VANDAL lança VANGUARDAH, álbum que une rap, samba-reggae e música afro-sinfônica

Disco de dez faixas saiu no Dia de Santa Dulce dos Pobres e inaugura trilogia de um dos pioneiros do grime e do drill no Brasil

O rapper VANDAL escolheu o dia 13 de agosto para soltar VANGUARDAH seu novo álbum de estúdio. A data não é aleatória: celebra Santa Dulce dos Pobres, figura central na história da família do artista. Sua avó, Neuza, encontrou acolhimento nas Obras Sociais Irmã Dulce durante um período de internação. Essa devoção herdada atravessa o disco do título à identidade visual, transformando o lançamento numa homenagem dupla à santa e à Bahia.

Com dez faixas, o projeto percorre rap, samba-reggae, pagodão baiano e música afro-sinfônica para construir um retrato da Bahia contemporânea. Para quem acompanha VANDAL desde TIPOLAZVEGAZH lançado em 2015, fica claro que VANGUARDAH representa a chegada de um trabalho que o próprio artista descreve como o mais profundo que já fez.

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O processo que ninguém planejou

A construção do álbum aconteceu sem equipe montada previamente, sem reunião de kickoff, sem planilha de colaborações. Os nomes foram chegando à medida que o projeto tomava forma. Russo Passapusso entrou e assumiu a direção musical, aproximando VANDAL do maestro Ubiratan Marques e da Orquestra Afrosinfônica. A direção artística ficou nas mãos de VANDAL e Phodismo. O produtor Tiago Simões foi o ponto de partida: foi com ele que as ideias que antes existiam principalmente nos palcos começaram a ganhar consistência de estúdio.

As participações de Josyara, Giovanni Cidreira, Liz Reis, Lívia Nery, SUHHH, Hiran e DJ KL Jay se somaram aos instrumentistas Paulo Pitta, Colibri e aos integrantes da Orquestra Afrosinfônica. O resultado são arranjos orquestrais, coros e uma instrumentação que não aparece em nenhum outro momento da discografia de VANDAL. A mixagem e a masterização ficaram com Luciano Scalercio, engenheiro que já trabalhou com Anitta, Matuê, IZA, Ludmilla, Pabllo Vittar, Veigh e Matuê, entre outros, e acumula projetos indicados ao Grammy Latino.

A faixa que definiu tudo

A música que dá nome ao disco foi também a primeira concebida para ele. A ideia de reinterpretar o conceito de vanguarda a partir da perspectiva de um artista negro, baiano e nordestino acompanhava VANDAL há anos. Quando a canção tomou forma, ela passou a servir como bússola para as demais. Urgência, identidade, pertencimento e transformação viraram os eixos em torno dos quais as outras faixas foram sendo construídas.

Essa lógica invertida, onde uma canção define a direção do álbum inteiro em vez de ser encaixada nele depois, revela como VANDAL trabalha. Pioneiro do grime e do drill no Brasil, ele nunca operou dentro das réguas que o mercado costuma oferecer. Sua referência central não está em Londres nem em Chicago: está nas ruas de Salvador, no samba-reggae, nas festas de largo, no pagodão. Os gêneros globais entram como linguagem, mas o sotaque é baiano do começo ao fim.

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O grande mote desse disco é a vida. Respirar, entender que estou vivo e transformar isso em música. Eu perdi muitas pessoas ao longo do caminho e isso me faz sentir que preciso colocar todas as minhas ideias no mundo enquanto tenho tempo.

VANDAL

Essa frase não soa como texto de press release porque não é. É a chave para entender o que VANGUARDAH tenta fazer: transformar urgência biográfica em manifesto coletivo. Os temas do álbum (religiosidade, memória, afetos, perdas, ancestralidade, pertencimento) não estão organizados como conceitos num caderno de criação. Eles vazam para as faixas porque fazem parte da vida do artista.

Curador, músico, memória viva

VANDAL atua como um dos curadores da Cidade da Música da Bahia, museu dedicado à preservação da memória musical do estado. Dentro do espaço, há uma sala dedicada ao hip hop. Essa atuação conecta o álbum a uma agenda mais ampla de valorização da cultura baiana que vai além dos palcos e das plataformas. Figura recorrente no Carnaval ao lado do BaianaSystem, o artista ocupa um lugar na cena soteropolitana que não é facilmente preenchido por mais ninguém.

A identidade visual de VANGUARDAH nasce da religiosidade popular baiana e celebra a manufatura artesanal. Numa era em que arte gerada por algoritmo disputa espaço com criação humana, o disco toma partido de forma explícita pelo processo manual, pelo que tem mão, tempo e intenção por trás.

Primeiro capítulo de uma trilogia

VANDAL já avisou que VANGUARDAH não fecha um ciclo: abre um. O álbum é o primeiro de uma trilogia. O segundo disco, FEZTAH DEH LARGOH amplia o diálogo com os ritmos populares das festas de largo baianas. O terceiro, EAUH DEH PARFUMH se aprofunda numa pesquisa sonora mais sofisticada, construída a partir de samples e experimentações de produção. Os três projetos foram concebidos dentro de um mesmo processo criativo, mas cada um carrega identidade própria: não funcionam como continuação direta um do outro.

Na prática, VANDAL está entregando um projeto de longo prazo numa indústria viciada em singles de três minutos e drops semanais. Três álbuns com conceitos distintos, desenvolvidos em conjunto, lançados em sequência. É uma aposta na escuta, na obra, no fôlego. Quem ouviu VANGUARDAH já sabe que o artista tem material para sustentar essa promessa. O próximo passo é esperar FEZTAH DEH LARGOH.

O RESUMO DA CENA

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NARDONI

NARDONI

Carioca que não gosta de praia, apreciador de café e água com gáix, criador da RAP MÍDIA.

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