Catorze anos depois de entrar na GR6, Mc IG vai sair pela mesma porta. Foi ele quem escolheu a imagem, e ela já mostra o tom da despedida. A saída de Mc IG da GR6 vale a partir de 4 de janeiro e encerra o vínculo de um funkeiro com 13,7 milhões de ouvintes mensais no Spotify, autor de faixas como “Pau Pra Toda Obra” e “Mente Barulhenta”.
O anúncio saiu na quarta-feira (28), num texto longo publicado no Instagram, ao lado de uma foto do começo da carreira. Junto com a gravadora, editora e produtora, IG também encerra a parceria com a 4M Records. Já o que vem depois está definido: as empresas próprias Gringos World e Blessed Boss são a prioridade de 2027, e há um álbum novo em preparação.
Uma despedida sem ruído
O texto de IG soa como agradecimento, e não como comunicado de ruptura. Ele cita DJs, MCs e equipes inteiras que fizeram parte de mais de dez anos de caminhada e nomeia cinco pessoas: Gugu, Rodrigo, Dentinho, PH e Kevin. Quem acompanha o mercado do funk sabe que saídas de casting nem sempre acontecem com tanta elegância. Nas palavras divulgadas, não aparece nenhum sinal de atrito.
Estou saindo pela mesma porta que entrei 14 anos atrás e acredito que isso seja o mais importante e satisfatório.
Mc IG
A frase sustenta o resto do texto. Entrar e sair pela mesma porta é a forma que IG encontrou de dizer que o ciclo se fechou sem quebra. Na sequência, ele reconhece o que a GR6 representou: foi lá que viveu momentos que mudaram sua vida, conquistou coisas que sonhava e pôde dar mais conforto à família.
O fim da parceria com a 4M Records, no mesmo movimento, indica uma reorganização completa. A leitura mais direta é a de uma carreira artística e uma operação de negócios que passam a girar em torno das empresas dele, e não mais de estruturas de terceiros.
Catorze anos é muito tempo em qualquer ramo. No funk, onde um hit pode nascer e morrer em uma temporada, equivale a quase uma geração inteira. Ficar tanto tempo no mesmo casting e sair com a casa em paz muda o peso desse movimento: IG não é o tipo de artista que estoura e troca de selo na primeira proposta melhor.
O que são a Gringos World e a Blessed Boss
A Gringos World foi fundada em 2021 e hoje cuida da carreira do próprio IG e de um elenco que inclui MC Lele JP, TrapLaudo, Nego Micha, Neguinho PRT, DJ TC, DJ Hyago, Menor Wil e JV MC. A lista mistura MCs e DJs, o que revela uma estrutura que não depende apenas da voz do dono.
A Blessed Boss tem função mais específica. É o braço voltado à expansão internacional, com a proposta de aproximar artistas brasileiros do mercado global.
O caso de MC Lele JP é a vitrine dessa proposta. Em negociação conduzida por IG, Lele assinou com a distribuidora norte-americana Vydia, num acordo avaliado em US$ 4 milhões, cerca de R$ 22 milhões na cotação da época. Sob a gestão de IG, Lele também ampliou a presença fora do Brasil e já se aproxima de 1 bilhão de streams só no Spotify.
Contrato desse tamanho com uma distribuidora dos Estados Unidos, somado a uma marca forte no Spotify, muda a conversa. Quando um empresário chega à mesa de negociação com esses números no portfólio, outros artistas e parceiros passam a ouvi-lo de outro jeito.
Guilherme Sérgio Ramos de Souza assume o volante
Com a mudança, IG vai dar mais espaço à persona de Guilherme Sérgio Ramos de Souza, seu nome de batismo, ao intensificar o trabalho como empresário. As duas empresas miram o desenvolvimento de artistas e a expansão internacional, e é nesse eixo que ele concentra a energia em 2027.
A escolha acompanha um movimento visível na cena: o artista que chega ao topo e decide ser dono da estrutura, em vez de apenas ocupar o casting dela. IG faz isso com ativos concretos, uma empresa de 2021 com elenco montado e um acordo de US$ 4 milhões no histórico, e não com um projeto no papel. Por isso, a saída de Mc IG da GR6 parece menos um ponto final e mais uma troca de cadeira.
Agora começa uma nova etapa, com muita vontade de continuar fazendo história. O futuro é logo ali, e eu tô pronto para tudo que vem pela frente.
Mc IG
A fala é curta e não promete nada específico. Pode ser justamente essa a lógica: quem tem duas empresas rodando e um disco em produção não precisa recorrer a slogan.
O álbum e o primeiro ano por conta própria
O álbum novo está em preparação, e a notícia não traz título, data nem participações. O que se sabe é que IG volta ao estúdio e ao escritório ao mesmo tempo, dois trabalhos que disputam a mesma agenda. Para um artista com 13,7 milhões de ouvintes mensais, o disco segue como a peça que mantém o nome vivo no streaming, e a empresa precisa de um dono com o nome aceso.
Em 4 de janeiro, o nome de IG deixa o casting da GR6. Enquanto isso, Lele JP corre para a marca de 1 bilhão de streams sob a gestão dele, e o próprio IG chega ao novo ciclo sem a estrutura que o acompanhou por catorze anos. A pergunta concreta é se ele consegue aplicar ao próprio disco o mesmo método que usou no contrato de US$ 4 milhões de Lele. Quando o álbum chegar, o público vai ouvir a resposta, e o mercado vai fazer a conta.





