Wanderson Mateus dos Santos, o Sabota Jr., filho do rapper Sabotage, negou ter participado do ato de apoio a Flávio Bolsonaro (PL) na Avenida Paulista, no domingo (18). Ele apareceu num vídeo da manifestação que circulou nas redes e virou assunto entre fãs de rap, mas diz que só atravessou a avenida para chegar ao metrô e que não apoia a direita.
Em áudios enviados à imprensa nesta quarta-feira (21), Sabota Jr. confirmou que é ele nas imagens e contou o que foi fazer na região: tirar fotos para divulgar uma camiseta da marca Sabotage. “Eu passei raiva lá”, resumiu, sobre o que ouviu no caminho.
O vídeo que colocou o filho de Sabotage no ato
O vídeo foi publicado no X no próprio domingo e mostra pessoas acompanhando o trio elétrico do “Bloquinho do 22”, como foi chamada a concentração dos apoiadores. Nos segundos finais, Wanderson aparece perto da câmera, e foi essa cena que levou internautas a apontá-lo como participante do ato. Segundo ele, estava de camiseta branca, ao lado de um amigo, Ricardo, que vestia uma camiseta azul de skate.
A manifestação aconteceu a uma semana do segundo turno entre Flávio e Lula (PT), marcado para o domingo (25), e teve a presença do candidato, do deputado Nikolas Ferreira, do governador Tarcísio de Freitas e do prefeito Ricardo Nunes, entre outros políticos. Contagens feitas a partir de imagens aéreas estimaram o público entre 72 mil e 76 mil pessoas.
O que Sabota Jr. diz que foi fazer na Paulista
Pela versão de Wanderson, o plano do dia não tinha nada de político. Ele pretendia tirar fotos na loja da Renner da Avenida Paulista para divulgar a camiseta da marca Sabotage feita em parceria com a Renner e o Corinthians, almoçar num shopping da região e depois seguir para um evento de rap no Ipiranga, perto de onde mora. Como estava sem carro, foi de metrô, e diz que só soube da manifestação já dentro do trem, ao ver gente chegando com a camisa da seleção.
Ele desceu na estação Brigadeiro e encontrou a Renner fechada por causa do ato. Na volta, não conseguiu embarcar na mesma estação: segundo ele, a Brigadeiro e a Trianon-Masp só permitiam a saída de passageiros, e para pegar o metrô era preciso caminhar até a Consolação. O caminho obrigou os dois a atravessar a Paulista no meio da manifestação. Wanderson conta que o amigo chegou a avisar que alguém poderia fotografá-lo ali e achar que ele apoiava o candidato, mas que decidiu seguir em frente. Depois soube que a loja reabriu, mas não voltou lá no mesmo dia.
As parcerias da marca Sabotage com Renner e Corinthians
As parcerias que Wanderson foi divulgar são recentes. Em abril, o Corinthians lançou uma coleção em homenagem a Sabotage, corintiano declarado, no dia 3, data em que o rapper completaria 53 anos. A linha tem camisetas, regatas, moletons, bonés e balaclavas, vendidos nas lojas do clube e no e-commerce da collab. Em setembro, o próprio Sabota Jr. gravou um vídeo convocando a torcida a comprar a camiseta.
Já a parceria com a Renner foi divulgada por ele em agosto. A rede vende hoje uma linha de peças com a marca Sabotage, com camisetas que estampam “Rap é Compromisso”, o nome do único disco que o pai lançou em vida.
“Não sou de direita”, diz Sabota Jr.
Wanderson afirma que não é de direita, que não estava na Paulista para apoiar ninguém e que sempre apoiou a esquerda. Ele diz que nunca fez publicações políticas nas redes, nem de um lado nem do outro, e chamou de sem cabimento a associação do nome dele à campanha de Flávio. Também negou ter aplaudido ou gritado durante a travessia e contou que nem parou para comprar água com os ambulantes que circulavam pelo ato.
O que mais o incomodou, segundo ele, foi o que ouviu no caminho: comentários contra moradores de favela e contra o rap, o movimento do qual faz parte e do qual vive. Wanderson lembrou que a família passou necessidade depois da morte do pai e disse que as falas aumentaram a raiva enquanto cruzava a avenida.
Quem é Sabota Jr., filho de Sabotage
Wanderson é o único filho homem de Sabotage. Ao lado da irmã, Tamires Rocha, cuida de projetos ligados à memória e à obra do pai. Os dois fundaram o Instituto Somos Todos Um, que depois virou o Centro Cultural Sabotage, no bairro da Saúde, na Zona Sul de São Paulo, com aulas de capoeira, futebol, boxe, DJ, produção musical e teatro, além de apoio psicológico.
Os irmãos também participaram do lançamento do álbum póstumo “Sabotage”, em 2016, e das homenagens pelos 50 anos do rapper, que incluíram o disco “Sabotage 50”, com releituras gravadas por nomes como Djonga, Filipe Ret, Don L e Sant. No Instagram, onde tem 64 mil seguidores, Wanderson divulga os produtos oficiais da marca Sabotage.
Sabotage, o rap e a política
O caso repercutiu porque Sabotage é um dos nomes mais respeitados da história do rap nacional, com uma obra marcada pela realidade da periferia, pelo racismo e pela violência policial. Mauro Mateus dos Santos cresceu na favela do Canão, no Brooklin, lançou “Rap é Compromisso” em 2000, atuou em “O Invasor” e “Carandiru” e foi assassinado em 24 de janeiro de 2003, aos 29 anos. Mais de duas décadas depois, segue com números fortes no streaming, como mostramos quando Sabotage superou 110 milhões de streams em 2025.
Em 2002, numa entrevista à MTV, o rapper contou que tinha votado no PT para presidente e disse que cobraria resultados do novo governo. O episódio com o filho acontece num segundo turno em que boa parte da cena se posicionou publicamente, como contamos ao mostrar o movimento de rappers contra a direita no segundo turno e o voto declarado de KL Jay, dos Racionais.





