O rap nacional dos anos 90 foi a década em que o gênero deixou as rodas de break do centro de São Paulo e virou a voz das periferias do Brasil. Sem espaço nas grandes gravadoras e quase sem tocar no rádio comercial, ele circulou em fita K7, em rádios comunitárias e em shows de quadra, até explodir em 1997 com Sobrevivendo no Inferno, dos Racionais MC’s. Foi também a década de Thaíde e DJ Hum, GOG, Câmbio Negro, Gabriel o Pensador, Planet Hemp e MV Bill, de prisões de artistas, de censura e de um público que crescia sem pedir licença.
Neste guia, a RAP MÍDIA conta como era o Brasil que o rap retratava, como as músicas circulavam, quem foram os artistas e as cenas de cada cidade, quais músicas e discos definiram a época, com os anos conferidos em bases de discografia, e qual rap gringo influenciou o som brasileiro. Este texto é sobre a década. O ranking dos discos de todas as épocas está na nossa lista dos melhores álbuns do rap nacional.
O Brasil que o rap dos anos 90 retratava
Para entender o rap dos anos 90, é preciso entender o país em que ele nasceu. O Brasil saía de uma ditadura, enfrentava inflação descontrolada no começo da década e via as periferias das grandes cidades crescerem sem escola, sem saneamento e sem emprego. A violência marcava o cotidiano dos bairros pobres, e alguns episódios viraram feridas nacionais. Em 2 de outubro de 1992, a Polícia Militar invadiu o Pavilhão 9 da Casa de Detenção de São Paulo, o Carandiru, e 111 presos foram mortos. No ano seguinte, as chacinas da Candelária e de Vigário Geral, no Rio de Janeiro, chocaram o país.
O rap brasileiro da época nasceu como resposta a esse cenário. Na década anterior, o hip hop tinha chegado ao Brasil pela dança, nas rodas de break da estação São Bento, como contamos na história do hip hop no Brasil. Nos anos 90, a rima tomou o centro do palco e mudou de tom. Em vez de festa, os MCs passaram a fazer crônica: narravam a rotina das quebradas, a abordagem policial, o racismo, a droga, a cadeia e a falta de perspectiva, em letras longas, diretas e sem metáfora.
Esse rap de mensagem tinha um público muito claro. Era feito por jovens negros e pobres das periferias para jovens negros e pobres das periferias, e falava com eles numa linguagem que nenhum outro gênero falava. A música funcionava ao mesmo tempo como denúncia, conselho e espelho. Essa identidade explica por que o rap dos anos 90 resistiu tanto a ser absorvido pela indústria e por que, quando estourou, estourou do jeito dele.
Fita K7, rádio comunitária e baile: como o rap circulava
Nos anos 90, as grandes gravadoras quase não apostavam no rap nacional, e as rádios comerciais tocavam pouco o gênero. Os artistas precisaram criar os próprios caminhos para chegar ao público, e boa parte da história da década está nesses caminhos alternativos.
A fita K7
A fita cassete era o formato do rap. Barata, fácil de copiar e de tocar em qualquer aparelho de som, a K7 circulava em shows, em lojas especializadas do centro de São Paulo, nas bancas de camelô e, principalmente, de mão em mão. Uma fita gravada a partir de outra fita podia rodar um bairro inteiro em poucas semanas. As coletâneas, com várias faixas de grupos diferentes, ajudavam a apresentar artistas novos, e selos independentes, como o Zimbabwe, que lançou os primeiros discos dos Racionais, faziam a ponte entre a periferia e as prensagens.
Rádio comunitária e os primeiros programas
As rádios comunitárias foram o primeiro espaço do rap nas ondas sonoras. Funcionando com pouca estrutura, muitas vezes sem licença, elas tocavam o que a periferia queria ouvir. No rádio comercial, o pioneiro foi o Rap Brasil, comandado pelo Dr. Rap na Metropolitana FM ainda nos anos 1980. No fim dos anos 90, a 105 FM, de Jundiaí, com alcance na Grande São Paulo, criou o Espaço Rap. O programa começou com poucos minutos por semana e cresceu até ocupar horas da programação, com nomes como KL Jay, DJ Hum e Rappin’ Hood ligados à emissora, e lançou coletâneas com o próprio nome entre 1999 e 2006.
Baile, show e televisão
O rap também circulava nos bailes black, nos shows em quadras de escola de samba, nos clubes de bairro e nos centros comunitários. Os encontros das posses, coletivos de hip hop das periferias, misturavam show, debate e oficina. Na televisão, a MTV Brasil, inaugurada em 1990, teve uma versão do programa Yo!, com Thaíde entre os apresentadores, e levou clipes de rap nacional para uma audiência que nunca tinha ouvido o gênero. Foi também a MTV que produziu o Rap no Vale, festival no Vale do Anhangabaú, no centro de São Paulo, em 26 de novembro de 1994.
São Paulo: dos Racionais ao rap de quebrada
São Paulo foi o centro do rap brasileiro nos anos 90, e o centro de São Paulo foram os Racionais MC’s. Formado em 1988 por Mano Brown e Ice Blue, da Zona Sul, e Edi Rock e KL Jay, da Zona Norte, o grupo lançou Holocausto Urbano em 1990, Escolha Seu Caminho em 1992 e Raio X do Brasil em 1993. Neste último estão Fim de Semana no Parque, que contrapõe o lazer dos bairros ricos ao das periferias, e Homem na Estrada, a história de um ex-presidiário tentando recomeçar. As duas viraram hinos.
A relação com o poder era tensa. Em 26 de novembro de 1994, o show dos Racionais no Rap no Vale terminou em confusão, e os integrantes foram detidos sob a acusação de incitar a violência. O episódio levou o grupo a sair da gravadora e criar o próprio selo, a Cosa Nostra, por onde saiu, em 20 de dezembro de 1997, Sobrevivendo no Inferno. Com faixas como Diário de um Detento, escrita por Mano Brown com Jocenir, que esteve preso no Carandiru, e Capítulo 4, Versículo 3, o disco vendeu centenas de milhares de cópias sem grande gravadora, com estimativas que vão de 500 mil a mais de 1 milhão. Em 1998, Diário de um Detento venceu as categorias de Melhor Vídeo de Rap e escolha do público no Video Music Brasil, da MTV.
Em volta dos Racionais, uma cena inteira se formou. Thaíde e DJ Hum, pioneiros da coletânea Hip-Hop Cultura de Rua, de 1988, seguiram como referência durante toda a década. Grupos como DMN, RZO e Facção Central levaram o retrato das quebradas a um nível ainda mais cru, e o Pavilhão 9 misturou rap e metal. Dentro do próprio Carandiru, presos formaram em 1996 o Detentos do Rap, que gravou o disco Apologia ao Crime e fez clipes narrando a vida na cadeia. Na passagem para a década seguinte, Sabotage, ligado ao RZO, lançou Rap é Compromisso, em 2000, encerrando a era com uma das vozes mais originais da história do gênero.
Rio e Brasília: outros sotaques do rap nos anos 90
Rio de Janeiro
No Rio, o rap conviveu e se misturou com o funk, que vivia sua própria explosão. As primeiras faixas de crônica da favela carioca, como o Rap da Felicidade, de Cidinho e Doca, de 1994, tinham pé nos dois gêneros, como contamos na história do funk carioca. Ao mesmo tempo, surgiu um rap que dialogava com a classe média e o rock. Gabriel o Pensador estreou em disco em 1993, depois de ver uma música satírica sobre o então presidente ser tirada da programação das rádios em 1992, e virou um dos rappers mais vendidos do país na década.
O Planet Hemp, com Marcelo D2 e BNegão, lançou Usuário em 1995, misturando rap, rock e hardcore com letras pela legalização da maconha. Em novembro de 1997, depois de um show para cerca de 7 mil pessoas em Brasília, os integrantes foram presos, acusados de apologia às drogas, e ficaram cinco dias detidos, num caso que virou símbolo de censura na democracia. Na Cidade de Deus, MV Bill preparava o disco de estreia, Traficando Informação, lançado em 1999, que abriu caminho para um rap carioca de denúncia na década seguinte.
Brasília
A capital federal construiu uma das cenas mais politizadas do país, nas cidades-satélite que cercam o Plano Piloto. O rapper GOG, Genival Oliveira Gonçalves, é apontado como o primeiro artista de hip hop de Brasília e um dos grandes letristas do rap de mensagem. O Câmbio Negro, formado em 1990 por DJ Jamaika e X, lançou Sub-Raça em 1993, misturando rap e rock e falando de racismo de um jeito que chocou a época. A distância entre o poder, concentrado no centro de Brasília, e a pobreza das satélites deu ao rap da cidade um tom de confronto direto.
As mulheres no rap dos anos 90
As mulheres estiveram no rap dos anos 90 desde o começo, mas com muito menos espaço, e boa parte da história delas ainda é pouco contada. Sharylaine, presente nas rodas do centro de São Paulo desde os anos 1980, foi a única voz feminina da coletânea Consciência Black, de 1988, que trouxe as primeiras gravações dos Racionais, e seguiu como referência durante toda a década. Rose MC, outra pioneira da primeira geração, também fez parte dessa cena.
O nome feminino mais marcante da década foi Dina Di. À frente do grupo Visão de Rua a partir de 1994, ela escreveu letras duras sobre a vida nas periferias e no sistema prisional, como Irmã de Cela, e foi chamada de rainha do rap nacional. O grupo venceu o Prêmio Hutúz de melhor grupo feminino em 2000 e em 2001. Dina Di morreu em março de 2010, aos 34 anos. No fim da década, Negra Li começou a carreira ao lado do RZO, antes de seguir carreira solo nos anos 2000.
Discos e músicas que definiram o rap dos anos 90
A tabela reúne alguns dos discos mais importantes da década. Os anos foram conferidos em bases de discografia, como o iTunes e o MusicBrainz, e, quando as fontes divergiam, prevaleceu a data do lançamento original:
| Artista | Disco | Ano |
|---|---|---|
| Racionais MC’s | Holocausto Urbano | 1990 |
| Racionais MC’s | Raio X do Brasil | 1993 |
| Gabriel o Pensador | Gabriel o Pensador | 1993 |
| Câmbio Negro | Sub-Raça | 1993 |
| Thaíde e DJ Hum | Brava Gente | 1994 |
| Planet Hemp | Usuário | 1995 |
| Facção Central | Juventude de Atitude | 1996 |
| GOG | Prepare-se! | 1996 |
| Racionais MC’s | Sobrevivendo no Inferno | 1997 |
| Gabriel o Pensador | Quebra-Cabeça | 1997 |
| Planet Hemp | Os Cães Ladram Mas a Caravana Não Para | 1997 |
| RZO | Todos São Manos | 1999 |
| Facção Central | Versos Sangrentos | 1999 |
| Xis | Seja Como For | 1999 |
| MV Bill | Traficando Informação | 1999 |
Algumas músicas atravessaram a década e seguem cantadas em shows até hoje:
- Fim de Semana no Parque e Homem na Estrada, dos Racionais MC’s, do disco Raio X do Brasil (1993).
- Rap da Felicidade, de Cidinho e Doca (1994), o pedido de paz da Cidade de Deus que tocou no país inteiro.
- Legalize Já, do Planet Hemp, do disco Usuário (1995).
- Diário de um Detento e Capítulo 4, Versículo 3, dos Racionais MC’s, do disco Sobrevivendo no Inferno (1997).
- Traficando Informação, de MV Bill, faixa-título do disco de estreia (1999).
Muitos desses discos estão também na nossa lista dos melhores álbuns do rap nacional, que compara obras de todas as décadas.
O rap gringo dos anos 90 que influenciou o Brasil
O rap brasileiro dos anos 90 tinha sotaque próprio, mas não nasceu isolado. A principal referência dos Racionais e do rap de mensagem era o rap político americano do fim dos anos 80, com o Public Enemy à frente: a ideia de usar o rap para falar de racismo, de polícia e de consciência negra veio daí, e os Racionais chegaram a ser chamados de Public Enemy brasileiro pela imprensa estrangeira.
Ao longo da década, o rap americano viveu sua era de ouro, com a rivalidade entre as costas Leste e Oeste, discos que viraram clássicos e a morte de Tupac Shakur, em setembro de 1996, e de The Notorious B.I.G., em março de 1997. Tupac, em especial, tinha muitos fãs nas periferias brasileiras, que se identificavam com as letras sobre violência, prisão e lealdade. Contamos essa história em 30 anos da morte de Tupac Shakur.
A influência ia além das letras. As batidas de boom bap, construídas a partir de samples de soul e funk, a estética das roupas largas, os bonés e o próprio formato dos clipes chegavam pela MTV e pelos discos importados e eram adaptados à realidade brasileira. O resultado foi um rap que bebia da fonte americana, mas falava de Capão Redondo, de Ceilândia e da Cidade de Deus, e foi justamente essa mistura que fez dele uma música brasileira.
Perguntas frequentes sobre o rap dos anos 90
Quais são os principais nomes do rap nacional dos anos 90?
Os Racionais MC’s são o nome mais importante da década, ao lado de Thaíde e DJ Hum, GOG, Câmbio Negro, DMN, RZO, Facção Central, Gabriel o Pensador, Planet Hemp e MV Bill. Entre as mulheres, Sharylaine e Dina Di, do grupo Visão de Rua, abriram caminho para as gerações seguintes.
Qual o álbum mais importante do rap nacional dos anos 90?
Sobrevivendo no Inferno, dos Racionais MC’s, lançado em dezembro de 1997, é considerado o disco mais importante da década e um dos mais importantes da música brasileira. Saiu pelo selo independente do grupo, vendeu centenas de milhares de cópias e virou leitura obrigatória no vestibular da Unicamp.
Como o rap era divulgado nos anos 90?
Principalmente em fita K7, vendida em shows e por camelôs e copiada de mão em mão, e em rádios comunitárias. Programas como o Rap Brasil, na Metropolitana FM, e o Espaço Rap, na 105 FM, levaram o gênero ao rádio comercial, e a MTV Brasil abriu espaço na televisão.
Quais músicas de rap marcaram os anos 90 no Brasil?
Entre as mais lembradas estão Fim de Semana no Parque e Homem na Estrada, de 1993, e Diário de um Detento, de 1997, todas dos Racionais MC’s, além de Rap da Felicidade, de Cidinho e Doca, de 1994, e de faixas de Gabriel o Pensador, Planet Hemp, GOG e Câmbio Negro.
Qual a diferença do rap dos anos 90 para o rap de hoje?
Nos anos 90, o rap brasileiro era quase todo de mensagem: falava de racismo, violência policial e desigualdade, circulava em fita K7 e tocava pouco no rádio comercial. Hoje, o gênero é um dos mais ouvidos do país nas plataformas, convive com o trap e fala também de sucesso, consumo e relacionamentos.
Que rap gringo influenciou o rap nacional dos anos 90?
Grupos americanos de rap político, como o Public Enemy, foram a principal referência para os Racionais e para o rap de mensagem brasileiro. O rap da Costa Oeste e da Costa Leste dos Estados Unidos, com nomes como Tupac Shakur e The Notorious B.I.G., também influenciou a sonoridade e as temáticas no fim da década.





