O rapper Coruja passou de 1 milhão de visualizações no YouTube com o clipe de “Pássaro de Fogo”, parceria com o duo Tropkillaz e primeiro single do novo álbum do artista. O vídeo foi publicado no dia 24 de setembro e bateu a marca em menos de uma semana.
O número pesa ainda mais pelo contexto. “Pássaro de Fogo” marca a volta de Coruja depois de três anos sem um projeto novo: o último tinha sido o EP “Versão Brasileira Vol. 1”, de junho de 2023. Segundo o próprio artista, foi um período de estudo, amadurecimento e silêncio até encontrar o momento certo de voltar a falar pela música, e a resposta do público no primeiro lançamento mostra que a espera foi sentida.
Um sample de capoeira como ponto de partida
A faixa nasceu antes mesmo de existir um beat. Durante dias, Coruja ouviu sem parar “Luta e Brinca”, música do Grupo Axé Capoeira, de Mestre Barrão, lançada em 2004. Ele buscava ali a força da ancestralidade, da disciplina e da resistência que queria para abrir o novo disco. Quando entrou em estúdio com o Tropkillaz, levou a certeza pronta:
“Nosso trabalho começa daqui.”
Coruja
O sample de “Luta e Brinca” virou o coração da música. A produção ficou com Zegon e LAUDZ, a dupla por trás do Tropkillaz e já indicada ao Grammy, que usou a referência da capoeira como parte da narrativa, e não só como detalhe sonoro. O resultado aproxima o rap de uma das expressões mais brasileiras da cultura negra, juntando o contemporâneo e o ancestral na mesma faixa.
O nome de Mestre Barrão, aliás, anda aparecendo no rap além da fronteira: o argentino Milo J citou o mestre de capoeira entre as referências brasileiras que tem ouvido, em entrevista recente que contamos em Milo J fala sobre música brasileira no Podpah.
Oxóssi, o plano B que não existe e os lutos simbólicos
Outra camada da música vem de Oxóssi, o orixá caçador, que Coruja associa à precisão, ao foco e à direção. A imagem de quem precisa saber exatamente onde mirar atravessa a faixa e se encontra com uma realidade conhecida por muitos homens pretos e pardos da periferia, que crescem entendendo que nem sempre existe espaço para errar ou para uma segunda chance.
Daí sai a ideia central da canção: não existe plano B para aquilo que precisa dar certo. O refrão amarra sucesso, acesso e o preço que se paga para chegar a certos lugares, uma contradição de quem conquista espaço deixando partes de si pelo caminho.
É aqui que entram os lutos simbólicos, a outra chave de leitura da faixa. A música parte da ideia de que a vida é feita de pequenas mortes: relações, expectativas, sonhos e versões de si que ficam para trás. Para Coruja, essas perdas também servem de combustível. O fogo do título vai nessa direção: queima as velhas certezas para abrir espaço para outras possibilidades, e o pássaro que sai dele é o primeiro voo de uma fase nova.
O videoclipe, disponível no canal do artista, foi pensado para colocar a letra no centro da experiência. As imagens acompanham a atmosfera da faixa e traduzem a ideia de atravessar o fogo sem perder a própria essência, passando por quedas, lutos e renascimentos. Assista:
Quem é Coruja
Conhecido por anos como Coruja BC1, Gustavo Vinicius Gomes de Sousa nasceu na periferia de Osasco, na Grande São Paulo, e passou parte da adolescência em Bauru, onde mergulhou no hip hop e chegou a dançar break. O apelido veio ainda na infância. Das batalhas de MC, ele saiu com fama de rimador técnico e de punchlines afiadas, e construiu uma discografia que inclui os álbuns “NDDN: No Dia Dos Nossos” (2017), “PSICODELIC” (2019) e “Brasil Futurista” (2021), além do EP “Versão Brasileira Vol. 1” (2023).
O novo álbum ainda não tem nome nem data de lançamento divulgados. Se “Pássaro de Fogo” é mesmo o primeiro voo, como o artista define, o milhão de visualizações em menos de uma semana mostra que o público chegou antes do disco.




