A noite de quarta-feira, dia 10 de Dezembro, no centro de São Paulo não foi apenas mais um meio de semana na metrópole; foi a consolidação de um movimento. Quando falamos sobre a capacidade de mover massas e alterar a temperatura da cultura urbana, poucos nomes possuem a força gravitacional do artista cearense. O lançamento do álbum “Xtranho” transformou o Vale do Anhangabaú em um templo a céu aberto para mais de 10 mil pessoas, reafirmando que o trap brasileiro não é apenas um gênero musical de números digitais, mas uma força física, palpável e, agora, visceralmente estética.
A audição pública gratuita orquestrada pela 30PRAUM transcendeu o conceito tradicional de show. Foi uma experiência de imersão que conectou a arquitetura brutalista da cidade com a nova sonoridade proposta pelo artista. Se em 2024 ele já havia surpreendido ao apresentar o projeto 333 suspenso em uma plataforma no mesmo local, o retorno ao Anhangabaú para revelar “Xtranho” carrega uma simbologia ainda mais forte: a de que o espaço público pertence à juventude e à arte de rua, e que a repetição do local não é falta de criatividade, mas a construção de um território sagrado para a sua base de fãs.
A ruptura estética de “Xtranho” e o mergulho na escuridão
O que mais chama a atenção neste novo trabalho é a coragem de romper com a fórmula do “hit de verão” fácil. “Xtranho” mergulha em uma atmosfera densa, introspectiva e, por vezes, desconfortável. A euforia solar e as odas à ascensão financeira dão lugar a uma lírica que explora o lado B da fama, a vigilância constante e os demônios internos. A faixa “Meu Cemitério”, lançada como cartão de visitas, já antecipava essa guinada com versos carregados de paranoia e uma produção que flerta com o macabro.
Essa mudança de tom não é acidental. O álbum reflete uma maturação artística que busca referências fora da bolha convencional do trap. A influência de sonoridades experimentais, citando até mesmo lendas da música eletrônica como Aphex Twin, mostra que a intenção aqui é causar estranheza. Músicas como “Facas e Machados” e a própria faixa-título rejeitam a polidez do pop radiofônico em favor de texturas ruidosas e batidas que desafiam o ouvinte. Para quem esperava o “mais do mesmo”, “Xtranho” chega como um soco no estômago, provando que o conforto é inimigo da inovação.
Conexão visual: Do punk à alta moda de rua
A construção do universo de “Xtranho” passa obrigatoriamente pelo visual. A estética do projeto bebeu diretamente na fonte da atitude punk e do visual agressivo dos anos 2000. A parceria com a lendária grife Ed Hardy não foi apenas um detalhe de figurino, mas um alinhamento ideológico. Conhecida por sua iconografia de tatuagens, caveiras e uma rebeldia inerente, a marca dialoga perfeitamente com o momento atual de Matuê.
No videoclipe de “Meu Cemitério” e na identidade visual apresentada no telão do Anhangabaú, vimos um Matuê que abraça o ruído. Filmagens com câmeras de visão noturna, cortes rápidos e uma ambientação de filme de horror criaram o cenário perfeito para as novas faixas. Essa direção de arte amplia a experiência do ouvinte, transformando o álbum em um produto multimídia. O conceito de “Xtranho” sugere que a beleza do trap atual reside justamente no que é imperfeito, sujo e autêntico. É a celebração do “estranho” como o novo padrão de “cool”.


Produção global e a força da 30PRAUM
Musicalmente, o disco é um atestado de ambição internacional. Produzido ao longo de quatro meses intensos, o trabalho conta com um time de peso que inclui o holandês Sapjer e o australiano Brvdy, além do brasileiro Chronic. Essa fusão de talentos resultou em beats que soam frescos e distintos do que tem sido feito no mercado nacional. Faixas como “Ícone Fashion“, “Alterado” e “Backstage” trazem essa roupagem gringa, mas com a vivência e o flow inconfundível do artista nordestino.
A 30PRAUM, mais uma vez, demonstra uma visão de mercado afiada. Ao realizar um evento dessa magnitude sem cobrança de ingressos, a gravadora não apenas presenteia os fãs, mas domina a narrativa digital. O termo “Xtranho” dominou as redes sociais, os trending topics e as rodas de conversa, gerando um valor de marca incalculável. A estratégia de convidar artistas do underground para compor o disco também reforça a legitimidade do projeto, mantendo um pé na vanguarda enquanto o outro pisa firme no mainstream.
O lançamento deste quarto álbum de estúdio consolida Matuê não apenas como um hitmaker, mas como um curador de cultura. Ele entende que para se manter no topo é preciso arriscar. “Xtranho” pode não ser o álbum mais fácil de digerir na primeira audição, e essa é exatamente a sua maior virtude. Em um cenário musical muitas vezes saturado de cópias, entregar algo que soa genuinamente diferente é um ato de rebeldia.
A multidão que lotou o centro de São Paulo na última quarta-feira não foi lá apenas para ouvir música; foi para testemunhar a história sendo escrita.

