Em 7 de setembro de 1996, pouco depois da luta entre Mike Tyson e Bruce Seldon, quatro tiros atingem Tupac. Seis dias depois, ele morre no University Medical Center of Southern Nevada, aos 25 anos. Quase 30 anos depois, essa cena finalmente vai parar diante de um júri.
Nesta segunda-feira, dia 10 de Agosto, começou em Las Vegas a seleção dos jurados para o julgamento da morte de Tupac Shakur, processo que tem como único réu formalmente acusado Duane “Keffe D” Davis. Ele se declarou inocente e está preso desde 2023, quando foi indiciado após décadas de um caso que ficou sem responsável oficial.
A demora não é detalhe menor. Gerações de fãs cresceram ouvindo teorias, documentários e podcasts sobre quem apertou o gatilho naquela noite. Agora, pela primeira vez, existe um nome, um rosto e uma data de audiência.
Quem é Duane “Keffe D” Davis
Davis é ex-integrante de uma gangue de Compton, na Califórnia, e tio de Orlando Anderson, nome que circulou por anos como suspeito na morte de Tupac sem nunca ter sido indiciado. Anderson morreu em 1998, em outro tiroteio, levando junto qualquer possibilidade de resposta direta dele sobre o caso.
Coube a Davis, então, o papel de único acusado vivo e formalmente processado. Segundo os promotores, ele teria participado do planejamento do ataque depois de uma briga entre integrantes de grupos rivais, providenciado a arma usada no crime e organizado o veículo de onde partiram os tiros. A defesa nega o envolvimento direto e sustenta que Davis não foi quem disparou contra o rapper.
Essa distinção entre planejar e executar é justamente o que promete puxar o processo para semanas de audiências. Casos de gangue costumam ter essa estrutura hierárquica: quem articula o ataque não é necessariamente quem aperta o gatilho, e isso vira terreno fértil para disputa jurídica.
A noite em que Tupac foi baleado
Tupac estava em Las Vegas acompanhado de gente da Death Row Records, incluindo o próprio Suge Knight. Depois de assistir à luta de Tyson contra Seldon, o grupo saiu do local no BMW dirigido por Knight. Foi nesse trajeto que o Cadillac branco se aproximou e um dos ocupantes abriu fogo.
O rapper foi internado, resistiu por alguns dias e morreu em 13 de setembro de 1996. A partir daí o caso entrou numa espécie de limbo investigativo que durou quase três décadas, alimentado por depoimentos contraditórios, silêncio de testemunhas e a complexidade de investigar crimes ligados a gangues da Costa Oeste naquele período.
O próprio Davis contribuiu, sem querer, para reabrir o processo. Ao longo dos anos ele falou publicamente sobre o episódio em entrevistas e materiais que circularam nas investigações, mencionando detalhes do grupo envolvido no conflito daquela noite. Esse material voltou a ganhar peso quando as autoridades reuniram evidências suficientes para justificar a prisão de 2023.
O que muda agora com a seleção do júri
A etapa que começou em Las Vegas é a seleção dos jurados, responsáveis por acompanhar as provas apresentadas ao longo do julgamento e, depois, decidir o desfecho do caso. A expectativa é que acusação e defesa apresentem versões opostas sobre o que de fato aconteceu naquela noite de setembro.
Entre os elementos que devem entrar em cena estão as próprias declarações de Davis feitas ao longo dos anos, somadas ao conjunto de informações reunidas pela investigação que resultou na prisão dele. É um material acumulado por quase 30 anos, o que torna esse julgamento diferente de praticamente qualquer outro caso de assassinato: aqui, o tempo não apagou provas, ele as empilhou.
Um dos casos mais discutidos da história do hip-hop
A morte de Tupac Shakur é, sem exagero, um dos episódios criminais mais comentados da história do gênero. Passou décadas sem acusado formal, o que abriu espaço para teorias envolvendo rivalidades de gravadora, disputas entre costa leste e costa oeste e até especulações sobre a sobrevivência do próprio rapper, que nunca tiveram sustentação real.
Tupac deixou uma discografia que ainda define parâmetro de composição no rap, com faixas como “California Love”, “Changes” e “Dear Mama” atravessando gerações que nem chegaram a viver os anos 1990. Foi ele quem transformou letra de rua em material de arquivo cultural, algo que hoje qualquer MC brasileiro que fala de favela, mãe e sobrevivência carrega como referência direta ou indireta.
Por isso o julgamento da morte de Tupac Shakur vai além dos limites de um tribunal em Las Vegas. Ele reabre, para uma nova geração de ouvintes, um capítulo que boa parte só conheceu por meio de documentários e teorias de internet. Agora existe processo, existe réu, existe data.
O que sair dessa sala de audiência não vai devolver Tupac, mas pode fechar a pergunta que persegue o hip-hop desde 1996, ou reabri-la com ainda mais força: quem realmente decidiu que aquela noite em Las Vegas terminaria daquele jeito.





