Felipe Vaz lança álbum ATÉ ONDE MEUS PÉS ALCANÇAREM E MINHAS MÃOS PUDEREM TOCAR

Terceiro disco do artista de Duque de Caxias chega quatro anos depois de 'Terra de Mulher Bonita', com sete faixas sobre território, ancestralidade e sobrevivência

Quatro anos de silêncio discográfico. Quatro anos de uma Baixada que ficou pra trás e de uma capital que precisava ser conquistada de novo, agora não só geograficamente, mas artisticamente. Felipe Vaz volta com tudo isso na bagagem e coloca no mundo seu terceiro álbum: “ATÉ ONDE MEUS PÉS ALCANÇAREM E MINHAS MÃOS PUDEREM TOCAR:”projeto que carrega no título a exata medida do que o disco se propõe a fazer.

Natural de Duque de Caxias, nascido em setembro de 1998, Vaz não é exatamente uma novidade pra quem acompanha a cena carioca com atenção. Seu disco anterior, “Terra de Mulher Bonita”foi o trabalho que mais projetou seu nome, e acabou se desdobrando num laboratório visual e numa marca de mesmo nome. Agora, com o novo álbum, ele expande o terreno conceitual de forma ainda mais ambiciosa, contando com Noite Moderna na escrita e Buzu na produção musical geral.

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Território como matéria-prima

O título comprido não é afetação. É declaração de intenção. “ATÉ ONDE MEUS PÉS ALCANÇAREM E MINHAS MÃOS PUDEREM TOCAR:” já diz tudo sobre o que Felipe Vaz quer com esse disco: ocupar espaço. E o dois-pontos no final do título? Deixa a frase em aberto de propósito, como se o projeto fosse uma promessa ainda em curso.

O álbum gira em torno de território como tema central, mas não de forma panfletária. A rua, a ancestralidade, o amor, a religião, a sobrevivência aparecem entrelaçados, costurados por referências que vão da malandragem clássica às entidades das ruas, do asfalto ao sangue. Um disco que entende: falar de lugar é falar de corpo, de memória, de quem te antecedeu e de quem você tenta ser.

Musicalmente, o projeto transita pelo funk, pelo hip-hop e pelos atabaques brasileiros. Não são referências jogadas ao acaso: elas carregam peso histórico real dentro da cultura popular carioca e da Baixada Fluminense. Quem cresceu ouvindo som de baile e também frequentou terreiro reconhece de onde vem esse vocabulário sonoro. Buzu, responsável pela produção geral, tem a missão de amarrar tudo isso numa escuta coesa. As pistas de dança dentro do projeto indicam que a intenção não é fazer rap de nicho, mas música popular de verdade.

A insistência de quem não desistiu

Tem algo de muito concreto na narrativa por trás do novo álbum de Felipe Vaz: a experiência de migrar da Baixada para a capital e tentar sobreviver da arte. Não é metáfora. É o cotidiano de um cara que é cantor, compositor e artista plástico ao mesmo tempo, que construiu uma marca própria a partir de um disco, e que agora volta com um trabalho ainda mais pessoal depois de quatro anos longe das plataformas.

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Essa incerteza em relação ao futuro, que o próprio projeto aborda de frente, marca o elemento mais honesto do álbum. O Rio não recebe bem qualquer um que chega de fora com a pretensão de ser ouvido. A cidade tem suas hierarquias, seus filtros, seus territórios de influência. Falar disso sem romantizar é um exercício difícil. O fato de Vaz ter escolhido exatamente esse tema como eixo central revela a maturidade do projeto.

Com sete faixas, o disco não tenta ser enciclopédico. Há uma diferença entre um projeto que tem muito a dizer e um que sabe quando parar. Aqui a escolha pela concisão parece intencional: cada faixa carrega o peso de uma ideia que merecia existir, não de um espaço que precisava ser preenchido.

O que vem depois de “Terra de Mulher Bonita”

Esse hiato de quatro anos tem um custo e uma vantagem. O custo é óbvio: o algoritmo não perdoa ausência, a memória afetiva do ouvinte é curta, e o espaço que foi ocupado por outros precisa ser reconquistado. A vantagem é que quem volta depois de quatro anos em silêncio geralmente tem algo real a dizer, porque não voltou por pressão de calendário ou de label.

“Terra de Mulher Bonita” estabeleceu Felipe Vaz como um artista que pensa além da música, que entende identidade visual, que constrói universo. O novo álbum precisa confirmar que aquilo não foi ponto fora da curva. Pela estrutura do projeto, pelas parcerias escolhidas e pela clareza temática do que foi apresentado, a aposta é que ele chegou pra isso.

Um cantor, compositor e artista plástico que vem da Baixada, que migrou pra capital e que faz disco sobre esse deslocamento não está falando só de si. Está falando de uma geração inteira que tenta transformar origem em obra sem trair nenhuma das duas. Se “ATÉ ONDE MEUS PÉS ALCANÇAREM E MINHAS MÃOS PUDEREM TOCAR:” cumpre o que promete, Felipe Vaz não volta apenas com um disco novo. Volta com uma afirmação de existência que a cena carioca vai ter que levar a sério.

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NARDONI

NARDONI

Carioca que não gosta de praia, apreciador de café e água com gáix, criador da RAP MÍDIA.

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