Vinte e dois anos dentro de uma marca que não para de mudar de dono e ainda assim mantém a aura de coisa intocável. Erin Magee fez isso na Supreme. Agora ela foi embora.
A saída foi anunciada no Instagram pessoal da própria Magee, com uma frase que diz tudo sobre o peso desse ciclo: “foi a honra da minha vida fazer parte do mundialmente famoso time da Supreme”. Sem drama, sem alfinetada. Só o peso de quem sabe o que construiu. Magee entrou na marca em 2004, quando a Supreme ainda era uma loja de skate no coração de Nova York com uma fila do lado de fora e uma filosofia de escassez que o mundo inteiro tentava decifrar. Ela ajudou a transformar aquilo em um negócio global de moda urbana sem perder, pelo menos durante um bom tempo, a identidade de rua que fazia a marca fazer sentido.
O vazio que ela deixa
A pergunta que fica no ar agora é genuína: quem assume? Nenhum substituto foi anunciado até o momento. O timing complica as coisas. A Supreme que Erin Magee deixa hoje não é a mesma que ela entrou em 2004, e nem a mesma de cinco anos atrás. A venda para a VF Corporation em 2020 já tinha dado sinal de que os donos históricos queriam liquidez. A venda para o grupo EssilorLuxottica em 2024 confirmou que a marca entrou de vez na lógica do portfólio corporativo. Nesse contexto, o cargo de parceiro-diretor criativo mais voltado ao design das coleções de temporada ficou vago desde 2023, quando Tremaine Emory saiu. Nunca foi preenchido.
Agora some a diretora criativa com mais de duas décadas de casa. A Supreme está, na prática, operando sem a sua principal estrutura criativa de longa data. Para uma marca cuja identidade sempre dependeu mais de feeling do que de planilha, isso importa. A questão não é só quem vai assinar as peças: é quem vai entender o que a marca precisa dizer para ainda fazer sentido na rua.
Streetwear vive de credibilidade. Quando essa credibilidade começa a parecer administrada por executivos de óptica, a conversa muda de tom.
Para onde Erin Magee vai
A saída da Supreme não é o fim da história de Magee. Ela foi apontada como a primeira Chief Design Officer da Skims, a marca de Kim Kardashian que nos últimos anos passou de nicho de shapewear para um dos negócios de moda mais comentados dos Estados Unidos. A contratação vem acompanhada da promoção de Kim Schraub a Diretora de Marca, sinalizando uma reorganização interna clara: a Skims quer escalar, e quer fazer isso com gente que já construiu marca de verdade.
A própria Kim Kardashian se pronunciou sobre a chegada de Magee:
“Admiro o trabalho de Erin há anos. A forma como ela aborda o design com uma visão tão marcante, sem nunca perder a conexão com seu público, é algo que respeito profundamente.”
Kim Kardashian
Magee também falou, em comunicado enviado à WWD, que a Skims conseguiu criar algo raro: uma marca que é ao mesmo tempo profundamente pessoal e universal. É o tipo de declaração que soa calculada, mas que, vindo de alguém com o histórico dela, tem outro peso. Ela sabe reconhecer quando uma marca tem base real, porque passou 22 anos construindo uma.
O movimento faz sentido do ponto de vista estratégico. A Skims está se expandindo para novas categorias de roupa e mercados internacionais. Trazer uma diretora criativa que já navegou décadas dentro de uma das marcas de streetwear mais copiadas do mundo é uma declaração de intenção. Não é contratação de hype: é contratação de estrutura.
Para a Supreme, o movimento inverso levanta uma questão sem resposta fácil. A marca sobreviveu a mudanças de dono, a colaborações polêmicas, a filas que migraram do asfalto para o drop digital. Mas cada uma dessas transições tinha alguém com memória institucional segurando o fio. Com Magee fora e o cargo criativo principal sem ocupante desde 2023, a próxima coleção vai dizer muito sobre o que a Supreme ainda tem a dizer, e para quem.





