Mad in Brazza critica indústria de luxo no rap após cancelamentos em massa no festival de Curitiba

Veigh, Orochi, L7nnon, Alee e 2ZDinizz não se apresentaram na quinta edição do evento por descumprimento contratual; reembolso começou em 10 de agosto
Mad in Brazza critica indústria de luxo no rap após cancelamentos em massa no festival de Curitiba

Cinco atrações e uma nota que abriu uma ferida que o mercado do rap brasileiro preferia deixar quieta. O Mad in Brazza festival que aconteceu no dia 8 de agosto no Expotrade Convention Center, em Pinhais, na região metropolitana de Curitiba, virou o centro de uma das maiores crises do circuito de rap nacional em 2026 depois que Veigh, Orochi, L7nnon, Alee e 2ZDinizz cancelaram suas apresentações alegando descumprimento de obrigações contratuais por parte da produção.

O que poderia ter sido tratado como mais um imbróglio contratual ganhou outro peso quando a organização respondeu com duas notas públicas, sendo a segunda delas uma análise crua sobre o modelo econômico do rap no Brasil. “O rap está ficando caro demais para o próprio rap”, escreveu o festival. A frase não é retórica: é um diagnóstico.

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O que aconteceu com o Mad in Brazza

Na primeira nota, divulgada logo após a confirmação dos cancelamentos, o festival deixou claro que não iria engolir a narrativa de que a culpa era só sua. A organização afirmou ter trabalhado “até o último momento” em busca de alternativas, acionado equipes jurídicas e apresentado propostas para tentar contornar a situação.

A resposta à imprensa e ao público foi direta: “Não consideramos justo que toda a responsabilidade pelas alterações seja atribuída ao festival quando existiram contratos, negociações e compromissos entre diferentes partes”.

O reembolso dos ingressos foi iniciado em 10 de agosto, dois dias após o evento. Os casos seguem sendo tratados pelo departamento jurídico do festival. Apesar da crise, o Mad in Brazza aconteceu com Ty Dolla $ign como atração principal internacional, o que evitou um colapso total da programação.

A segunda nota é onde a coisa fica interessante, e incômoda. O festival admitiu erros com uma franqueza rara no mercado: “Nós erramos. Tomamos decisões que gostaríamos de ter tomado de outra maneira”. Mas não parou aí. A organização foi fundo num problema estrutural que qualquer produtor de rap no Brasil conhece, mas que poucos colocam em texto.

O argumento central é que o custo de realizar um show de rap no Brasil não é mais composto só pelo cachê do artista. Existe uma camada crescente de exigências: hotéis de luxo, passagens aéreas nas categorias mais caras, carros executivos, camarins com listas de itens premium, bebidas específicas e equipes cada vez maiores. A organização chamou esse conjunto de “indústria de luxo construída ao redor do artista”. Uma infraestrutura que onera a produção e que cresce em paralelo com a popularidade da cena, sem que o poder de compra do público siga o mesmo ritmo.

Existe uma distância enorme entre a realidade apresentada no palco e a realidade vivida por grande parte de quem está do outro lado da grade.

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A frase é pesada porque aponta para uma contradição que o rap carrega desde que virou produto: a cultura que nasceu da periferia construiu, em alguns casos, um aparato de bastidores que pouca gente da periferia consegue bancar.

A pergunta que a nota faz ao leitor é direta: “Por que não tem mais festival de rap na minha cidade? Talvez essa seja parte da resposta”. É uma aposta arriscada para quem acabou de passar por uma crise pública, mas também é o tipo de declaração que força uma conversa real.

O questionamento para os festivais

O Mad in Brazza existe desde 2022. Foi criado por Thiago Moreira, da Morgot Produções, a partir de uma observação simples: o rap crescia no Brasil, mas o Paraná não tinha um festival específico do gênero. A primeira edição atraiu 16 mil pessoas. A quinta edição é a que ficará marcada não pela programação, mas pelo debate que gerou.

O festival também tem uma data em São Paulo, que foi adiada pela organização. Até o momento desta publicação, nenhuma nova data foi confirmada. A crise em Curitiba certamente pesa na equação.

O que fica depois de tudo isso não é só uma briga contratual entre artistas e produtores. É uma questão de viabilidade. Se os custos de produção continuam subindo e o ingresso não acompanha, quem paga a conta não é o artista e não é a gravadora: são os fornecedores, os técnicos, as equipes de palco, os trabalhadores que passaram meses construindo o evento.

Esse é o ponto que a nota do festival levanta e que ninguém no mercado consegue rebater com um argumento sólido. A cena tem crescido, isso é real. Mas crescer sem equacionar o modelo econômico é uma conta que mais cedo ou mais tarde chega (e normalmente chega na forma de um cancelamento na véspera).

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NARDONI

NARDONI

Carioca que não gosta de praia, apreciador de café e água com gáix, criador da RAP MÍDIA.

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