O ano de 2016 é frequentemente citado por estudiosos e entusiastas da cultura urbana como um dos períodos mais férteis e transformadores para o Rap Nacional. Foi o momento em que a transição entre o rap clássico e as novas tendências estéticas, como o trap e as misturas com o R&B contemporâneo, ganhou uma forma definitiva.
Ao olharmos para os álbuns do rap nacional de 2016 que agora celebram dez anos de existência, percebemos que essas obras não apenas envelheceram bem, mas se tornaram pilares para tudo o que foi construído na cena desde então.
BK’ – Castelos & Ruínas
O álbum de estreia solo de BK’ é, sem dúvida, um dos marcos mais profundos daquela safra. Castelos & Ruínas trouxe uma densidade lírica que há muito não se via no cenário carioca, elevando o nível das composições sobre a vida urbana, as conquistas e as perdas. As produções da Pirâmide Perdida garantiram uma sonoridade crua e sofisticada, consolidando BK’ como um dos maiores canetistas de sua geração e tornando este um dos mais importantes álbuns do rap nacional de 2016.
Tássia Reis – Outra Esfera
Tássia Reis entregou em Outra Esfera uma fusão magistral entre rap, jazz e neo-soul. O disco é uma celebração da autonomia e da subjetividade da mulher negra, trazendo temas como autocuidado, amor e resistência de forma elegante e contundente. Dez anos depois, a musicalidade deste projeto continua servindo de referência para artistas que buscam uma sonoridade mais orgânica e melódica dentro da cultura hip-hop.
Criolo – Ainda Há Tempo (Releitura)
Em 2016, Criolo decidiu olhar para o próprio passado para reafirmar suas raízes. A releitura de Ainda Há Tempo trouxe batidas modernas para letras escritas uma década antes, provando que a mensagem de Criolo é atemporal. Ao revisitar clássicos como a faixa-título, o artista lembrou ao público que a urgência social e a poesia das ruas de São Paulo permanecem centrais em sua obra, mesmo após o sucesso global.
Sabotage – Sabotage (Póstumo)
O lançamento do álbum póstumo e homônimo do Maestro do Canão foi um evento histórico. Produzido com um cuidado técnico impressionante por nomes como Daniel Ganjaman e Tejo Damasceno, o disco trouxe versos inéditos de Sabotage para o contexto sonoro contemporâneo. O projeto reafirmou a genialidade eterna do rapper e preencheu uma lacuna emocional para os fãs que aguardavam por novas rimas de uma das maiores lendas da nossa história.
Mano Brown – Boogie Naipe
Mano Brown surpreendeu o país ao deixar momentaneamente de lado o peso das crônicas dos Racionais MC’s para mergulhar no universo do funk, soul e disco. Boogie Naipe é uma obra de arte técnica, focada na musicalidade negra de pista e no romance urbano. A maturidade vocal de Brown e o refinamento da produção colocaram este disco em um patamar de excelência que poucos álbuns do rap nacional de 2016 conseguiram alcançar, mostrando a versatilidade do maior ícone do gênero.
Síntese – Trilha para o Desencanto da Ilusão, Vol. 1: AMEM
Neto, através do projeto Síntese, entregou um dos discos mais espirituais e intensos da década. Trilha para o Desencanto da Ilusão é um mergulho na consciência humana, explorando a dualidade entre a luz e as trevas. Com uma entrega vocal visceral, o rapper de São José dos Campos criou um clássico cult que ressoa profundamente em quem busca no rap um caminho de autoconhecimento e reflexão filosófica.
Rashid – A Coragem da Luz
Rashid consolidou sua carreira com um projeto que equilibra perfeitamente a técnica refinada com um apelo mais amplo. A Coragem da Luz trouxe participações de peso e uma produção que flertava com diversos elementos da música brasileira. O álbum reafirmou Rashid como um artista completo, capaz de transitar entre o underground e o mainstream sem perder a essência do lirismo que o consagrou desde as batalhas de rima.
Felp22 – Conteúdo Explícito pt. 1
O representante da banca Cacife Clandestino trouxe em seu trabalho solo uma prévia do que seria a dominação do trap no Brasil. Com flows acelerados e uma estética voltada para o lifestyle das ruas e das festas, Felp22 capturou o espírito da juventude da época. O álbum é um registro importante da transição rítmica que estava ocorrendo, servindo de base para a sonoridade que dominaria as paradas nos anos seguintes.
Rico Dalasam – Orgunga
Rico Dalasam fez história com Orgunga, o primeiro álbum de estúdio de um rapper assumidamente queer no Brasil. Mais do que um marco de representatividade, o disco é uma explosão de criatividade, misturando ritmos regionais com batidas eletrônicas e rimas sobre orgulho e identidade. A coragem de Rico em ocupar espaços tradicionalmente conservadores abriu portas fundamentais para a pluralidade que vemos hoje na cena.
Dexter – Flor de Lótus
O Oitavo Anjo encerra nossa lista com Flor de Lótus, um disco que simboliza a resiliência e a liberdade. Dexter, com sua voz imponente e autoridade de quem viveu o que rima, trouxe uma mensagem de esperança e superação. O álbum é uma crônica sobre a vida após o cárcere e a importância de manter a dignidade, reafirmando Dexter como um dos pilares morais e artísticos do rap brasileiro.
Estes álbuns do rap nacional de 2016 mostram que, há dez anos, a cena estava em plena ebulição, preparando o terreno para o fenômeno cultural que o rap se tornou hoje. Revisitar essas obras é respeitar o legado de quem pavimentou o caminho.

