Felipe Moda, criador do The Box, morre aos 26 anos

Produtor de Diadema estava por trás do projeto que chegou ao Billboard Brasil Hot 100; morte aos 26 anos deixa vazio na cena.

A notícia começou a circular pelos stories, pelos grupos de WhatsApp, pelas timelines de quem acompanha a cena de perto. Felipe Moda, o produtor e idealizador do The Box, morreu aos 26 anos. Até o fechamento desta matéria, a causa do falecimento não havia sido confirmada oficialmente. O que se sabe veio das publicações que artistas próximos fizeram nas redes sociais, cada uma carregando o peso de quem perdeu alguém de dentro.

Para quem não conhece o nome, conhece o projeto. Uma caixa. Um fundo verde. Dois microfones. Quatro cantores rimando ao vivo, sem playback, sem filtro, sem a proteção de uma produção que esconde o que o artista não tem. Essa foi a ideia de Felipe Moda, construída na raça durante a pandemia, em dezembro de 2020, por um jovem de Diadema que dividia o tempo entre a produção musical e um trabalho em call center.

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A fórmula que ele tirou da própria cabeça

Felipe Moda contou em entrevista à Billboard Brasil, em 2024, como a estética do The Box nasceu. “Eu juntava dinheiro o ano todo para fazer o medley. Criei na minha mente o contexto da caixa verde. Me inspirei em Os Simpsons, quando você vê o amarelo, você sabe que são eles. Quis fazer o mesmo: quando você vê o verde, você vai saber que é a The Box.” Simples assim. Uma referência da infância transformada em identidade visual de um dos projetos audiovisuais mais relevantes do hip hop brasileiro recente.

A inspiração vinha dos cyphers e medleys de comunidade que ele consumia no Facebook e no YouTube na época de escola. Queria mostrar o artista da forma mais crua possível, sem mediação, sem o polimento que às vezes apaga o que há de mais real numa voz. Esse princípio provou ser uma visão de mercado afiada. O The Box acabou integrando o casting da Sony Music Brasil. Como o próprio Felipe dizia, “por ser algo tão diferente, se vendeu sozinho.”

O ápice chegou com o “The Box Medley Funk 2”, que reuniu MC Tuto, MC Laranjinha, MC Brinquedo e MC Cebezinho. A faixa ultrapassou 45 milhões de visualizações no YouTube e chegou ao segundo lugar no Billboard Brasil Hot 100. Felipe era o roteirista, o diretor e o produtor por trás de tudo isso. Cada detalhe passava por ele.

A visão não ficou presa ao estúdio. Ele chegou a construir uma caixa de madeira desmontável de 3 metros de altura para levar a estética do projeto para ambientes externos: praias, cachoeiras, qualquer lugar onde a rua pudesse se sentir em casa.

A dor que ficou nas redes

Tevito foi um dos primeiros a se manifestar. “Meu coração está em pedaços, você deixou um vazio na gente, irmão. Que você encontre a luz, porque sua passagem por aqui foi somente isso. Desculpa não ter ido te ver essa semana inteira que você me chamou tanto. Eu te amo tanto, irmão”, escreveu o artista em uma publicação que circulou rapidamente. Ouroempessoa compartilhou uma oração pelo amigo: “Pai Santo, Deus eterno e Todo-Poderoso, nós Vos pedimos por Felipe, que chamastes deste mundo. Dai-lhe a felicidade, a luz e a paz.”

MC Dudu usou os stories de forma diferente. Ao lado do luto, veio um alerta direto aos seguidores. “Nada disso é piada. Cuidem dos seus amigos, familiares e conhecidos. Não é papo de velho, é vida real.” E foi além: “Não brinco com essas coisas nem venho dar ideia aqui sempre, mas essa parada de romantização de uso abusivo de remédio não é legal e nunca foi. Cuidem da saúde mental de vocês.” Dudu não explicou mais nada. Não precisou. Quem leu entendeu o recado.

A fala do rapper toca num ponto que a cena tem evitado com frequência. A romantização de comportamentos autodestrutivos virou estética em boa parte do trap e do rap atual, e essa estética tem consequências reais. A morte de Felipe Moda, independente da causa oficial que ainda não foi divulgada, chegou num momento em que esse debate precisa acontecer com mais seriedade.

Felipe Moda saiu de Diadema com uma ideia, uma câmera e uma caixa verde, e construiu algo que chegou ao mainstream sem abrir mão da autenticidade que o originou. Tinha 26 anos. O The Box continua existindo como projeto, mas a mente que o concebeu, que imaginou o fundo verde como Os Simpsons imaginaram o amarelo, que juntava dinheiro o ano todo para gravar um medley, que carregava uma caixa de 3 metros para uma praia, essa mente foi embora cedo demais. O vazio que isso deixa na cena não tem caixa que caiba.

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