de “Das Arábia” marcou um momento em que o Costa Gold ainda construía a sua base de fãs mais fiel. “UAU!” e “AUGE” vieram depois, quando o grupo já operava numa escala de consumo completamente diferente. A placa de 1 milhão de inscritos do canal no YouTube é o registro de uma das trajetórias mais sólidas que o rap nacional construiu em torno de conteúdo audiovisual.
Não é comum ver um artista desfazer-se desses marcos. Eles costumam ficar nas paredes dos estúdios, nas fotos de bastidores, como prova pública de que o trabalho chegou até ali. Colocar isso em leilão é um gesto que atravessa qualquer estratégia de imagem. É uma decisão prática, tomada por alguém que precisa resolver o que precisa resolver.


O Predella do leilão de itens históricos é o mesmo que escreve há anos com uma consistência que a maioria dos nomes da cena não conseguiu manter. Talvez seja exatamente por isso que a declaração final do desabafo ressoa com mais força do que qualquer outra coisa que ele poderia ter dito.
A caneta fica
No encerramento dos stories, depois de descrever tudo pelo que está passando, Predella jogou uma frase simples no ar:
“A única coisa que não muda é isso: a sua caneta.”
Predella
Num momento em que placas e certificados vão embora, o que fica é a habilidade de criar. Faz sentido que seja esse o ponto de ancoragem de um cara que construiu a própria carreira sobre letras. O Predella do leilão pode abrir mão dos objetos, mas a base do que o tornou referência na cena permanece com ele.
O que essa situação expõe é uma realidade que a cena do rap nacional discute pouco: o descompasso entre o reconhecimento cultural de um artista e a sua sustentabilidade financeira. Certificados de platina na parede e conta no vermelho não são contradições impossíveis. Trata-se, muitas vezes, do retrato de como funciona a distribuição de renda dentro da música. Predella está falando sobre isso em público, sem mediação, sem assessoria de imagem filtrando o tom. É o detalhe que diferencia esse episódio de qualquer outro comunicado de crise. O mercado musical precisa ouvir o que esse gesto está dizendo.






