Drill é um subgênero do rap que nasceu na zona sul de Chicago, nos Estados Unidos, por volta de 2010, e se espalhou pelo mundo com uma batida inconfundível: sombria, por volta de 140 batidas por minuto, com hi-hats quebrados e graves que deslizam entre as notas. As letras são cruas e falam da vida nas ruas, das rivalidades entre grupos e da violência dos bairros onde o estilo nasceu. De Chicago, o drill foi para Londres, onde ganhou o som que o mundo conhece hoje, depois para Nova York e, nos anos 2010, chegou ao Brasil.
Neste guia, a RAP MÍDIA explica o que significa a palavra drill, como é a batida e qual a diferença para o trap, conta a história do gênero em Chicago, Londres e Nova York, mostra como ele chegou ao Brasil e quem são os artistas da cena, e por que o drill virou alvo de censura em vários países.
O que significa drill
Em inglês, a palavra drill quer dizer furadeira, e também treinamento ou exercício repetido, como nos treinos militares. Mas não é desse sentido que o rap tirou o nome. Drill veio da gíria das ruas de Chicago, onde, segundo rappers da cena, a palavra estava ligada a atirar e atacar rivais. Em entrevistas dadas em 2012 e 2013 à revista Complex, nomes como King Louie e Fatzmack, primo do rapper Pac Man, explicaram que “drillar” tinha esse sentido de confronto.
A criação do termo como nome de estilo é atribuída a Pac Man, rapper do bairro de Woodlawn conhecido como Dro City, que foi assassinado em junho de 2010, aos 25 anos, antes de a cena explodir. King Louie, do mesmo bairro, sempre o apontou como a origem do drill. Por isso, quando alguém pesquisa o significado de drill no rap, a resposta curta é essa: o nome vem da gíria da violência de rua de Chicago, e o estilo carrega essa marca até hoje, mesmo quando as letras falam de outros assuntos.
No Brasil, a palavra chegou sem tradução. Fala-se em drill, em drill brasileiro, em beat de drill e em UK drill, para a versão britânica. O sentido original de violência ficou menos presente: para a maior parte do público brasileiro, drill é simplesmente o nome de um tipo de batida e de um jeito de rimar.
Como é a batida do drill e qual a diferença para o trap
O drill é reconhecido nos primeiros segundos, e o motivo está na batida. Os produtores costumam trabalhar perto de 140 batidas por minuto, mas a caixa cai no terceiro tempo do compasso, e não no segundo e no quarto, como na maior parte do rap. O efeito é uma sensação de meio-tempo: a música parece andar a cerca de 70 batidas por minuto, arrastada e pesada, enquanto os hi-hats correm na velocidade cheia por cima.
Os hi-hats são o elemento que mais diferencia o drill. Em vez dos rolos contínuos e rápidos do trap, eles aparecem em rajadas curtas de duas ou três batidas, com pausas e acentos fora do tempo, num padrão quebrado e sincopado. Embaixo disso está o 808, o grave eletrônico que também é a base do trap. No drill, porém, ele desliza de uma nota para outra, num efeito que os produtores chamam de slide. Esse grave deslizante, que ganhou força no drill britânico, virou a assinatura sonora do gênero no mundo inteiro.
As melodias completam o clima. Pianos em tom menor, cordas, corais e sintetizadores frios criam uma atmosfera tensa, quase de filme de suspense. Sobre isso, o MC costuma rimar de forma seca, sem muito canto, com um flow que conversa com os vazios da batida. As letras tratam da rotina das ruas, das rivalidades entre grupos e, em boa parte do drill original, da violência de forma explícita.
| Elemento | Drill | Trap |
|---|---|---|
| Andamento | Cerca de 140 BPM, com sensação de meio-tempo | Faixa parecida, mas com outra divisão |
| Caixa | No terceiro tempo do compasso | Em geral no segundo e no quarto tempos |
| Hi-hats | Quebrados, com pausas e acentos fora do tempo | Contínuos e rápidos, com rolos |
| Grave 808 | Desliza entre as notas | Notas mais marcadas, sem tanto deslize |
| Clima | Sombrio, tenso, melodias em tom menor | Mais variado, pode ser melódico e festivo |
| Origem | Chicago (2010), depois Londres | Atlanta (anos 2000) |
Os dois gêneros são parentes próximos. O drill de Chicago nasceu sob influência direta do trap de Atlanta, e muitos artistas transitam entre os dois. A história do trap e a diferença dele para o rap estão no guia o que é trap.
A história do drill: de Chicago a Londres e Nova York
Chicago, 2010 a 2014
O drill nasceu na zona sul de Chicago, uma das regiões mais violentas dos Estados Unidos no começo dos anos 2010. Jovens de bairros divididos por grupos rivais começaram a gravar raps sobre essa rotina em cima de batidas influenciadas pelo trap de Atlanta, mas mais escuras e cruas. King Louie, de Dro City, lançou mixtapes entre 2012 e 2014 que foram decisivas para a cena local.
Quem levou o drill para o país inteiro foi Chief Keef. Em 2012, ainda adolescente, ele estourou com I Don’t Like, que ganhou um remix de Kanye West e colocou a cena de Chicago no mapa. No mesmo ano, assinou com a Interscope e lançou o álbum Finally Rich. Em 2013, Kanye levou Chief Keef e King Louie para o disco Yeezus, citando o drill como influência. A trajetória de Keef com a gravadora foi curta, e ele foi dispensado em 2014, mas o estilo já tinha saído de Chicago.
Londres: o UK drill
A partir de 2012, o drill chegou ao bairro de Brixton, no sul de Londres, onde encontrou o grime e o rap de rua britânico. O resultado foi o UK drill, com um som próprio: batidas mais rápidas e quebradas e, principalmente, o grave deslizante, que virou marca registrada. O grupo 67 é apontado como um dos que definiram o estilo, e produtores como Carns Hill moldaram os primeiros instrumentais da cena.
O UK drill virou fenômeno, e também alvo. A polícia de Londres passou a tratar as músicas como prova de crimes e a pedir que as plataformas retirassem vídeos. Em 2019, a dupla Skengdo x AM recebeu uma pena de prisão de nove meses, suspensa, por cantar uma música num show, violando uma ordem judicial que os proibia de interpretar faixas consideradas violentas. O caso é citado como a primeira vez que alguém foi condenado por cantar uma música no Reino Unido. Segundo dados obtidos por meio da lei de acesso à informação britânica, a polícia de Londres fez 682 pedidos de remoção de músicas de drill entre janeiro de 2021 e outubro de 2023, a maioria ao YouTube. Mesmo assim, o gênero chegou ao topo: em 2023, Sprinter, de Dave e Central Cee, ficou dez semanas em primeiro lugar nas paradas britânicas, recorde para uma música de rap.
Nova York: o Brooklyn drill
O drill voltou aos Estados Unidos pelo caminho de Londres. Em 23 de abril de 2019, o rapper Pop Smoke, do Brooklyn, lançou Welcome to the Party, com uma batida do produtor inglês 808Melo que ele encontrou no canal do produtor no YouTube. A faixa viralizou, ganhou remixes de Nicki Minaj e do britânico Skepta e criou o Brooklyn drill, que misturava o som de Londres com o sotaque de Nova York. Pop Smoke foi assassinado em fevereiro de 2020, aos 20 anos, e virou símbolo do gênero.
O drill no Brasil
O drill chegou ao Brasil pela internet, nos anos 2010, e encontrou um terreno fértil: periferias com histórias parecidas com as de Chicago e Londres, uma cena de rap e funk acostumada a narrar a violência e uma geração que acompanhava os lançamentos de fora em tempo real. O baiano Vandal, de Salvador, é apontado por várias fontes como o pioneiro, e a faixa 40L, de 2014, é citada como o primeiro registro de drill no país, ainda com a sonoridade de Chicago.
A partir do fim da década, o estilo ganhou força no eixo Rio-São Paulo. Leall, de Marechal Hermes, no Rio, misturou grime, drill e rap em letras sobre a vida nas ruas, e L7nnon ajudou a levar o drill ao público mais amplo. Em 2021, numa reportagem do Metrópoles, o produtor Papatinho apontou a influência de Pop Smoke e da cena de Londres sobre os rappers brasileiros e disse acreditar que o drill seria uma nova porta de entrada do funk no rap, como já tinha acontecido com o trap. Artistas do funk e do trap, como MC Poze do Rodo, Orochi e MC Cabelinho, gravaram faixas no gênero.
O drill brasileiro também conversa com o grime, outro estilo britânico. No Rio, o Brasil Grime Show reúne desde 2019 artistas de grime e UK drill, e nomes como Febem, Fleezus e Cesrv criaram a mistura chamada de brime, que junta o grime com o funk. Essa cena virou tema do documentário Como Você, do jornalista britânico Jesse Bernard, gravado no Rio e em São Paulo. Hoje, o drill aparece em lançamentos de artistas de todo o país, às vezes puro, às vezes misturado com o boom bap, como no trabalho de Akkuma, ou em faixas pesadas como AIRMAX, de Shawllyn e LD MC.
Uma diferença importante entre o drill brasileiro e o original está nas letras. Enquanto o drill de Chicago e de Londres ficou marcado pela violência explícita entre grupos rivais, boa parte do drill nacional fala da vida na favela, de superação, de futebol e de estilo, aproximando o gênero do funk e do trap que já dominavam as periferias. A trajetória do funk, que viveu uma criminalização parecida, está na história do funk carioca.
Drill, violência e censura
Nenhum gênero recente provocou tanto debate sobre a relação entre música e crime quanto o drill. Em Chicago, vários artistas da primeira geração morreram de forma violenta, e as rivalidades narradas nas letras às vezes acompanhavam conflitos reais. Em Londres, a polícia passou a monitorar clipes, a pedir a remoção de vídeos e a usar letras como prova em processos. Em Nova York, autoridades chegaram a culpar o drill pela violência na cidade.
Pesquisadores e artistas contestam essa leitura. Para eles, o drill retrata uma violência que já existia, e punir a música não resolve as causas, como pobreza, falta de oportunidade e ausência do Estado nos bairros onde o gênero nasceu. A discussão é parecida com a que o Brasil conhece há décadas com o funk e o rap: de quem é a culpa quando uma música descreve a realidade de um lugar violento, de quem canta ou do lugar?
O debate não tem resposta simples, mas ajuda a entender por que o drill é tão marcante. Ele nasceu como crônica de bairros esquecidos, foi tratado como caso de polícia e, mesmo assim, chegou ao topo das paradas em vários países. Essa trajetória, da margem ao centro, é a mesma que o hip hop brasileiro percorreu desde os anos 1980.
Como fazer um beat de drill
Para quem produz, o drill tem algumas regras que ajudam a chegar no som. Não é uma receita fechada, mas o ponto de partida mais comum entre os produtores é este:
- Andamento: comece por volta de 140 BPM. O UK drill costuma ficar entre 138 e 142, e o de Nova York pode passar um pouco disso.
- Caixa no terceiro tempo: é ela que dá a sensação de meio-tempo. Muitos produtores alternam a posição da caixa entre dois compassos para criar o balanço arrastado.
- Hi-hats quebrados: em vez de um rolo contínuo, use rajadas curtas, pausas e acentos fora do tempo. Os vazios fazem parte do groove.
- 808 deslizante: programe o grave para deslizar entre algumas notas, mas com propósito. Slide demais deixa a batida confusa.
- Melodia sombria: piano, cordas ou coral em tom menor criam o clima. Menos notas costumam funcionar melhor.
Quem não produz pode encontrar beats de drill prontos em lojas online, em licença comum ou exclusiva. Antes de comprar, leia o contrato com atenção: muitas licenças limitam o número de streams e podem gerar problemas de direitos no YouTube se o mesmo beat for vendido para outros artistas. O vocabulário das ruas que aparece nas letras de drill, de funk e de trap está no nosso guia de gírias do rap, do funk e da quebrada.
Perguntas frequentes sobre drill
O que é drill no rap?
Drill é um subgênero do rap que nasceu em Chicago, nos Estados Unidos, por volta de 2010, e se espalhou para Londres, Nova York e o Brasil. Tem batida sombria, por volta de 140 batidas por minuto, hi-hats quebrados, graves que deslizam entre as notas e letras cruas sobre a vida nas ruas e rivalidades entre grupos.
O que significa drill?
Em inglês, drill quer dizer furadeira ou treinamento, mas no rap a palavra veio da gíria de Chicago. Segundo rappers da cena, drill estava ligada a atirar e atacar rivais, e o termo é atribuído ao rapper Pac Man, do bairro conhecido como Dro City. Com o tempo, passou a nomear o estilo musical inteiro.
Qual a diferença entre drill e trap?
Os dois usam o grave 808 e andamentos parecidos, mas o drill tem hi-hats quebrados, com pausas e acentos fora do tempo, enquanto o trap usa hi-hats contínuos e rápidos. No drill, o grave desliza entre as notas, e a caixa costuma cair no terceiro tempo, dando sensação de meio-tempo. O clima do drill também é mais sombrio.
Quem criou o drill?
O drill não tem um criador único. Ele nasceu na zona sul de Chicago no início dos anos 2010. O termo é atribuído ao rapper Pac Man, morto em 2010, e King Louie é apontado como um dos fundadores do som. Chief Keef foi quem levou o estilo ao grande público, com a música I Don’t Like, de 2012.
Quem são os artistas de drill brasileiros?
O baiano Vandal é apontado como pioneiro do drill no Brasil, ainda nos anos 2010. Depois, Leall e L7nnon ajudaram a popularizar o estilo no eixo Rio-São Paulo, e artistas como MC Poze do Rodo, Orochi e MC Cabelinho gravaram faixas no gênero. A cena também se mistura com o grime e o funk.
O que é UK drill?
UK drill é a versão britânica do drill, nascida no bairro de Brixton, no sul de Londres, a partir de 2012. Misturou o drill de Chicago com o grime e criou o grave deslizante que virou marca do gênero. O grupo 67 ajudou a definir o som, que depois chegou a Nova York e ao Brasil.





