O ano de 2026 mal começou e a cena do rap nacional já recebe um impacto profundo vindo diretamente do Paraná. A união de três nomes fundamentais para a cultura urbana culminou no lançamento de “Poeta Criminal”, um álbum que não apenas cumpre as expectativas, mas redefine a urgência do discurso periférico na atualidade.
Mano Fler, Pateta Código 43 e DJ Samu uniram forças para entregar um projeto que transpira vivência, técnica e uma fidelidade inabalável às raízes do movimento hip-hop, consolidando-se como um dos registros mais autênticos desta temporada.
O trabalho chega em um momento de transição na música urbana, onde o apelo comercial muitas vezes atropela a profundidade lírica. No entanto, “Poeta Criminal” segue o caminho inverso, apostando na densidade das narrativas e na construção de uma atmosfera que remete aos grandes clássicos do gênero.
A sinergia entre os MCs é evidente em cada uma das dez faixas inéditas, onde a caneta afiada de Mano Fler encontra o flow certeiro de Pateta Código 43, tudo isso amarrado pela curadoria sonora impecável de DJ Samu.
A estética sonora de Poeta Criminal entre o Boom Bap e o Gangsta Rap
Musicalmente, o álbum “Poeta Criminal” é uma ode à sonoridade que moldou o caráter do rap brasileiro nas últimas décadas. A produção foge dos modismos passageiros para se concentrar na força do Boom Bap e na imponência do Gangsta Rap.
O trabalho de DJ Samu merece um destaque especial, pois suas batidas não servem apenas como pano de fundo, mas como um elemento narrativo fundamental. Os scratches precisos e as colagens bem executadas trazem uma textura orgânica que transporta o ouvinte para a era de ouro do rap, sem deixar de soar atual e necessária para o contexto de 2026.
Essa escolha estética não é por acaso, pois reflete a identidade do trio paranaense, que sempre priorizou a mensagem em detrimento das fórmulas prontas do mainstream.
Em “Poeta Criminal”, o grave bate pesado para sustentar rimas que exigem atenção. É uma sonoridade crua, projetada para ecoar nos fones de ouvido nas quebradas e nos sistemas de som dos carros, mantendo viva a tradição das ruas. A produção musical consegue equilibrar momentos de agressividade sonora com passagens mais contemplativas, garantindo que o álbum seja ouvido do início ao fim sem perder o fôlego.
Crônicas da realidade urbana e o impacto social das letras
O título “Poeta Criminal” já antecipa o dualismo presente nas letras. De um lado, temos a sensibilidade artística de quem observa o mundo através da poesia; do outro, a crueza de uma realidade frequentemente marginalizada pelo sistema.
As dez faixas do projeto funcionam como crônicas detalhadas sobre o cotidiano das periferias, abordando temas complexos como a resistência social, as falhas do sistema prisional e os constantes desafios impostos pela violência institucional. Mano Fler e Pateta Código 43 demonstram uma maturidade invejável, utilizando suas rimas como ferramentas de denúncia e reflexão.
Não se trata apenas de entretenimento, mas de um documento histórico sobre as dinâmicas sociais brasileiras. “Poeta Criminal” mergulha nas dificuldades da sobrevivência, mas também celebra a lealdade e a resiliência de quem faz do hip-hop o seu escudo.
A escrita humanizada dos artistas permite que o público se identifique com as histórias narradas, transformando o álbum em uma voz coletiva para aqueles que muitas vezes são silenciados. É um trabalho que exige uma escuta atenta, pois cada verso carrega o peso de experiências reais vividas em primeira pessoa pelos protagonistas da obra.
A força do hip-hop independente e a conexão com o lifestyle
A viabilização de um projeto com a magnitude de “Poeta Criminal” também destaca a importância das alianças dentro da cultura urbana. O apoio da marca Chronic reforça como a moda e a música caminham lado a lado na construção de um estilo de vida que vai além das plataformas de streaming.
Essa conexão entre os artistas e marcas que verdadeiramente compreendem a essência do movimento é o que garante a independência e a longevidade de carreiras sólidas no rap paranaense. O álbum já está disponível em todas as plataformas digitais, desde o Spotify até o YouTube, e rapidamente se tornou um tópico central nas discussões sobre os rumos do rap nacional este ano.
Ao final da audição, fica claro que “Poeta Criminal” é mais do que um simples disco de colaboração. É uma reafirmação de princípios de três artistas que respeitam o legado do gênero enquanto constroem o futuro da cena.

