Chefin no futebol profissional: rapper é registrado no Arouca e vai disputar a Série B2 carioca

Aos 22 anos, com mais de 200 milhões de plays em "212", o rapper joga de graça pela Série B2 do Carioca e mantém shows de sexta a domingo.
Chefin no futebol profissional: rapper é registrado no Arouca e vai disputar a Série B2 carioca

Acordar às 6h, encarar uma hora e meia de deslocamento até a Penha e treinar de graça num clube da quarta divisão estadual. Não é a rotina de quem precisa de dinheiro, e é justamente por isso que a história de Chefin chama atenção. Aos 22 anos, com “212” acima de 200 milhões de reproduções no Spotify, o rapper foi inscrito pelo Arouca Barra Clube/Rio de Janeiro para disputar a Série B2 do Campeonato Carioca.

O nome de batismo é Natanael Cauã Almeida de Souza. Seu registro apareceu no Boletim Informativo Diário (BID) da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) em 24 de setembro, o que liberou a participação na competição estadual. Em campo, joga como ponta esquerda. Fora dele, a agenda de shows segue de pé. Quem desconfia de golpe de marketing esbarra num detalhe: de acordo com as reportagens do ge, Chefin não recebe salário do clube.

Adicione a RAP MÍDIA
como sua fonte preferida no Google

Dos testes no Vasco e no Bangu à vaga no Arouca

O sonho é antigo. Chefin cresceu em Bangu, na região da Vila Kennedy, e foi a avó quem o levava para jogar bola. Aos 12 anos, fez testes no Vasco e no Bangu e não passou em nenhum dos dois. A música entrou no meio do caminho, o futebol virou assunto de pelada e a vontade ficou guardada.

Foi o rap que abriu espaço na vida dele. “212” ultrapassou 200 milhões de reproduções no Spotify, segundo os números citados pelo ge, e os shows passaram a ocupar o calendário inteiro. O dinheiro veio, o conforto também. A bola, mesmo assim, continuou cobrando.

A porta se abriu pela pelada, não por peneira. Chefin passou a jogar partidas informais com Philippe Coutinho e ali conheceu Souza, ex-volante com passagem por Vasco e Fenerbahçe, hoje no comando técnico do Arouca Barra Clube/Rio de Janeiro. Souza acompanhou o rapper em campo. Chefin mandou vídeos de lances em jogos amadores e, na sequência, fez um teste. Nas palavras dele ao ge, entregou o material, foi chamado e deu certo.

Na entrevista publicada em 8 de outubro, ele deixou claro que o sucesso na música não fechou essa conta:

Meus sonhos não acabam na música. Meu sonho é todo dia. Meu sonho de ser jogador não era só quando eu era criança, está em mim até hoje.

Chefin

Num meio em que o artista que estoura costuma reinvestir no próximo hit, Chefin reinveste em treino de manhã cedo. Dá para discutir se é decisão sensata. Difícil é chamar de oportunismo uma escolha que custa horas de sono e não paga um centavo.

Mais lidas

Treino às 6h e show no fim de semana

Antes de vestir a camisa do Arouca, Chefin já treinava havia cerca de sete meses numa academia de performance na Barra da Tijuca, na Zona Sudoeste do Rio. Quando o clube entrou na história, a preparação ganhou um campo na Penha, na Zona Norte, com treinos pela manhã. Ele conta que acorda por volta das 6h e que o trajeto pode levar uma hora e meia.

A música não ficou para trás. Os shows costumam acontecer às sextas, aos sábados e aos domingos. Os jogos do campeonato caem durante a semana. No papel, os dois calendários quase não se cruzam. Na prática, a rotina de Chefin no futebol profissional exige que o corpo de quem passou o fim de semana no palco esteja inteiro para correr pela ponta esquerda, e isso é uma conta que só o atleta consegue pagar.

O tamanho do nome dele fora de campo explica por que ele pode se dar a esse luxo. São mais de 12 milhões de seguidores nas redes e quase 7 milhões de ouvintes mensais no Spotify, segundo os números apresentados pelo ge em outubro. Chefin faz parte da Mainstreet Records, gravadora ligada a Orochi, e subiu no Palco Sunset do Rock in Rio em 2024. Quem tem esse histórico de palco não precisa de salário de quarta divisão para pagar o aluguel, e talvez por isso consiga tratar o futebol como projeto pessoal e não como plano de carreira.

Natanael em campo, Chefin do lado de fora

A diferença que ele mais valoriza está no tratamento. No palco, o nome é Chefin e a atenção vem junto. No treino, ele diz sentir outra coisa:

Ali, na verdade, eu sinto que não é o Chefin, é o Natanael. Me sinto uma pessoa normal.

Chefin

Para quem vive sob 12 milhões de pares de olhos, essa anonimidade parcial é rara. O vestiário não liga para stream. O que conta é se o ponta esquerda recompõe, se acerta o passe, se aparece para o treino de manhã.

Ele mesmo faz questão de separar as coisas. Disse que a vaga veio do teste, que foi chamado e passou, e que está no clube para somar com o grupo, não só pelo que representa fora do campo. É um discurso que pede cobrança, e quem já ouviu muito artista anunciar projeto paralelo sabe que isso não é comum.

Chefin também afirmou que não encara a experiência como passagem ocasional. A ideia é continuar jogando enquanto administra a agenda musical. A Série B2 vai testar essa promessa de um jeito que o palco nunca testou: com jogo no meio da semana, sem salário no fim do mês e com um fim de semana de show nas costas. Nos primeiros jogos e nas primeiras viagens, a rotina de Chefin mostrará se a promessa é factível ou apenas retórica bem-colocada.

✉ O RESUMO DA CENA

Todo Domingo, as notícias mais brabas da semana no seu e-mail. Sem spam, só a visão!

NARDONI

NARDONI

Carioca que não gosta de praia, apreciador de café e água com gáix, criador da RAP MÍDIA.

Em alta agora!