Um caminhão branco atravessa o asfalto. Na lateral da carroceria, o Trefoil da adidas — aquele trevinho de três folhas que é um dos logos mais reconhecíveis do mundo — divide espaço com a tipografia da Class, marca que saiu do ABC paulista para se tornar uma das etiquetas de streetwear mais respeitadas do Brasil. Nenhuma legenda. Nenhum comunicado. Só a imagem e o barulho que ela causou nas redes em questão de horas.
A collab ainda não foi confirmado oficialmente por nenhuma das partes. Mas os sinais acumulados nas últimas semanas já passaram do ponto em que alguém pode chamar de coincidência.
O que é a Class e por que essa parceria importa
Fundada por Eric César e Rafaela Sayuri, a Class é uma marca de streetwear que construiu sua identidade sobre referências que qualquer brasileiro que vive a rua conhece de cor: o copo americano dos botecos, a cultura de empinar pipa, o café com pão na padaria da esquina, o mascote da Chaves Gold.
Esse vocabulário hiperlocal, executado com um nível de qualidade visual que rivaliza com marcas internacionais, colocou a Class em uma posição rara no mercado nacional — uma etiqueta que não precisou imitar ninguém para ser levada a sério.


A marca nasceu do ABC paulista, território que carrega um peso histórico na cultura urbana brasileira, e foi construindo sua reputação de forma consistente ao longo dos anos. Hoje, falar em streetwear nacional sem citar a Class é deixar um buraco no mapa. A chegada de uma parceria com a adidas não é um salto no escuro — é o passo que a trajetória da marca sempre indicou que viria.
O Nox, o Megaride e a chuteira que virou ícone de rua
Além do caminhão, novas imagens começaram a circular com detalhes ainda mais reveladores. O personagem Nox — o felino que se tornou o rosto da Class, uma figura que mistura atitude urbana com a irreverência característica da marca — aparece nas artes calçando um Megaride S4 e segurando uma F50.
Para quem não acompanha o universo de tênis, vale entender o que esses dois objetos representam. O Megaride é um modelo da adidas que ressurgiu com força nos últimos anos depois de anos guardado no arquivo.
Criado originalmente como tênis de corrida nos anos 2000, ele tem uma entressola com túneis abertos visíveis — uma estrutura arquitetônica que ficou no imaginário coletivo de quem cresceu naquela época. Hoje é um dos modelos mais disputados da marca, presente em collabs de grife e no desfile da adidas no Rio Fashion Week de abril deste ano.
Já a F50 tem uma história diferente. Ela não nasceu como tênis — era uma chuteira de futebol, uma das mais leves e rápidas que a adidas já fabricou, usada em campos profissionais durante os anos 2000 e 2010. Ronaldinho Gaúcho, Messi, Kaká — todos calçaram alguma versão dela em algum momento.
A adidas resgatou o design recentemente e relançou o modelo como tênis lifestyle, transformando a chuteira de gramado em calçado de rua. Para um brasileiro que cresceu jogando bola de várzea, ver uma F50 nas mãos do mascote da Class é uma leitura imediata: esse drop fala de futebol, de rua e de identidade nacional ao mesmo tempo.
Colocar Nox exatamente nesses dois objetos não é escolha estética casual. É declaração de intenção sobre o que o Class x Adidas quer dizer enquanto produto e enquanto narrativa.


Cartas, mistério e a contagem regressiva que ninguém oficializou
O detalhe que praticamente encerrou o debate entre os mais céticos foi a correspondência física. Algumas pessoas próximas à Class receberam cartas — um movimento que, no universo das collabs de streetwear, costuma preceder o anúncio oficial por poucos dias. O conteúdo não foi totalmente revelado, mas o suficiente vazou para alimentar a certeza de que algo está prestes a sair.
A estratégia de guerrilha — o caminhão, as artes espalhadas, as correspondências seletivas — é completamente coerente com a forma como a Class sempre se comunicou: direta, sem intermediários, impossível de ignorar. A adidas, por sua vez, vem ampliando sua presença no streetwear brasileiro com uma consistência que talvez ainda não tenha recebido o crédito que merece.
A flagship Originals em Pinheiros, o desfile no Rio Fashion Week com direção criativa de Rafaela Pinah — profissional com raiz na periferia —, a coleção Copa do Mundo com curadoria nacional. São movimentos de uma marca que entendeu o Brasil não como mercado consumidor, mas como território criativo.
Escolher a Class como parceira é o passo seguinte nessa lógica. E para a marca do ABC, o peso é diferente — e maior. Poucas etiquetas brasileiras de streetwear chegaram a uma parceria com uma gigante global mantendo a identidade intacta. A collb Class x Adidas pode ser o movimento mais significativo do streetwear nacional nos últimos anos — não só pelo produto, mas pelo que representa para quem acompanhou a marca desde quando o ABC paulista ainda parecia longe demais do mapa das grandes collaborations internacionais.
O caminhão continua circulando. E enquanto o anúncio oficial não chega, o mercado já está calculando onde vai estar na fila.

