Quem esperava ver o Plantão Festival desembarcar em São Paulo, no Rio de Janeiro ou em qualquer outro estado pode tirar o cavalinho da chuva. Em entrevista recente para os manos da 𝗟𝗬𝗥𝗜𝗖 𝗥𝗔𝗣𝗣𝗘𝗥𝗦, Matuê foi direto ao ponto e descartou qualquer possibilidade de levar o festival para fora do Ceará.
Para o rapper fortalezense, o Plantão Festival Fortaleza não é apenas um evento — é uma declaração de amor à cidade que o formou como artista e como ser humano.
“Isso aqui não é só um festival, é uma celebração pra nossa cidade, uma celebração do rap… é um símbolo pra nós e faço isso com muito orgulho”, declarou o artista, deixando claro que a fixação em Fortaleza vai muito além de uma estratégia de mercado.
É uma postura ideológica que atravessa toda a trajetória da 30PRAUM, gravadora independente que Matuê cofundou ao lado da empresária Clara Mendes e que, em 2026, completa dez anos de existência.
Marina Park: da plateia ao palco
O local escolhido para sediar o Plantão Festival Fortaleza carrega um peso simbólico que poucos espaços conseguem ter. O Marina Park, às margens da Beira Mar fortalezense, foi o mesmo palco onde Matuê, ainda jovem, acompanhava shows como mais um da plateia.
Frequentar aquele espaço fazia parte da sua formação cultural e da sua relação com a música. Hoje, ele retorna ao mesmo endereço não mais como espectador, mas como o nome principal de um festival que já se tornou referência nacional.
Essa virada de perspectiva — da arquibancada para o topo do line-up — diz muito sobre o que o Plantão representa para a cena urbana nordestina. Não é coincidência que o evento tenha escolhido um espaço com essa memória afetiva. É parte intencional da narrativa construída pela 30PRAUM ao longo dos anos: mostrar que o Nordeste tem história, tem estrutura e tem público para sustentar um festival de peso sem precisar do aval do eixo Rio-SP.
Três edições, um crescimento consistente
A primeira edição do Plantão Festival aconteceu em abril de 2023 e reuniu 20 mil pessoas presencialmente em Fortaleza, além de 60 mil espectadores simultâneos em live no YouTube.
O número já era expressivo para uma estreia, mas a trajetória do evento não parou por aí. Na segunda edição, em 2024, o festival bateu a marca de 30 mil pessoas nos dois dias de evento no Marina Park, consolidando o Plantão como um dos maiores encontros de rap e trap do Brasil.
A terceira edição, em 25 de abril de 2026, também no Marina Park, celebrou os dez anos da 30PRAUM e reuniu um line-up que inclui Matuê, Teto, Wiu, BK’, Ajuliacosta, Brandão, Alee, Ryu The Runner, Recayd Mob e TZ da Coronel — uma seleção que representa o que há de mais relevante no rap e trap nacional no momento.
Com duas edições anteriores que atraíram cerca de 20 mil pessoas presencialmente e quase 500 mil espectadores únicos na última transmissão, o Plantão cresceu de projeto independente a referência nacional.
Descentralizar para fortalecer
A decisão de manter o Plantão Festival Fortaleza fixo na capital cearense está diretamente conectada à missão fundacional da 30PRAUM. Toda a concepção do projeto foi desenvolvida com a ideia de descentralizar a produção de rap do eixo Rio-SP, mostrando a potencialidade do Nordeste. Num mercado musical historicamente concentrado no Sudeste, posicionar Fortaleza como polo produtor de um festival de rap de escala nacional é um ato político tanto quanto cultural.
Trazer artistas de outras regiões para tocar em Fortaleza, e não o contrário, inverte uma lógica que o mercado fonográfico brasileiro reproduziu por décadas.

