O rapper L7nnon resolveu falar de um assunto que quase ninguém no topo do rap brasileiro costuma tocar. Em um vídeo publicado no seu Instagram, o carioca transformou a reflexão em rima e ainda deixou no ar que fala de dentro da própria experiência. O recado circulou rápido e dividiu a caixa de comentários entre quem se identificou e quem estranhou ver o tema escancarado por um artista desse porte.
Nascido Lennon dos Santos Barbosa Frassetti e criado em Realengo, na Zona Oeste do Rio, L7nnon construiu sua carreira falando de ostentação, superação e das ruas que o formaram. Justamente por isso o desabafo pesou diferente. Não era um recado qualquer sobre disciplina. Era um dos nomes mais ouvidos do país mirando um comportamento que a maioria prefere fingir que não existe.
O desabafo que virou rima
Fiel ao ofício, L7nnon não fez um discurso. Fez versos. Ele começou refletindo sobre a responsabilidade que sente ao alcançar cada vez mais gente e sobre o peso que passou a colocar nas próprias letras.
As pessoas de onde eu venho tiram foto até com o carro que eu piloto. E para eles, eu vivo em outro mundo. Eu já entendi que meus versos têm que ter conteúdo.
Disparou logo no início.
Foi a partir daí que ele chegou ao ponto central. O rapper conectou a antiga imagem de luxo à ideia de que amadureceu e passou a enxergar prioridades diferentes. “Eu falei de iate, só que depois do hiato se aprende muito. Não é sobre ostentação, minha intuição é outro assunto”, continuou, antes de fazer o apelo mais direto da publicação: “Crianças, parem de consumir conteúdo adulto. Adultos, parem de produzir o mesmo. Pornografia vicia e destrói teus desejo”.
A frase que virou manchete resume bem o tom. Longe de moralismo, o artista tratou o consumo excessivo de conteúdo adulto como uma armadilha que corrói algo íntimo, o desejo e a própria capacidade de imaginar.
“Olho para você e me vejo”: o recado pessoal
O momento que mais mexeu com os seguidores veio quando L7nnon deixou de falar no plural e apontou para dentro. Ao descrever aonde o hábito pode levar, ele se colocou na mesma equação. “Tua imaginação vai virar um abismo tão profundo. E quando eu falo isso, olho para você e me vejo”, lamentou o cantor.
A escolha das palavras não foi por acaso. Em vez de posar de exemplo, o rapper se colocou lado a lado com quem o assiste. Ele reforçou que costuma dividir reflexões que valem primeiro para a própria vida.
Eu costumo dizer que todo papo que eu quero passar para alguém, ele serve primeiramente para mim. Até porque eu não entendo mais da vida que ninguém, eu não sou mais evoluído que ninguém.
Concluiu, tirando qualquer ar de sermão da fala.
Esse detalhe é o que dá força ao vídeo. Ao admitir que também aprende com o próprio conselho, L7nnon transformou uma advertência em confissão, e confissão sempre soa mais real do que lição de moral.
Por que o assunto pegou a cena de surpresa
Pornografia raramente aparece como pauta na boca de um artista do tamanho de L7nnon. O rap, aliás, historicamente flertou com o sexo como símbolo de status e liberdade. Ver um dos maiores nomes do gênero apontar o consumo desenfreado de conteúdo adulto como um problema, e não como troféu, quebra uma expectativa que o próprio meio ajudou a criar.
A reação nos comentários mostrou que o nervo estava exposto. Muita gente relatou dificuldade de tratar o tema entre amigos sem virar chacota.
As pessoas normalizam um assunto sério, tratam como algo que compõem a masculinidade. Digo o contrário. Pornografia é vício.
Escreveu um seguidor.
Outra reforçou o lado psicológico: “A pornografia aprisiona antes a mente do que os olhos. Espiritualmente, ela enfraquece a consciência”.
Essas respostas ajudam a entender por que a publicação viralizou. Não foi só o peso do nome que assinou o recado. Foi o alívio coletivo de ver alguém com alcance colocando palavra em algo que muita gente sente e cala.
O que costuma estar por trás do hábito
A fala do rapper conversa com o que especialistas vêm apontando sobre o consumo compulsivo de conteúdo adulto. A lógica é parecida com a de outras dependências. O estímulo visual intenso dispara dopamina, o neurotransmissor ligado ao prazer imediato, e, com a repetição, o cérebro passa a exigir doses cada vez maiores para sentir o mesmo efeito. Daí a sensação de “abismo” que L7nnon descreveu na rima.
O impacto vaza para além da tela. Dificuldade de concentração, isolamento, relações afetivas mais frias e uma percepção distorcida da intimidade real estão entre os efeitos mais citados quando o consumo escapa do controle. Quando o rapper fala em desejo destruído, ele traduz em linguagem de rua algo que a ciência descreve com outras palavras, a perda de sensibilidade diante do que antes bastava.
Um artista acostumado a transformar dor em arte
Não é a primeira vez que L7nnon usa a arte para falar do que dói. O mesmo cara que emplacou “Freio da Blazer”, “Ai, Preto” e “Desenrola, Bate, Joga de Ladin” também construiu uma trajetória marcada por superação e pela vontade de representar quem vem da periferia. Em 2020, o álbum Hip Hop Rare o consolidou de vez, e três anos depois ele batizou a própria gravadora com o mesmo nome, apostando em novos talentos da cena.
Mais recentemente, o rapper ampliou o próprio território ao estrear como ator em Dona de Mim, na TV Globo, vivendo Ryan, um ex-detento em busca de recomeço. O papel dialoga com uma marca antiga do artista, a de dar rosto e voz a quem tenta virar a página. O desabafo sobre pornografia entra nessa mesma linha. É L7nnon fazendo o que sempre soube fazer, pegar uma ferida silenciosa e colocá-la no verso, para que outra pessoa se reconheça e, quem sabe, encontre uma saída.
No fim, o que ficou não foi o choque da palavra “destrói”, mas o convite embutido nela. Um dos maiores rappers do Brasil olhou para a própria sombra, admitiu que também tropeça e usou o alcance que tem para dizer, sem rodeios, que dá para conversar sobre isso.





