“Amanhã é 13” é a frase que fecha o texto, e ela chega com o peso de quem demorou a falar. Na véspera da eleição presidencial de 2026, Matuê tornou público nas redes sociais o voto em Luiz Inácio Lula da Silva. A postagem é de 3 de outubro, um dia antes de as urnas abrirem.
O texto começa pelo atraso. Matuê admite que demorou a se posicionar e avisa que não quer ver o silêncio lido como indiferença. Num país que cobra posição de quem tem alcance, a escolha de falar só na reta final tem peso próprio: ele não correu atrás do assunto, esperou, e quando abriu a boca foi para dizer onde estava e por quê.
Sei que meu posicionamento público demorou, mas não quero deixar que meu silêncio seja confundido com indiferença. Nesse momento decisivo, às vésperas da eleição, quero deixar claro onde estou e por quê.
Matuê
O “por quê” vem em forma de lista de valores, não de plano de governo. Matuê cita respeito ao próximo, igualdade de gênero, combate ao racismo e à homofobia, enfrentamento da desigualdade social, valorização da cultura e dignidade para todos. No que foi divulgado, não há menção a política pública, programa ou medida específica. A justificativa é moral e de pertencimento, e isso define o tipo de aposta: o voto de Matuê em Lula é declarado como defesa de uma ideia de país, não como avaliação de gestão.
Quem acompanha o trap nacional sabe que o gênero costuma tratar política de forma lateral, entre uma rima de origem e outra de conquista. É leitura minha, não dado, mas ela ajuda a medir o movimento. Quando um nome do estilo escreve um texto inteiro sobre racismo, homofobia e desigualdade e termina com número de urna, ele sai do território da rima e entra no do posicionamento público.
Apoio com cobrança embutida
A parte mais calculada da declaração é a que impede Matuê de virar cabo eleitoral sem ressalva. O voto de Matuê em Lula, ele deixa escrito, não equivale a aprovar tudo o que o candidato faz ou defende.
Não vejo um candidato perfeito, e apoiar não significa abrir mão da crítica ou deixar de cobrar.
Matuê
A ressalva funciona como seguro. Quem declara voto na véspera costuma ouvir de um lado que virou militante e do outro que está se preparando para a decepção. Ao escrever que mantém o direito de cobrar, Matuê fixa a regra antes que ela seja usada contra ele. E como Lula é o atual presidente, a cobrança tem alvo concreto: um governo em exercício, não uma promessa de campanha.
Do outro lado da balança está a avaliação sobre a direita. Segundo Matuê, o projeto desse campo representa um retrocesso cultural e social para o Brasil, e ele diz não conseguir apoiar um caminho que contraria aquilo em que acredita. Repare que a crítica mira o projeto, não pessoas nem candidatos citados pelo nome. O argumento reaproveita os mesmos eixos da lista de valores: cultura, sociedade, dignidade. O texto fecha o próprio círculo.
Lido em sequência, o post segue uma ordem que parece pensada. Primeiro a explicação do atraso, depois os valores, depois a ressalva, depois o contraponto com a direita e por fim o slogan. Cada bloco responde a uma pergunta que o seguidor faria: por que só agora, por que Lula, ele aprova tudo, e o que pensa do outro lado. É texto de quem sabia que seria cobrado e preferiu responder antes.
Reta final, voz própria
O último trecho é o mais seco. “Amanhã é 13 PORRA”, em caixa alta, com uma estrela ao lado. A linguagem é a de perfil pessoal, não a de nota passada por assessoria, e manter o palavrão deixa a mensagem com cara de quem escreveu sozinho. O 13 é o número de Lula na urna, então a frase serve de lembrete e de bandeira ao mesmo tempo.
O voto de Matuê em Lula o coloca entre os nomes do rap nacional que declararam publicamente o voto na eleição presidencial de 2026. O momento pesa. Na reta final, campanhas e apoiadores aumentam o volume, e uma declaração feita no último dia fala menos para o debate e mais para quem já está decidindo, seja o fã indeciso, seja o seguidor que esperava saber de que lado o artista estava.
A pauta que ele enumera, racismo e desigualdade, é a mesma que Racionais MC’s, Emicida e Djonga colocaram em rima por anos. A diferença está no formato: ali era faixa, aqui é post de véspera, com data e hora. Faixa deixa margem para metáfora e personagem. Post não deixa. Quem escreve “onde estou e por quê” assume a autoria de cada palavra, e o público vai ler assim.
O texto de Matuê traz uma cláusula que ele mesmo redigiu e que o público pode usar a favor ou contra ele: apoiar não exclui cobrar. Na véspera, a frase soa como ressalva. Depois da apuração, vira compromisso sem prazo de validade. O alvo dessa cobrança já está definido, porque Lula é o atual presidente. O que ainda está em aberto é o formato: a cena vai observar se Matuê cobra em rima, em post ou se volta ao silêncio que ele mesmo disse não querer que fosse confundido com indiferença.





