Clube de Leitura do Rap reúne Parteum, MC Hariel e Rico Dalasam no Sesc Vila Mariana

Projeto gratuito dos pesquisadores Nerie Bento, Marco Aurélio e Viny Rodrigues estreia em agosto com três encontros que analisam letras de rap e funk como literatura junto aos próprios artistas
Clube de Leitura do Rap reúne Parteum, MC Hariel e Rico Dalasam no Sesc Vila Mariana
Créditos: Vivi Bacco (Rico Dalasam) / @mirandarenan_ (MC Hariel)

Tem algo que o rap sempre soube fazer bem antes de qualquer academia reconhecer: produzir literatura. A letra de rap carrega densidade poética, referência histórica, crítica social e narrativa de vida num espaço que a maioria dos poetas leva estrofes inteiras para desenvolver. O Clube de Leitura do Rap parte exatamente dessa premissa e chega ao Sesc Vila Mariana, em São Paulo, com uma temporada gratuita que começa em agosto e vai até outubro.

O projeto reúne três artistas de universos distintos mas com raízes comuns: Parteum, MC Hariel e Rico Dalasam. As datas já estão definidas: 22 de agosto para Parteum, 16 de setembro para MC Hariel e 17 de outubro para Rico Dalasam. Todos os encontros são abertos ao público, sem retirada de ingresso e com classificação livre.

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Como funciona o projeto

A lógica é simples e ao mesmo tempo bem pensada. A curadoria seleciona duas composições do artista convidado e distribui o material ao público antes do encontro. No dia, a conversa começa com a leitura coletiva de trechos das letras e vai se abrindo para o contexto de criação, as referências mobilizadas e as camadas de interpretação que cada composição carrega. O artista está presente para participar diretamente dessa discussão, o que muda completamente a dinâmica: não é crítico falando sobre obra alheia, é o autor dentro da conversa.

O Clube de Leitura do Rap foi criado pelos pesquisadores Nerie Bento, Marco Aurélio e Viny Rodrigues. Para Viny, o projeto preenche uma lacuna real na forma como a cultura hip hop é debatida.

“Apesar de sabermos que R.A.P (rhythm and poetry) é uma sigla em inglês que significa ritmo e poesia, existem poucos projetos dedicados a investigar sua profundidade, e o Clube de Leitura do Rap se propõe a fazê-lo com a participação das pessoas que compuseram as letras. Isso é fundamental para o fortalecimento da cultura hip hop como um todo, pois as letras das músicas representam a transmissão do conhecimento e das ideias que circundam esse universo.”

Viny Rodrigues, co-criador do Clube de Leitura do Rap

Há algo de radicalmente honesto nessa proposta. Boa parte dos espaços que discutem rap como fenômeno cultural faz isso de fora, com metodologias acadêmicas ou jornalísticas que raramente devolvem ao artista o direito de explicar o que quis dizer. Aqui, o processo é invertido.

Três artistas, três camadas da música negra periférica

A curadoria dos nomes não é aleatória. Parteum abre a temporada com letras marcadas por crítica social e sofisticação na escrita. Em setembro, MC Hariel entra em cena numa edição que tem peso extra: o funk está em pauta, num momento em que a criminalização do gênero voltou a ganhar força no debate público. Em outubro, Rico Dalasam encerra o ciclo com uma conversa sobre identidade, afeto e cultura.

Para Marco Aurélio, um dos idealizadores, reunir os três artistas é um ato político antes de ser uma programação cultural. “Reunir Parteum, MC Hariel e Rico Dalasam é promover um encontro que atravessa gerações e gêneros da música negra e periférica. São artistas que, a partir de contextos e linguagens diferentes, compartilham o compromisso de narrar realidades, disputar imaginários e produzir conhecimento por meio da palavra”, afirma.

A presença de MC Hariel é o movimento mais ousado da programação. O funk nunca precisou de validação, mas trazer um de seus representantes para um espaço de debate literário quebra uma hierarquia não declarada dentro da própria cultura urbana. Nerie Bento, outra idealizadora do projeto, fala diretamente sobre isso.

“Trazer esses três artistas é, também, manter a qualidade de discussão do Clube. Parteum e Rico Dalasam são artistas que integram a história e as viradas de chave do nosso movimento. Já o Hariel chega numa edição especial. O Funk é irmão do Hip Hop, então acredito que é nosso papel criar esta conexão, sobretudo num momento em que sua criminalização está tão em alta.”

Nerie Bento, idealizadora do Clube de Leitura do Rap

O que está em jogo além da programação

O Sesc Vila Mariana como espaço não é detalhe. Levar o Clube de Leitura do Rap para um equipamento cultural público e gratuito, com estrutura para receber público e conduzir debates, é uma escolha que faz diferença no tipo de pessoa que vai aparecer. Não é evento para a bolha que já consome rap como conteúdo intelectual: é abertura de porta para quem ainda associa esse debate a um espaço restrito.

O que os três encontros têm em comum vai além dos artistas escolhidos. Cada um deles, à sua maneira, produziu um tipo de letra que resiste à escuta passiva: pedem releitura, provocam incômodo, carregam camadas que mudam dependendo de quem está ouvindo e de onde. Colocar essas composições numa roda de análise coletiva, com o compositor ao lado, mostra que a palavra saída da periferia tem profundidade que vai muito além do que o mercado normalmente quer ver nela.

E essa é talvez a tensão mais interessante que o projeto coloca em circulação: se as letras de rap sempre foram literatura, o que exatamente demorou tanto para alguém criar um clube de leitura em torno delas?

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NARDONI

NARDONI

Carioca que não gosta de praia, apreciador de café e água com gáix, criador da RAP MÍDIA.

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