Eduardo Taddeo e a extrema direita: a crítica aos 1,9 milhão de votos

Com 1.956.238 votos, Eduarda Campopiano (PL) virou a deputada estadual mais votada de São Paulo. Rapper questiona a coerência do eleitor que pede segurança e apoia quem nega direitos.
Eduardo Taddeo e a extrema direita

Foram 1.956.238 votos. Com esse número, Eduarda Campopiano (PL), de 23 anos, virou a deputada estadual mais votada de São Paulo em 2026, e a conta, para Eduardo Taddeo, não fecha. O rapper reagiu à eleição com um desabafo que mira o eleitor da extrema direita e a contradição que ele enxerga entre pedir segurança pública e apoiar quem, na avaliação dele, trabalha contra direitos humanos e pautas sociais.

Taddeo não citou o nome de Campopiano. Falou de “aquele” que virou recordista de voto, e o contexto da fala, que circulou em 8 de outubro de 2026 em um post do portal Rap Dab, é a eleição da parlamentar para a Assembleia Legislativa. O embate entre Eduardo Taddeo e a extrema direita ganhou assim um alvo indireto, mas com número exato na mesa.

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A pergunta que Taddeo devolve ao eleitor

A estrutura do raciocínio é simples e, por isso mesmo, eficiente. Ele parte de uma premissa que atravessa o debate eleitoral brasileiro há muito tempo: a sociedade quer segurança pública, progresso, desenvolvimento. E então cobra a explicação.

Se a sociedade quer segurança pública, progresso, desenvolvimento, então explica pra mim: por que tornar recordista de voto aquele que tem a mão suja com sangue chancelado pelo boletim de ocorrência duvidoso da morte decorrente de intervenção policial?

Eduardo Taddeo

Repare onde ele coloca o foco. A pergunta não é dirigida à candidata, e sim a quem votou nela. Taddeo troca o ataque pessoal por uma cobrança de coerência ao eleitorado, um movimento que costuma incomodar mais do que o xingamento direto, porque obriga o interlocutor a se justificar.

Existe um ponto que precisa ficar claro. O material de origem não detalha a qual caso de morte por intervenção policial o rapper se refere, e este texto não vai preencher essa lacuna. O que está registrado é a fala, com a carga que ela tem, e a leitura de que ela responde à votação da deputada.

Na sequência, Taddeo abriu o leque. Citou “quem nega o feminicídio”, quem é contra os direitos conquistados pelas feministas, quem defende a jornada extenuante e quem se opõe às políticas públicas voltadas para a periferia. A lista junta pautas de mulheres, de trabalhadores e de quebrada num mesmo bloco, o que revela o lugar de onde ele fala.

Quem é a deputada mais votada de São Paulo

Eduarda Campopiano se apresenta publicamente como antifeminista. Durante a campanha, adotou posições contrárias a determinadas pautas feministas e questionou a tipificação do feminicídio. Segundo o material de origem, ela já afirmou ser contra projetos de criminalização da misoginia e da tipificação específica do feminicídio, além de se posicionar contra o aborto e contra algumas políticas de cotas.

É um perfil que explica por que a reação de Taddeo pegou tantos temas de uma vez. Cada posição atribuída à parlamentar toca num debate que o rap brasileiro conhece de perto: violência de gênero, acesso à universidade, desigualdade racial e social. Quem cresceu ouvindo letra de periferia sabe que cota e política pública não são abstrações.

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Do outro lado, o óbvio precisa ser dito: ela foi eleita pelo voto, e quase dois milhões de paulistas escolheram seu nome. A crítica de Taddeo é política e legítima como debate, mas incide sobre uma escolha democrática, e é justamente aí que ele tenta fincar a discussão. O material de origem não registra resposta de Campopiano às declarações do rapper.

Paz, ditadura e a conta que vai chegar

Quando passou para o terreno da democracia, Taddeo endureceu o tom. Disse que é “no mínimo contraditório” querer a paz e optar pela ditadura, pela erradicação dos direitos humanos e das garantias fundamentais. E repetiu a construção, trocando o final: querer a paz e optar pelo discurso de ódio e pelo genocídio.

A repetição não é descuido. A anáfora funciona como recurso de quem aprendeu a escrever rima: a primeira frase apresenta a tese, a segunda crava. O vocabulário é pesado, e quem lê a fala inteira percebe que Taddeo escolheu palavras que não deixam espaço para meio-termo.

A conta vai chegar, pode ter certeza.

Eduardo Taddeo

A frase não diz quem paga, nem quando. Fica no ar como aviso de que as consequências das escolhas políticas de agora ainda serão sentidas pela sociedade, e é essa indefinição que dá a ela o peso de sentença.

O rap na rua e nas urnas

Taddeo não está sozinho no noticiário da semana. No mesmo ambiente de cobertura do Rap Dab, BK marcou presença no ato “Juventude na Rua pela Democracia”, no Rio de Janeiro, e MC Hariel declarou que a democracia está em risco e que nunca votaria em nenhum “Bolsonaro”. São trajetórias bem diferentes entre si, com públicos e linguagens distintos, e ainda assim os três aparecem no mesmo movimento de tomar posição depois do resultado das urnas.

Não há novidade em rapper falando de política. O rap brasileiro nasceu falando de violência policial, de periferia e de Estado ausente, e sempre foi lido, desde o início, como música de posicionamento. O que muda a cada eleição é o gatilho, e dessa vez o gatilho tem número: quase 2 milhões de votos numa candidata que se define como antifeminista.

Também muda o ambiente em que a fala circula. Um desabafo de rapper hoje vira post, corte e print em minutos, e chega a quem nunca ouviria o artista de outra forma. A crítica de Taddeo vive menos no verso e mais na capacidade de ser repetida como pergunta, aquela que qualquer um pode fazer ao vizinho no almoço de domingo.

E a pergunta continua de pé: se a promessa é segurança, o que explica a escolha de quem, nas palavras dele, nega o feminicídio e rejeita políticas para a periferia? Taddeo não deu o prazo da “conta”, mas deixou claro quem ele acha que vai receber a fatura. Os 1.956.238 votos já estão contabilizados, e o mandato de uma deputada de 23 anos vai produzir, projeto a projeto, os primeiros dados concretos para quem quiser conferir se a cobrança tem fundamento ou não.

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NARDONI

NARDONI

Carioca que não gosta de praia, apreciador de café e água com gáix, criador da RAP MÍDIA.

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