BK’ assinou com a Interscope Records, a gravadora americana que esteve por trás de momentos decisivos das carreiras de Dr. Dre, Eminem e Kendrick Lamar. O anúncio saiu nesta sexta-feira, dia 6 de novembro, junto com um segundo acordo: a Interscope também fechou uma parceria de distribuição exclusiva com a Supernova Ent., gravadora independente que tem o produtor Nagalli entre os fundadores.
São os dois primeiros movimentos da Interscope no Brasil, depois de quase dois anos estudando o mercado. O primeiro lançamento de BK’ pela nova casa já tem tema definido: um álbum de remixes de “Castelos & Ruínas”, com novas produções e participações, para celebrar os dez anos do disco de estreia dele.
BK’ na Interscope Records: o que foi anunciado.
BK’ é o primeiro artista contratado pela operação brasileira da Interscope, e a Supernova é a primeira parceria da empresa com uma gravadora no país. Quem conduz a chegada é José Cedeño, vice-presidente executivo e gerente-geral da Interscope Capitol Miami, o braço que cuida da América Latina. Ele contou à Exame que a operação latina da empresa começou há sete anos, focada no espanhol, e que o Brasil ficou para depois porque era grande e complexo demais para começar.
Os valores dos dois acordos não foram divulgados, e a Interscope também não fechou um orçamento para o Brasil. Segundo Cedeño, o dinheiro vai acompanhar as oportunidades. A empresa está montando uma equipe própria no país, com parte dos profissionais já trabalhando, e os artistas contratados contam também com os times de marketing e desenvolvimento artístico dos Estados Unidos, da América Latina e da Espanha.
A ideia não é encher o elenco. “Não estamos tentando assinar 500 artistas, mas sim achar os artistas certos”, disse o executivo à Exame. Outro ponto que ele fez questão de deixar claro é o idioma: ninguém vai precisar cantar em inglês ou espanhol para trabalhar com a Interscope. Para Cedeño, a música é brasileira e precisa continuar assim. Sobre BK’, ele destacou o que o rapper tem feito ao vivo, com shows que vendem como poucos no país.
A Interscope foi a casa de alguns dos nomes mais importantes da história do rap. Ter ao nosso lado uma potência com tanta experiência e compreensão da cultura é exatamente o que procurávamos para este próximo capítulo. Perceber o quanto a equipe acreditou no que estamos construindo tornou a decisão ainda mais fácil.
BK’
Castelos & Ruínas: o álbum de remixes de 10 anos.
“Castelos & Ruínas” saiu em 2016, de forma independente, e virou o disco que colocou BK’ no centro do rap nacional. Dez anos depois, ele segue vivo: a turnê comemorativa do álbum reuniu cerca de 50 mil pessoas no Nubank Parque, em São Paulo, em setembro, e deve terminar no Maracanã, em janeiro de 2027. O filme feito para a celebração também levou ouro no Clube de Criação e está indicado ao Grammy Latino 2026, na categoria de Melhor Videoclipe Versão Curta.
O álbum de remixes é o primeiro passo da parceria com a Interscope. A proposta é trazer novas versões das faixas originais, com produções inéditas e participações especiais. Data de lançamento, lista de músicas e nomes dos convidados ainda não foram divulgados. Faz sentido que a estreia na gravadora seja olhando para trás: é o disco mais conhecido do rapper, com um público que cresceu junto com ele, e um projeto que já tem estrada, palco e prêmio no currículo.
-
Mercado MusicalDireitos autorais da música batem recorde de € 14 bilhões no mundo: veja como funciona no Brasil
-
Mercado MusicalMc IG deixa a GR6 em janeiro e vai focar na Gringos World e na Blessed Boss
-
Mercado MusicalViagogo, StubHub e BuyTicket: governo manda suspender revenda de ingressos para shows
A gravadora do BK’: o que muda com a Gigantes.
Até aqui, BK’ construiu a carreira de forma independente. Em 2021 ele fundou a Gigantes, selo que leva o nome do segundo álbum dele, de 2018, e que funciona como uma casa pequena para dar suporte completo aos artistas, da gravação ao pós-lançamento. Pelo selo saíram projetos de nomes como JXNV$ e FyeBwoii, além de discos do próprio BK’, como “Diamantes, Lágrimas e Rostos para Esquecer”, de 2025. Gigantes também é o nome do festival que ele organiza.
O anúncio não detalha como fica a relação entre a Gigantes e a Interscope, nem se os próximos discos de BK’ sairão pelo selo dele em parceria com a gravadora americana. O que muda, na prática, é a estrutura. Pela primeira vez, o rapper tem por trás uma empresa com distribuição e marketing em vários países, num momento em que já lota estádios no Brasil. Ele também vai falar sobre essa transição na SIM São Paulo 2026, onde participa de um estudo de caso sobre a passagem do rap para os grandes espaços.
Supernova Ent. e Nagalli na Interscope.
O segundo acordo envolve a Supernova Ent., uma das principais gravadoras independentes da cena urbana. Fundada por Gustavo Pimentel, que é o CEO, e pelo produtor Nagalli, a empresa cuida da carreira de Veigh e reúne nomes como G.A, Ghard e Niink. A Interscope passa a fazer a distribuição exclusiva de todo o catálogo da Supernova, e as duas vão trabalhar juntas na contratação e no desenvolvimento de novos artistas. Uma nova mixtape do selo deve sair ainda em 2026.
A parceria começou antes do anúncio. Gustavo Pimentel e Nagalli foram a Los Angeles conhecer a equipe da Interscope, e o álbum “Essência de Risco”, de Niink, lançado no começo de outubro, já saiu dentro dessa colaboração. Nagalli é um dos produtores que ajudaram a definir o som do trap brasileiro atual, com faixas como “Qual É Seu Desejo”, do Ryu, the Runner, que chegou ao topo da Billboard Brasil Hot 100.
A Interscope construiu um legado artístico no hip-hop que se destaca de qualquer outra gravadora do mundo. Temos a honra de fazer parte dessa história e estamos entusiasmados em integrar a família Interscope.
Nagalli
Interscope Records no Brasil: por que começar pelo rap.
A Interscope foi fundada em 1990 e virou sinônimo de rap americano. Tupac foi o primeiro rapper contratado pela empresa, em 1991, e a gravadora abriga selos como a Aftermath, de Dr. Dre, a Shady, de Eminem, e a Dreamville, de J. Cole. Kendrick Lamar, Playboi Carti, Lady Gaga e Karol G estão entre os artistas que passaram ou estão na casa. John Janick, presidente e CEO da Interscope Capitol, disse que a música brasileira vive um momento de impacto no mundo e que a empresa vê a chance de levar a experiência que tem na música urbana para artistas daqui.
Os números ajudam a explicar o interesse. Segundo a Pró-Música Brasil e a IFPI, citadas pela Exame, a música gravada no Brasil faturou R$ 3,958 bilhões em 2025, alta de 14,1%, mais que o dobro da média mundial, de 6,4%. O país já é o oitavo maior mercado do mundo. No Spotify, artistas brasileiros geraram cerca de R$ 2 bilhões em royalties no mesmo ano. E o rap e o trap estão no centro disso: são os gêneros que dominam o ranking dos artistas mais ouvidos do Spotify mês após mês.
BK’ não é o primeiro nome do rap nacional a fechar com uma grande gravadora, mas o acordo tem um peso diferente. Em vez de uma major com escritório antigo no país, é um selo americano que historicamente se construiu em cima do hip-hop escolhendo o rap brasileiro como porta de entrada, com um artista que fez o caminho todo de forma independente antes de assinar.





