Na noite de 10 de dezembro de 2025, Matuê transformou o Vale do Anhangabaú, no centro de São Paulo, numa audição a céu aberto para apresentar “XTRANHO”, o seu terceiro álbum de estúdio. Nas 24 horas seguintes, o disco passou de 12 milhões de reproduções no Spotify, e as 13 faixas ocuparam ao mesmo tempo o Top 30 da plataforma no Brasil.
Nove meses e meio depois, o álbum soma mais de 237 milhões de streams, mais de uma reprodução para cada habitante do país. Diante de um número desse tamanho, a pergunta que todo fã (e todo artista que está começando) acaba fazendo é inevitável: quanto o Matuê faturou com isso?
A resposta não sai de uma multiplicação simples. O Spotify não tem um preço fixo por play, cada faixa do disco teve um desempenho muito diferente das outras e, no fim da conta, o dinheiro que a plataforma paga está longe de ir inteiro para o artista. Por isso, refizemos o caminho faixa a faixa, com as reproduções de cada uma das 13 músicas, para chegar o mais perto possível do valor real.
Um disco estranho que virou fenômeno
“XTRANHO” chegou com uma virada de tom na carreira de Matuê. Mais sombrio e experimental do que os trabalhos anteriores, o disco podia ter afastado parte do público acostumado aos hits, mas aconteceu o contrário. A estreia foi a segunda maior da carreira do cearense, atrás apenas de “333”, como mostramos na cobertura do lançamento de XTRANHO.
E o fôlego não acabou na primeira semana. Pelo contador público do Spotify, atualizado em 27 de setembro de 2026, as 13 faixas somam exatamente 237.260.381 reproduções. São 291 dias desde o lançamento, o que dá uma média de mais de 815 mil plays por dia, todos os dias, durante mais de nove meses.
Esse volume, porém, não se espalha por igual. Uma faixa sozinha tem mais reproduções do que as seis menos ouvidas do álbum juntas, e ela vai pesar muito na conta que vem a seguir. Antes de chegar nela, é preciso entender como o Spotify transforma plays em dinheiro.
Como o Spotify paga os artistas
Muita gente imagina que o Spotify paga um valor fixo por reprodução, mas não é assim que funciona. A plataforma junta tudo o que arrecada em cada país com assinaturas e anúncios, separa a parte destinada aos donos de direitos e divide esse bolo de acordo com a fatia de reproduções de cada música naquele mês. É o chamado modelo pró-rata: quanto maior a sua participação no total de plays, maior o seu pedaço.
Na prática, isso faz o valor de um stream mudar o tempo todo. Uma reprodução feita por um assinante Premium pesa mais do que a de uma conta gratuita, sustentada por anúncios. O país também conta muito: como a assinatura no Brasil custa bem menos do que nos Estados Unidos ou na Europa, o bolo brasileiro é menor, e cada play feito aqui vale menos do que um feito em Nova York ou em Londres.
Existe ainda uma regra mais recente. Desde 2024, uma faixa precisa passar de mil reproduções em 12 meses para começar a gerar royalties no Spotify. Para um disco que estreou com 12 milhões de plays em um único dia, é um detalhe, mas a regra ajuda a entender por que muitos artistas pequenos não veem um centavo das próprias músicas.
Quanto vale um stream no Brasil
Como o Spotify não divulga quanto paga a cada artista, qualquer conta séria trabalha com médias. A referência que usamos aqui é a mesma da nossa calculadora de royalties do Spotify: cerca de R$ 0,004 por reprodução no Brasil, numa faixa que vai de R$ 0,002 a R$ 0,006, dependendo do perfil de quem ouve.
Parece pouco, e é. Com essa média, são necessários 250 streams para render R$ 1, e 1 milhão de reproduções gera algo perto de R$ 4 mil. O jogo só muda quando os números entram na casa das dezenas de milhões, que é justamente onde “XTRANHO” está. Como a base de ouvintes de Matuê é majoritariamente brasileira, aplicamos essa média a cada uma das 13 faixas do álbum.
Quanto rendeu cada música de XTRANHO
A faixa que carrega o disco é “BACKSTAGE”. Com 61,3 milhões de reproduções, ela tem mais que o dobro da segunda colocada e responde, sozinha, por cerca de 26% de todos os streams do álbum. Pela média da calculadora, foram aproximadamente R$ 245 mil só com ela, mais do que as seis músicas menos ouvidas de “XTRANHO” renderam somadas.
Logo atrás vêm “MEU CEMITÉRIO”, que saiu antes do álbum como primeiro single e por isso começou a acumular reproduções mais cedo, e a faixa-título, “XTRANHO”, com pouco mais de R$ 100 mil cada. Juntas, as três mais ouvidas concentram quase metade das reproduções do disco. Veja a estimativa de cada faixa, da mais para a menos tocada:
| Faixa | Participação | Streams no Spotify | Estimativa (R$ 0,004) |
|---|---|---|---|
| BACKSTAGE | 61.285.009 | R$ 245.140 | |
| MEU CEMITÉRIO | 27.059.416 | R$ 108.238 | |
| XTRANHO | Brandão85 | 26.102.019 | R$ 104.408 |
| AUTOBAHN | Cashley | 21.539.391 | R$ 86.158 |
| ÍCONE FASHION | Kouth | 17.500.166 | R$ 70.001 |
| REI TUÊ | 16.078.133 | R$ 64.313 | |
| TODAS AS LUZES | 13.938.722 | R$ 55.755 | |
| OS MELHORES | 12.534.778 | R$ 50.139 | |
| PENSAMENTOS PERIGOSOS | LPT Zlatan | 10.548.239 | R$ 42.193 |
| TALKING BOUT | 9.396.403 | R$ 37.586 | |
| ALTERADO | Phl Notunrboy | 8.500.706 | R$ 34.003 |
| FACAS E MACHADOS | FAB GODAMN e Okie | 7.896.611 | R$ 31.586 |
| NANANANA | NaNa | 4.880.788 | R$ 19.523 |
O desempenho desigual é comum em álbuns de trap: uma ou duas faixas viram hits de playlist e carregam o resto, enquanto as músicas mais experimentais ficam com um público menor e mais fiel. Em “XTRANHO”, a mais discreta foi “NANANANA”, com 4,9 milhões de reproduções. Mesmo assim, ela renderia perto de R$ 20 mil, e passou de uma marca que muito artista não alcança com a discografia inteira.
Somando tudo: quanto XTRANHO faturou no Spotify
Agora é só juntar as peças. Somadas, as 13 faixas chegam a 237.260.381 reproduções. Multiplicadas pela média de R$ 0,004 por stream, dão R$ 949.042. Em números redondos, “XTRANHO” já gerou cerca de R$ 950 mil em royalties no Spotify em pouco mais de nove meses, o equivalente a aproximadamente R$ 3,2 mil por dia desde o lançamento.
Como o valor de cada stream varia, vale olhar também para as pontas. Se a maior parte dos plays tivesse vindo de contas gratuitas, o disco teria rendido perto de R$ 475 mil. Com mais assinantes Premium e mais ouvintes fora do país, o valor passaria de R$ 1,4 milhão:
| Cenário | Valor por stream | Estimativa com XTRANHO |
|---|---|---|
| Conservador | R$ 0,002 | R$ 474.521 |
| Médio (referência da calculadora) | R$ 0,004 | R$ 949.042 |
| Otimista | R$ 0,006 | R$ 1.423.562 |
O cenário médio é o mais provável. Os extremos servem para mostrar o tamanho da incerteza: a proporção exata entre ouvintes Premium e gratuitos, e entre Brasil e exterior, só quem administra o catálogo conhece. E há um detalhe que muda bastante a leitura desse número.
Mas esse dinheiro não vai todo para o Matuê
Os cerca de R$ 950 mil são o total que o Spotify repassa pelas reproduções do álbum, e esse valor se divide entre vários donos de direitos. A maior parte vai para quem é dono da gravação, o chamado fonograma. Uma fatia menor vai para quem compôs as músicas, pelos direitos autorais, arrecadados por editoras e associações de gestão coletiva.
No caso de Matuê, há uma vantagem importante: “XTRANHO” saiu pela 30PRAUM, o selo que ele mesmo fundou em 2014. Isso significa que a parte do fonograma tende a ficar dentro da estrutura do próprio artista, em vez de ser repartida com uma grande gravadora, como acontece com quem tem contrato tradicional com uma major. Ainda assim, a divisão exata depende de acordos que não são públicos, como os de distribuição.
Também entram na conta os parceiros. Sete das 13 faixas creditam outros nomes ao lado de Matuê, entre artistas convidados e produtores, como Cashley, Kouth e LPT Zlatan, e cada parceria costuma ter a sua porcentagem combinada. Produtores podem ter participação nos royalties, e os compositores de cada faixa dividem os direitos autorais entre si.
Depois de todos esses repasses, e ainda dos impostos, o que chega a Matuê como pessoa física é uma fração do total. Quanto exatamente, não há como calcular de fora: os contratos de distribuição, de produção e de edição ficam entre as partes.
O que XTRANHO representa na carreira de Matuê
Para dimensionar, vale olhar para os discos anteriores. “Máquina do Tempo”, de 2020, e “333”, de 2024, já passaram da marca de um bilhão de reproduções cada, como contamos na matéria sobre os álbuns de Matuê que passaram do bilhão. Pela mesma conta, cada um deles teria gerado algo na casa de R$ 4 milhões só no Spotify ao longo dos anos. “XTRANHO”, com menos de um ano de vida, ainda está no começo desse caminho.
O streaming, porém, é só uma parte do faturamento de um artista desse porte. O disco funciona como vitrine para o que costuma dar mais dinheiro na música brasileira: shows, festivais, publicidade e parcerias com marcas. E essa vitrine segue cheia. Matuê fechou agosto com cerca de 8,4 milhões de ouvintes mensais no Spotify, entre os dez rappers mais ouvidos do país, segundo o nosso ranking de artistas mais ouvidos do Spotify.
Se você é artista e quer fazer essa mesma conta com as suas músicas, a calculadora de royalties do Spotify da RAP MÍDIA faz o cálculo a partir do número de streams e da porcentagem que cabe a você. E, para quem ainda está colocando as primeiras faixas nas plataformas, distribuidoras como a MusicPRO, parceira da RAP MÍDIA, levam a música ao Spotify e às demais lojas digitais.
Perguntas frequentes sobre o faturamento de XTRANHO
Quanto o Matuê faturou com XTRANHO no Spotify?
A estimativa é de cerca de R$ 950 mil em royalties, com base nas 237,2 milhões de reproduções do álbum até setembro de 2026 e na média de R$ 0,004 por stream no Brasil. O valor pode variar de R$ 475 mil a R$ 1,4 milhão e é dividido entre todos os donos de direitos das músicas.
Qual é a música mais ouvida de XTRANHO?
É “BACKSTAGE”, com 61,3 milhões de reproduções no Spotify até setembro de 2026. Sozinha, a faixa responde por cerca de 26% dos streams do álbum, o equivalente a aproximadamente R$ 245 mil pela média de pagamento da plataforma.
Quanto desse dinheiro fica com o Matuê?
Não é possível saber com precisão. O valor pago pelo Spotify é dividido entre o dono da gravação, compositores, artistas convidados, produtores e distribuidora, e ainda há impostos. Como XTRANHO saiu pela 30PRAUM, selo do próprio Matuê, a fatia da gravação tende a ficar dentro da estrutura dele.
Quantas faixas tem o álbum XTRANHO?
XTRANHO tem 13 faixas e foi lançado em 10 de dezembro de 2025 pela 30PRAUM. Sete das faixas creditam outros nomes ao lado de Matuê, como Cashley, Kouth, Brandão85, LPT Zlatan, FAB GODAMN e Okie.
Quanto o Spotify paga por stream no Brasil?
Em média, cerca de R$ 0,004 por reprodução, podendo variar entre R$ 0,002 e R$ 0,006 conforme o tipo de conta do ouvinte e o país. Com essa média, 1 milhão de streams rende perto de R$ 4 mil, valor dividido entre gravadora, compositores e demais detentores de direitos.





