Nosso Canto: MC Hariel regrava Charlie Brown Jr em projeto que une rap e negócios

Clássico do Charlie Brown Jr ganha as ruas no novo clipe de MC Hariel para a série "Nosso Canto" do Sebrae.

Uma barbearia no Grajaú, extremo sul de São Paulo, serve de cenário para o eco de um dos maiores hinos de superação da música brasileira. O barulho da máquina de cortar cabelo se confunde com a introdução de um clássico dos anos 2000. Ali dentro, o funk e o rap encontram o legado do rock nacional para contar uma história que o público da periferia conhece de cor: a correria para fazer o próprio negócio vingar.

A chegada de “Dias de Luta, Dias de Glória” na voz de um dos principais nomes da música urbana atual faz parte do projeto Nosso Canto, uma iniciativa audiovisual do Sebrae que conecta canções consagradas a trajetórias de microempreendedores pelo Brasil. A releitura ganhou as telas com o novo clipe de MC Hariel, que transpõe a poesia de Chorão para a realidade dos negócios de quebrada.

O peso de Chorão na voz da favela paulista

A escolha do repertório não é um mero exercício de nostalgia comercial. O Charlie Brown Jr sempre operou em uma frequência muito próxima do rap e do funk de São Paulo, usando o skate e a vivência de rua como crônica social. Quando o MC Hariel assume os versos escritos por Chorão, a transição soa natural porque o artista carrega a mesma assinatura de cronista da realidade periférica.

O clipe foi rodado na Barbearia Homens de Preto, um empreendimento impulsionado pelo Sebrae na zona sul paulistana. O audiovisual funciona de forma casada com um mini documentário, costurando a performance musical aos depoimentos reais dos donos do comércio. Essa estrutura tira a produção do campo do entretenimento vazio e joga luz sobre o ecossistema econômico das bordas da cidade, onde abrir uma empresa é, antes de tudo, uma estratégia de sobrevivência e emancipação.

Diferente da primeira entrega da série, onde a cantora Ajulliacosta reinterpretou Raul Seixas em um centro cultural de Ceilândia, no Distrito Federal, a passagem pelo Grajaú traz uma estética mais crua, cinzenta e puramente paulistana. O contraste entre os dois episódios mostra a versatilidade da proposta, que pretende mapear cinco regiões e realidades distintas ao longo de sua duração.

A música urbana como motor de faturamento e identidade

A presença de grandes nomes do funk e do rap em campanhas institucionais reflete uma mudança estrutural no mercado publicitário e de fomento. Artistas que antes eram marginalizados pelos grandes orçamentos hoje lideram as métricas de engajamento e conversão de público. O novo clipe de MC Hariel demonstra como as marcas entenderam que, para dialogar com o trabalhador autônomo brasileiro, é preciso falar a língua da rua.

A Barbearia Homens de Preto representa os milhares de negócios que movimentam as periferias brasileiras todos os dias. Ao transformar esse espaço em palco, o projeto Nosso Canto inverte a lógica tradicional dos videoclipes de ostentação, trocando os cenários luxuosos e importados pela estética do trabalho formal e do crescimento orgânico.

O impacto dessa regravação também mexe com o catálogo do rock nacional. Ao trazer uma obra de 2006 para o ambiente do streaming de 2026, a produção apresenta o Charlie Brown Jr para uma nova camada de ouvintes que consome o funk consciente de São Paulo, criando uma ponte temporal e estética entre duas gerações que compartilham as mesmas dores e ambições.

NARDONI

NARDONI

Carioca que não gosta de praia, apreciador de café e água com gáix, criador da RAP MÍDIA.

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