Na quinta-feira (1º), Hungria fez em público o que, pelas palavras dele mesmo, costuma evitar: escolher um lado na política. Três dias antes do primeiro turno, marcado para domingo (4), o rapper declarou nas redes o voto em Celina Leão (PP) para o Governo do Distrito Federal. A governadora disputa a reeleição, e o apoio vem junto com o de uma candidata a deputada distrital.
O post é curto e cuidadoso. Hungria começa falando da responsabilidade de escolher “a quem confiar nosso amanhã” e logo avisa que, mesmo sendo reservado sobre o assunto, decidiu mostrar o voto. O trecho seguinte parece endereçado a quem vai discordar, e talvez seja a parte mais calculada do texto inteiro.
Sempre fui mais reservado sobre política, mas hoje quero compartilhar minha escolha. Minha opinião e a sua não precisam virar discussão. Podemos pensar diferente e continuar nos respeitando.
Hungria
Depois do aviso, vem a lista. Hungria cita Marcela Passamani, 15555, para deputada distrital, e Celina Leão, 11, para governadora, com o “meu grande amigo” Gustavo Rocha como vice. Marcela concorre pelo MDB. Na própria publicação, a governadora respondeu nos comentários com o número da candidatura e um coração azul. A troca pública foi rápida e deixou pouco espaço para dúvida sobre o lado de quem estava apoiando quem.
A chapa que recebeu o voto de Hungria
Celina assumiu o comando do DF em março de 2026, quando Ibaneis Rocha saiu e ela, até então vice-governadora, subiu ao cargo. Tem 49 anos e já foi deputada distrital, presidente da Câmara Legislativa e deputada federal. Na corrida atual, leva Gustavo Rocha, do Republicanos, como candidato a vice, numa coligação que reúne Republicanos, MDB, Podemos, PL, DC, Mobiliza, União Brasil e outras legendas. A CNN Brasil classifica o arranjo como de centro-direita.
O vínculo com o campo bolsonarista não é discreto. Michelle Bolsonaro (PL) e Bia Kicis (PL), ambas candidatas ao Senado pelo Distrito Federal, declararam apoio a Celina. Em agosto, a governadora participou de eventos ao lado das duas e pediu apoio conjunto para a “chapa fechada” com nomes da direita. O Republicanos oficializou a adesão, e o partido divide o palanque com lideranças do PL. Ao declarar voto, Hungria entra nesse palanque de forma explícita.
Antes do post, ele já tinha aparecido ao lado de integrantes da chapa, e isso alimentou especulação nas redes sobre uma aproximação política. Faltava a palavra dele. A declaração de 1º de outubro acabou com a ambiguidade: a aliança entre Hungria e Celina Leão passou da fotografia para o voto declarado.
Na contramão do que boa parte da cena anunciou
O contraste com o resto do rap aparece rápido. Filipe Ret, TZ da Coronel, Don L, Japa MC, Jotapê, Delacruz, Flora Matos e Emicida já tornaram público o apoio a Lula na eleição presidencial. A comparação não é direta: esses nomes falaram da disputa nacional, e Hungria, nos trechos divulgados do post, trata da eleição local no Distrito Federal. Mesmo assim, o desencontro entre ele e boa parte dos colegas é impossível de ignorar.
Partidos como Republicanos e PL não costumam ser o endereço político preferido de quem faz rap e vive a cultura hip-hop no Brasil. É esse atrito que dá peso ao gesto. Um voto declarado por um artista menos ouvido passaria batido, mas Hungria é um dos nomes mais escutados do país. O que ele diz sobre política chega a gente que não acompanha jornalismo político nenhum.
Há ainda um detalhe de método. Ele não ataca ninguém, não cita adversário, não transforma o apoio em palanque contra outro candidato. A estratégia do texto é a da desescalada: declara, pede respeito e sai da frente. Dá para discordar da escolha e ainda assim notar que o formato foi pensado para reduzir o barulho.
Ceilândia, Sol Nascente e o recado aos próximos gestores
Nascido em Ceilândia, Hungria construiu parte da trajetória ligada a Brasília e ao Entorno, e já levou diferentes regiões da capital e da periferia para a própria música e para as aparições públicas. Não surpreende que o trecho final do post se dirija às demandas de Ceilândia e Sol Nascente. É a parte em que a conversa deixa de ser sobre partido e passa a ser sobre endereço.
Desejo sabedoria e sensibilidade para ouvir e sentir as dores desse povo que espera um novo amanhã nascer em Brasília. Cuidem dessa confiança.
Hungria
O pedido de “cuidem dessa confiança” cobra de quem for eleito, e isso vale para o candidato que ele apoia também. Quando um artista com a base de público de Hungria coloca a própria imagem num número de urna, ele empresta credibilidade e passa a ser cobrado pelo que vier depois. Se a gestão falhar nas regiões que ele citou, o primeiro comentário a ser resgatado será o dele.
No domingo (4), o 11 e o 15555 deixam de ser frases de Instagram e viram teclas numa urna do DF. Do outro lado, uma parte da cena que já avisou voto em Lula vai continuar ouvindo Hungria. A pergunta que fica é prática: o respeito que ele pediu no post, “podemos pensar diferente e continuar nos respeitando”, sobrevive na timeline do rap quando a divergência passa a ter nome, partido e número?





