A Cyclone é uma marca brasileira de roupas criada em 1984, no Rio de Janeiro, que nasceu fazendo bermudas para surfistas e virou um dos maiores símbolos de estilo das periferias do país. A bermuda de veludo bordada, o boné com o logo e os conjuntos coloridos saíram das praias para os bailes funk, as letras de música e o visual mandrake. E, para quem pesquisa se a marca Cyclone ainda existe, a resposta é sim: mais de 40 anos depois, ela segue ativa, agora se apresentando como streetwear.
Nesta matéria, a RAP MÍDIA conta a história da Cyclone, da origem no surfe à chegada nas quebradas, mostra as peças que viraram ícone e quanto elas custam hoje, fala do preconceito que a marca enfrentou por causa do público que a abraçou e explica onde a Cyclone está em 2026.
Do surfe carioca às primeiras bermudas
A Cyclone nasceu no Rio de Janeiro de 1984, num momento em que o surfe brasileiro vivia uma explosão. As praias da Zona Sul e da Barra da Tijuca estavam cheias de surfistas, os campeonatos atraíam público e patrocinadores, e as marcas estrangeiras dominavam as vitrines. O surfista de ondas grandes Roberto Valério é apontado como o criador da Cyclone, com uma ideia clara: fazer bermudas de surfe, os boardshorts, 100% brasileiras e com qualidade de marca internacional.
Nos primeiros anos, a Cyclone funcionou como o braço de surfwear da Company, uma das marcas cariocas mais conhecidas da época. A estratégia foi apostar no próprio esporte: a Cyclone foi pioneira no patrocínio de equipes de surfe no Brasil, numa época em que formar atletas não era prática comum entre as marcas nacionais, e passou a realizar e apoiar competições. Esse vínculo com o surfe nunca foi abandonado. Em 2021, a marca tinha mais de 30 atletas na equipe e patrocinava circuitos amadores em cinco estados.
O nome em inglês, que significa ciclone, fazia parte da lógica do mercado de surfwear dos anos 1980, dominado por grifes australianas e americanas. Por causa dele, muita gente até hoje acha que a Cyclone é estrangeira. Não é: a marca sempre foi carioca, e sua sede continua na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro.
Como a Cyclone foi parar na quebrada e no funk
A virada da Cyclone aconteceu longe do mar. A partir dos anos 1990 e, com mais força, nos anos 2000, as peças da marca foram adotadas pela juventude das periferias. Em reportagem de 2017, a revista Vice resumiu a mudança: a Cyclone nasceu como surfwear, mas a maior parte dos consumidores já estava nas periferias, e não nas praias. Segundo a mesma reportagem, mais da metade das lojas oficiais da marca ficava na Bahia e em Pernambuco.
Os motivos ajudam a entender o que a quebrada valoriza numa roupa. As peças da Cyclone eram coloridas, bordadas, com o logo grande e visível de longe, e tinham fama de durar. Ao mesmo tempo, eram caras o bastante para mostrar conquista: um conjunto podia custar entre R$ 700 e R$ 800 em 2017, e uma camiseta não saía por menos de R$ 60 nem na liquidação. Usar Cyclone era dizer, sem palavras, que a pessoa tinha chegado em algum lugar. Na mesma reportagem, Jones Rosário, dono de uma loja de roupas, resumiu o fenômeno dizendo que a marca pegou todo mundo nas quebradas.
A música fez o resto. A Cyclone passou a aparecer nas pistas dos bailes funk, virou tema de montagens e foi citada em letras de vários gêneros. Na Bahia, o cantor de pagodão Igor Kannário gravou com A Bronkka uma música chamada Cyclone. Em São Paulo, o funk ostentação do começo dos anos 2010 colocou a marca ao lado de Oakley e Quiksilver nas letras que celebravam o consumo, e a Cyclone virou peça obrigatória do visual que ficou conhecido como estilo mandrake.
A força no Nordeste
O dado da Vice sobre a Bahia e Pernambuco ajuda a entender que a Cyclone não é só uma história do eixo Rio-São Paulo. No Nordeste, a marca virou parte do visual dos bairros populares de cidades como Salvador e Recife, e chegou a ser trilha do pagodão baiano, um dos gêneros mais ouvidos da região. Na reportagem, o rapper pernambucano Diomedes Chinaski contou que, como muitos jovens da periferia de Pernambuco, não tinha dinheiro para comprar Cyclone na juventude, e que a marca era objeto de desejo justamente por isso.
Chinaski também descreveu um efeito curioso: para quem vive na periferia, vestir uma marca reconhecida pode funcionar como uma espécie de proteção, um sinal de que a pessoa está bem e tem o próprio dinheiro. Ao mesmo tempo, a mesma roupa podia atrair olhares desconfiados de quem é de fora, como mostra a seção sobre o preconceito, mais abaixo. Essa ambiguidade acompanha a Cyclone até hoje.
Outros ícones que fizeram o mesmo caminho
A trajetória é parecida com a de outros ícones do estilo de rua brasileiro. A Kenner nasceu como sandália de surfista e virou o chinelo do cria carioca. Os óculos Oakley Juliet foram feitos para o esporte e viraram a lupa da quebrada. Em todos os casos, a periferia pegou uma marca pensada para outro público e deu a ela um significado novo, que a própria marca não tinha planejado.


As peças que viraram ícone
A bermuda de veludo
Nenhuma peça representa tanto a Cyclone quanto a bermuda de veludo, que a própria marca descreve como um dos seus maiores símbolos. O veludo canelado, encorpado, com bordados em alto-relevo, o logo grande e cores fortes, virou a assinatura da marca nas quebradas. Os modelos mudam a cada coleção, com temas que vão do reggae às letras góticas, e a Cyclone diz produzir as peças de veludo em quantidades limitadas, sem repetir coleção. Bermuda de veludo Cyclone, original e anos 90 estão entre as buscas mais feitas no Google sobre a marca.
Os bonés
O boné bordado com o logo é outra peça clássica. Os modelos coloridos, com o nome da marca em destaque, são citados como muito desejados desde os anos 2000 e completam o visual com a bermuda e a camisa. Hoje a marca vende bonés de aba curva e de microfibra, com estampas como reggae, letras e símbolos.
Conjuntos, camisetas e chinelos
Os conjuntos de bermuda e camisa, muitas vezes com as cores da bandeira da Jamaica e bordados em alto-relevo, eram as peças mais caras e mais disputadas nos anos 2010. A linha atual inclui ainda camisetas, casacos, jaquetas, calças e shorts femininos, chinelos, tênis, mochilas e, claro, as bermudas de surfe que deram origem a tudo.
Quanto custa hoje
Em novembro de 2026, o site oficial da Cyclone vende as bermudas de veludo entre R$ 299 e R$ 479, conforme o modelo e as promoções, com preço cheio de R$ 399 a R$ 479. Os bonés saem de R$ 99 a R$ 169. A loja oferece frete grátis acima de um valor mínimo para as capitais e mantém uma seção de outlet com peças de coleções anteriores.
Preconceito, pirataria e a defesa do público
A mesma popularidade que transformou a Cyclone em ícone trouxe um peso. Por causa do perfil de parte dos consumidores, jovens negros e pobres das periferias, a marca passou a ser associada ao crime por quem olhava de fora. Boatos sem qualquer comprovação chegaram a ligar o nome e o logo da marca a facções criminosas. A reportagem da Vice registrou que a Cyclone ficou marcada por esse estereótipo, e que a própria empresa respondia dizendo não discriminar seus consumidores.
É o mesmo fenômeno que atinge o estilo mandrake como um todo. Pesquisas sobre abordagens policiais na Grande São Paulo apontam que roupas e acessórios associados ao funk funcionam como sinal de suspeição, e a Cyclone está entre as marcas citadas pelos jovens entrevistados. Para quem veste, porém, a marca representa o contrário: autoestima, pertencimento e a possibilidade de se vestir bem com o próprio dinheiro.
A pirataria é a outra face da popularidade. A Cyclone é uma das marcas mais copiadas do país, e as peças falsas estão em feiras e lojas de bairro de todo o Brasil. Na reportagem da Vice, Jones Rosário tratou a pirataria como um termômetro: quanto mais uma marca é copiada, mais desejada ela é. A Cyclone, por sua vez, afirma que seu consumidor sabe diferenciar uma peça original de uma falsa, principalmente pelo acabamento do bordado e pela qualidade do veludo.
A Cyclone ainda existe? Onde a marca está hoje
A Cyclone continua ativa. A marca é mantida pela W Gear Indústria e Comércio de Roupas, com sede na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, e vende pelo site oficial, por lojas próprias e por uma rede de revendedores espalhada pelo país, com forte presença no Nordeste. Em 2026, ela se apresenta como “moda urbana e streetwear” e resume a identidade em quatro pilares: original, esporte, música e pertencimento.
O posicionamento mostra como a marca absorveu a própria história. A Cyclone não abandonou o surfe, que segue nos patrocínios e nas campanhas, mas passou a falar abertamente de música e de pertencimento, as duas coisas que a periferia trouxe para ela. As coleções recentes misturam o veludo clássico com estampas góticas, reggae e símbolos que conversam com o funk e o trap, e o “retrô” virou argumento de venda: as peças que fizeram sucesso nos anos 90 e 2000 voltaram como desejo de uma nova geração.


Essa trajetória, da praia para a quebrada e da quebrada para a moda, coloca a Cyclone ao lado de marcas que ganharam força pela cultura de rua, como a Supreme nos Estados Unidos. A diferença é que a Cyclone nunca dependeu de lançamento disputado nem de fila na porta: seu prestígio foi construído no baile, na esquina e no corpo de quem vive a periferia, e é por isso que, mais de 40 anos depois, ela segue tão reconhecível.
Perguntas frequentes sobre a Cyclone
A marca Cyclone ainda existe?
Sim. A Cyclone continua ativa em 2026, com loja online, lojas próprias e revendedores pelo país. A empresa responsável é a W Gear Indústria e Comércio de Roupas, com sede na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro. A marca se apresenta hoje como streetwear, sem abandonar o surfe, e segue apostando nas peças de veludo.
Qual é a origem da marca Cyclone?
A Cyclone é uma marca brasileira criada em 1984, no Rio de Janeiro, no universo do surfe. O surfista de ondas grandes Roberto Valério é apontado como criador, com a ideia de fazer bermudas de surfe nacionais com qualidade internacional. Nos primeiros anos, funcionou como o braço de surfwear da marca carioca Company.
Por que a Cyclone é associada à favela e ao funk?
Porque, a partir dos anos 1990 e 2000, as peças coloridas, bordadas e chamativas da marca foram adotadas pela juventude das periferias, apareceram nos bailes funk e viraram tema de músicas. A Cyclone virou símbolo de estilo e de conquista na quebrada, num caminho parecido com o da Kenner e da Oakley Juliet.
Quanto custa uma bermuda Cyclone original?
Em novembro de 2026, as bermudas de veludo aparecem no site oficial da Cyclone entre R$ 299 e R$ 479, conforme o modelo e as promoções, com preço cheio de R$ 399 a R$ 479. Os bonés custam de R$ 99 a R$ 169. Peças muito abaixo desses valores, fora de lojas autorizadas, merecem desconfiança.
A Cyclone é uma marca brasileira?
Sim. A Cyclone é 100% brasileira, criada no Rio de Janeiro em 1984. Muita gente acha que é estrangeira por causa do nome em inglês, que quer dizer ciclone, mas a marca nasceu no surfe carioca e tem sede na Barra da Tijuca. Mais de 40 anos depois, segue sendo uma das grifes nacionais mais reconhecidas nas periferias.
Como saber se uma peça da Cyclone é original?
Compre no site oficial, nas lojas da marca ou em revendedores autorizados. Nas peças originais, o bordado é firme e bem acabado, o veludo é encorpado e as etiquetas internas trazem as informações da empresa. Bordado falhado, logo torto, tecido fino e preço muito baixo são os sinais mais comuns de falsificação.





