Quando uma artista abre o álbum chamando Mano Brown para dividir a faixa, ela está fazendo uma declaração. Jovem MK acaba de lançar “Uma Rapper Gangstêr”seu novo álbum, pela KondZilla, e a escolha de colocar Mano Brown já na abertura revela onde ela quer se posicionar na história do rap brasileiro. O projeto chega com 17 faixas e participações que atravessam gerações.
O disco não chegou quieto. Com 17 músicas e um cast que vai dos Racionais à nova geração, “Uma Rapper Gangstêr” é claramente um projeto de afirmação. Jovem MK está estabelecendo território.
A abertura que diz tudo
“Coroada” é a faixa número um e já vem com Mano Brown. Essa escolha não é à toa. Ter o Brown na abertura do seu álbum não é simplesmente um feat de prestígio: dentro da lógica do rap nacional, é um gesto de legitimação que poucos artistas conseguem selar. Brown não empresta o nome para qualquer projeto, e a cena sabe disso.
O restante do disco acompanha esse nível de ambição. “Nóis Mémo” reúne Jovem MK com MC Hariel, um dos nomes que mais cresceu no trap nacional nos últimos anos. “Dom do Toque” traz Azzy, que tem uma das canetas mais afiadas da nova safra feminina. “De Raça” conta com L7, e “Bandida ou Artista” fecha o time de participações com Clara Lima. São cinco feats ao longo das 17 faixas, cada um com uma função diferente na construção do projeto.
O tributo que ancora tudo
O momento mais carregado do álbum está na faixa 16. “Ódio e Amor” é uma releitura de “Amor e Ódio”, clássico do Visão de Rua escrito por Dina Di, a rainha do rap nacional. Quem conhece a história sabe o peso: a canção original é tratada como manifesto dentro do rap feminino brasileiro, uma daquelas músicas que ajudou a abrir caminho para as MCs que vieram depois.
Revisitar essa faixa no décimo sexto lugar de um álbum chamado “Uma Rapper Gangstêr” não parece aleatório. É como se Jovem MK estivesse construindo um arco narrativo ao longo do disco e chegasse perto do fim para reconhecer de onde veio tudo isso. O tributo a Dina Di âncora o projeto em sua história, um momento em que a artista olha para trás antes de fechar o capítulo.
Dina Di abriu portas que muita gente hoje atravessa sem nem saber quem as construiu. O fato de Jovem MK colocar essa homenagem dentro do álbum, e não como bônus ou descartável, reconhece essa herança.
KondZilla e o posicionamento estratégico
O lançamento acontece pela KondZilla, canal e distribuidora que construiu sua relevância no funk e no trap e que tem expandido seu catálogo com consistência. Lançar um álbum de rap com esse peso pelo selo é também uma escolha de distribuição e de audiência: a KondZilla tem estrutura de alcance que poucos canais brasileiros conseguem competir.
Para Jovem MK, que trabalha dentro de uma cena onde a visibilidade para artistas mulheres ainda precisa ser conquistada na pressão, ter esse respaldo estrutural importa. O rap feminino brasileiro tem talentos, tem caneta e tem história, mas nem sempre teve o mesmo espaço nas plataformas e nas listas. Um álbum de 17 faixas com esse cast, lançado por um dos maiores canais de música urbana do país, é um passo concreto nessa direção.
“Uma Rapper Gangstêr” chega em um momento em que o debate sobre representatividade feminina no rap nacional ganhou volume real. O álbum não precisa carregar esse peso como manifesto explícito porque ele já faz o trabalho pelo conjunto: Brown na abertura, tributo a Dina Di perto do final, e dezessete faixas de uma MC que está construindo o próprio espaço com tijolo por tijolo. Quem ouvir o disco do começo ao fim vai entender exatamente o que o título quer dizer.




