Vermelho sangue escorrendo para o preto, sobreposições escuras e uma entressola que fecha o pacote em tom sombrio. A nova versão do Nike Air Max Plus não precisa de logo da Marvel para o cérebro do consumidor completar a conta: é Deadpool, mesmo que ninguém do outro lado do balcão vá dizer isso em voz alta.
Batizada oficialmente de “True Red/Black”, a colorway já está nas prateleiras do mercado internacional por US$ 190 e vem chamando atenção justamente pela leitura imediata que provoca. O degradê no cabedal, saindo do vermelho e mergulhando no escuro, é o mesmo tipo de gradiente que virou marca visual do personagem interpretado por Ryan Reynolds nos cinemas. A Nike não confirma a referência. Não precisa.
Esse tipo de movimento tem nome no jogo do streetwear: colorway de subtexto. A marca lança um par que qualquer um da cultura reconhece na hora, mas se protege juridicamente batizando o produto com um nome neutro. Ganha a viralização orgânica sem pagar licenciamento. É jogo sujo? Depende de quem olha. É esperto? Sem dúvida.
Leia também:
- Nike Air Zoom Hyperslide: o slide que massageia os pés com calor e vibração
- A Nike escolheu a Rocinha para lançar a coleção MAD90 com chuteiras icônicas
- Phantom 6: Nike confirma lançamento de chuteira em collab com Travis Scott
Por que o Air Max Plus, e por que agora
Escolher o Air Max Plus para receber esse tratamento não é acaso. A silhueta desenhada por Sean McDowell em 1998 tem uma personalidade visual que aceita colorways agressivas melhor do que quase qualquer outro modelo do catálogo Nike. As nervuras do TPU no cabedal (aquelas “garras” que abraçam o mesh) funcionam como painéis prontos para receber contraste, e é aí que o preto entra picotando o vermelho no novo Nike Air Max Plus Deadpool.
O modelo também carrega peso cultural específico. O TN, como é chamado em boa parte da Europa, sempre foi tênis de periferia, adotado por cenas de rap na França, na Austrália e no Reino Unido antes de virar item de moda global. É um tênis com biografia de rua, o que dá ainda mais liga quando ele aparece com uma cara de personagem de HQ adulta e violenta como o Deadpool.


A conta do consumidor brasileiro
A Nike Brasil ainda não bateu o martelo sobre a chegada oficial do par por aqui. Existe possibilidade de desembarque em breve, mas nada confirmado. Enquanto isso, o caminho para quem quer garantir é o mesmo de sempre: importação, com todos os custos que envolvem trazer um tênis de US$ 190 do exterior para o Brasil.
E aqui vale um cálculo honesto. Convertendo o preço bruto e somando frete internacional, imposto de importação e ICMS estadual, o par facilmente ultrapassa a casa dos R$ 2 mil na mão do consumidor brasileiro. É o tipo de compra que virou rotina para o público mais engajado em sneakers, mas que continua sendo item de nicho quando comparado ao Air Max Plus de linha, que a Nike Brasil vende em varejo tradicional.
O ponto é que colorways como essa raramente chegam ao país em grande volume. Quando chegam, somem do site oficial em minutos. É a lógica do drop.
Sneakers, personagens e a cultura do easter egg
A Nike não é a primeira nem será a última a jogar com referências não licenciadas. O mercado de sneakers passou a última década construindo esse tipo de diálogo com cinema, quadrinhos e videogame sem precisar formalizar contrato. Colorways que “lembram” o Coringa, o Homem-Aranha, personagens de anime, capas de disco. O consumidor entra no jogo porque também quer entender a piada.
Deadpool, especificamente, é um alvo tentador. A paleta preto e vermelho é simples, agressiva e imediatamente identificável. Serve para tênis, para camiseta, para capa de celular. O personagem está em alta desde “Deadpool & Wolverine”, que trouxe Ryan Reynolds e Hugh Jackman de volta ao papel e movimentou a bilheteria global em 2024. Lançar um par com essa cara agora é surfar na onda sem precisar pagar pela prancha.
Do ponto de vista de design puro, o novo Nike Air Max Plus mostra que a marca segue apostando na silhueta como veículo de experimentação. Nos últimos ciclos, o Air Max Plus recebeu colorways inspiradas em referências gastronômicas, paletas retrô dos anos 2000 e variações de todos os tipos. É um modelo que aceita ser reinventado sem perder a identidade original, e isso explica por que ele voltou ao centro das conversas de sneakerheads depois de anos meio à margem do hype.
A pergunta que fica no ar tem menos a ver com o tênis e mais com o mercado. Até quando as marcas vão conseguir explorar propriedade intelectual alheia por meio de “coincidência estética” sem que os detentores dos personagens comecem a apertar? A Marvel, hoje sob a Disney, é conhecida por ser especialmente rigorosa com uso de imagem. Se esse Nike Air Max Plus “Deadpool” esgotar rápido no exterior e virar febre, não seria surpresa ver o assunto migrar dos fóruns de sneakers para as mesas de advogado.






