Um tênis desenhado no Japão para quem corre longas distâncias passou quinze anos sendo disputado em outra pista: a do baile. Essa virada é o assunto de “Relíquia: A Profecia Vem das Ruas”, filme que o Podpah colocou no YouTube na terça-feira, 22 de setembro, para contar como o Mizuno Wave Prophecy 1 saiu da prateleira de artigo esportivo e virou símbolo da cultura funk nas periferias brasileiras.
São 45 minutos de produção, e eles inauguram o Originais Podpah, nova frente do canal de Igão e Mítico voltada a projetos autorais. A Mizuno assina a realização junto com o podcast. O cenário se divide entre São Paulo e a Baixada Santista, dois territórios que qualquer pessoa que acompanha funk reconhece de cara como berço de estética, de gíria e de moda própria.
A escolha do tema para estrear o selo revela aonde o Podpah quer chegar. Em vez de abrir a frente autoral com um perfil de artista ou um especial de bastidor, o documentário do Podpah aposta num objeto. Um calçado. E usa esse calçado como fio para puxar uma conversa sobre autoestima, pertencimento e o jeito como a quebrada decide, sozinha, o que tem valor.
Quem cresceu no rap e no funk sabe que essa conversa é antiga. A Juliet da Oakley, as correntes, a camisa de time europeu, o boné aba reta: a periferia sempre pegou produtos pensados para outro público e reescreveu o significado deles. O Prophecy entra nessa linhagem com uma particularidade. Ele ganhou apelido, virou verso e sobreviveu até quando a própria marca parou de vender.
Um tênis de corrida que encontrou outra pista
O Wave Prophecy 1 chegou ao mercado em 2011 como modelo de alta performance para corredores. Solado robusto, tecnologia de amortecimento aparente, visual agressivo. Nada ali tinha sido pensado para o baile, e mesmo assim foi no baile que ele ganhou vida longa. Nas ruas, virou o famoso “Mizuno de Mil”, apelido que carrega na própria sonoridade a ideia de esforço: não é tênis que se compra por impulso, é tênis que se junta dinheiro para ter.
O filme trabalha justamente essa camada. Ter um Prophecy nos pés passou a significar vitória pessoal, visão de futuro e aquela sensação de “eu consegui” que todo moleque de quebrada entende sem precisar de legenda. O calçado virou marca de status nos bailes e ajudou a erguer uma estética com regras próprias, que não pedia licença a nenhuma vitrine de shopping.
A maneira que a comunidade periférica e do funk absorveu o Prophecy é um dos casos mais emblemáticos de como um produto acaba extrapolando a relação comercial com as pessoas, com uma cultura.
Igão e Mítico, fundadores do Podpah
O ponto mais forte do documentário do Podpah está no que vem depois da ostentação. A narrativa liga o tênis a uma autoestima construída com cuidado. Essa autoestima aparece como ferramenta concreta contra o preconceito de classe e o racismo que esses jovens enfrentam no dia a dia. Quem já foi seguido por segurança dentro de loja entende por que andar bem vestido, na quebrada, nunca foi só vaidade.
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Quem conta essa história
A produção entrega o microfone para gente que viveu o fenômeno de perto. Além dos próprios Igão e Mítico, aparecem Kyan, MC Neguinho do Kaxeta, Luana Maia, DJ Thays e MC Katrine, cada um puxando memórias de baile e da relação pessoal com o modelo. O mérito está em não tratar esses nomes como figurantes de campanha: são eles que reconstroem a atmosfera das festas e defendem a rua como espaço legítimo de criação e de influência na moda.
E o Podpah tem lugar de fala para mediar essa conversa. O canal nasceu de vivências periféricas e compartilha com os personagens os mesmos códigos, referências e maneiras de falar. Isso aparece na tela. Documentário de marca feito por quem nunca pisou num baile costuma soar como aula de antropologia sobre a periferia. Aqui o tom é de conversa entre iguais.
Tem um dado que ajuda a dimensionar o tamanho da coisa: o Prophecy foi citado em mais de uma centena de composições brasileiras ao longo dos últimos 15 anos. Para quem estuda funk, isso não surpreende. As letras sempre funcionaram como arquivo do que a quebrada deseja, compra e exibe, do mesmo jeito que o Run-DMC transformou um par de Adidas em hino nos anos 1980. Quando um tênis entra em dezenas de faixas, ele já deixou de ser produto faz tempo.
O detalhe mais bonito da história, porém, está no período em que o modelo sumiu do mercado oficial. A comunidade não deixou morrer. Colecionadores seguraram pares, oficinas de restauração trataram cada Prophecy gasto como peça de acervo e a memória dos bailes manteve o nome circulando. Foi a rua, sem apoio de ninguém, que guardou a relíquia.
“Relíquias Nunca Morrem” e a volta do modelo
O filme também integra a campanha de relançamento do Wave Prophecy 1, batizada de “Relíquias Nunca Morrem”. A proposta declarada é reconhecer quem sustentou o valor cultural do tênis durante uma década e meia e dar protagonismo a essa comunidade. Rafael Santos, diretor de marketing da Mizuno, atribui a transformação do modelo às periferias brasileiras, aos músicos, artistas, trabalhadores e agentes culturais que fizeram dele expressão de orgulho e autoconfiança. Luana Protazio, diretora de marketing e comunicação do Grupo Podpah, fala em eternizar uma memória afetiva que já existia na cultura brasileira muito antes de qualquer campanha.
É um reconhecimento que chega tarde, e o próprio discurso da marca admite isso nas entrelinhas. A Mizuno criou o tênis, mas quem deu sentido a ele foram os bailes. Colocar esse crédito no centro de um filme, com os personagens da quebrada falando por si, é um gesto que outras marcas esportivas raramente fizeram com o público periférico que sustentou suas vendas no Brasil.
E essa conquista vem carregada de significados. Contar essa história nos leva para lugares e situações que ficaram nas nossas memórias e que agora ficarão registradas como uma bela homenagem.
Igão e Mítico, fundadores do Podpah
Para o Podpah, o projeto abre uma porta interessante. Um canal que ficou gigante com entrevistas longas agora testa o formato de documentário com orçamento de marca e pauta de cultura de rua. Se o Originais Podpah seguir nessa linha, há material de sobra esperando registro: a história do passinho, a moda do baile de favela, a trajetória dos DJs que moldaram o som da Baixada.
A tensão que o filme deixa no ar está no próprio apelido do tênis. O “Mizuno de Mil” ganhou esse nome porque custava caro para quem mais o desejava, e foi exatamente esse público que manteve o modelo vivo nas oficinas de restauração enquanto ele estava fora das lojas. Agora que o Prophecy volta com campanha, documentário e discurso de homenagem, a pergunta que qualquer frequentador de baile vai fazer ao ver o documentário do Podpah é direta: o par relançado vai estar ao alcance de quem guardou a relíquia por quinze anos, ou vai virar peça de vitrine para um público que só descobriu o tênis agora?




